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Estou a começar a estudar português, espero que seja pelo menos compreensível. Tenham piedade, por favor :')
Perseguindo sombras
Um murro.
Se calhar podia conceder-se um murro.
Hikaru pensava nisso as vezes todas que o via, e as vezes todas desistia.
Teria sido um problema, sabia isso; toda a cidade de Misaki teria apreendido-o dentro de uma tarde, o seu pai teria-o criticado, todo mundo teria-o criticado, porque se meter na vida dos outros sempre foi a política desse lugar.
Embora, ao pensar a que satisfação teria sido fazê-lo, o desejo permanecia.
Esse dia veio pela enésima vez para pagar o atraso na restituição do DVD, e ele como sempre o convidou a entregá-lo.
Não o fazia por nenhuma política particular da loja de vídeo, e Asahi provavelmente sabia isso.
Tinha de se ter acostumado, no entanto, à gente que lhe dizia para deixar de pensar nela, para deixar de continuar a viver acreditando que um dia ela ia voltar, que tudo ia voltar como antes.
Hikaru nunca foi muito pródigo de conselhos com ele; por um lado estava bem com que continuasse a pensar só em Kasumi, que ignorasse a continua e constante presencia de Hanae ao seu lado.
Pelo outro, no entanto, não conseguia ser tão egoísta.
Hanae sorria, sempre. Nunca se queixava de Asahi e do seu comportamento frio e distante, não mostrava sofrer pela constante presencia de Kasumi entre eles, contentava-se com as migalhas que ele lhe dava e continuava a perseverar, apesar do que acontecia.
Há três anos via-o arruinar por trás da ideia de algo que nunca ia voltar, e há três anos – se calhar ainda mais – Hikaru via ela perseguir algo que nunca ia obter.
Teria gostado de lho poder dizer; dizer-lhe que Asahi não era destinado a fazê-la feliz, que nunca tentou e que embora o fizesse nunca teria conseguido.
Que ele em vez só esperava a ocasião para se testar, que lhe mostrar o que significava ter ao seu lado alguém para quem ela fosse a única ideia fixa, que não fosse contaminado com nada e ninguém.
Suspirou e voltou a concentrar-se no homem à sua frente, pegando o dinheiro com um gesto mecânico, sem sequer olhar para ele.
“A Hanae continua a esperar que entregues o filme.” informou-o, a levantar uma sobrancelha.
Asahi suspirou e encolheu os ombros.
“Vou fazê-lo. Um dia vou fazê-lo. Mas isto não tem nada a ver com ela, sabes isso. E a Hanae também sabe.”
Hikaru fez um som desdenhoso e abanou a cabeça.
“Se te convenceres de que não tem nada a ver com ela, então diz-lhe claramente que...” interrompeu-se, a franzir os lábios.
Não conseguia, raios.
Não lhe conseguia dizer para deixar de a magoar deliberadamente, de pôr termo a todas as esperanças dela, porque sabia quanto ela teria sofrido e porque tinha medo de que começasse por sua vez a correr por trás dum fantasma.
Se calhar Asahi e Hanae eram mais semelhantes do que acreditava, mas isso não significava que houvesse um destino escrito por eles.
“O quê lhe deveria dizer? Ela sabe já tudo o que penso, certo?” mordeu um lábio, inseguro. “Não a quero magoar e nem sequer a quero fazer feliz. Eu tento, Hikaru. Não...” estava inseguro, e via-se, mas não necessariamente culpável. “Não é por minha causa que está assim. Não é culpa minha.”
Um murro.
Um murro, se calhar, teria sido suficiente.
Ou se calhar teria gostado de continuar a bater-lhe uma e outra vez, a dizer-lhe que não era justo, que o que estava a fazer-lhe era pior do que qualquer outra coisa, que não a merecia e que deveria ter encontrado a maneira para a deixar ir, para a soltar desse limbo onde se fechou voluntariamente três anos antes.
Apertou a mão, tão forte que os nós dos dedos se tornaram brancos, e Asahi reparou-o.
“Vai-te embora.” ordenou Hikaru, a virar as costas.
Já não o queria ver. Atingiu o seu limite.
O rapaz não disse nada mais e foi embora, a fechar delicadamente a porta por trás dele.
Se Hikaru pudesse, teria-lhe impedido para voltar.
Que nunca o entregasse, o DVD.
Que Hanae percebesse a sós que estava a lutar por uma causa perdida.
Que se desse conta dele, finalmente, que sempre esteve lá, que nunca a teria feito sentir tão insignificante.
Suspirou e fechou os olhos por um instante.
Não podia fazer nada para a dissuadir que Asahi não estivesse já a fazer.
Os jogos, por fim, estavam todos nas mãos de Hanae.
*
Encontrou-a ao Aoyama, nessa tarde.
Estava sentada numa mesa perto do bar, e ria de algo com Natsuki.
Era tão bonita quando ria.
Hikaru suspirou, aproximou-se dela e forçou um sorriso no seu rosto ao ir sentar-se ao lado dela.
Era a única, afinal das contas, pela qual valesse a pena esforçar-se.
“Ah, bom dia. Conseguiste sair desse lugar escuro e tenebroso?” fez troça dele a cozinheira, a continuar a gargalhar com Hanae.
Hikaru encolheu os ombros, pouco divertido.
Não podia negar que fosse a verdade.
Natsuki pareceu reparar um bocado de tensão, no olhar dele ou no comportamento, e escolheu afastar-se para se ir cuidar dos outros clientes.
Hanae bebeu um gole da sua cerveja, deixou-se ir com as costas na cadeira e olhou absorta frente à si para o mar.
“Hoje de manhã estava ocupada, não consegui passar à loja de vídeo.” disse-lhe, e Hikaru percebeu imediatamente o que queria perguntar.
“Não.” respondeu, brusco. “Veio para pagar o atraso, como de costume, mas não entregou o DVD.”
Hanae sorriu, como sempre.
“É muito teimoso, não achas? Mas ainda bem...” encolheu os ombros e acentuou o sorriso. “Não é mais teimoso do que eu.”
Hikaru suspirou.
Abstinha-se e abstinha-se e abstinha-se.
Começava a não aguentar mais. No meio de todos os que tinham uma palavra a dizer sobre Asahi, sobre Kasumi e tambés sobre Hanae, ele primeiro teria tido algo para dizer, embora sempre ficou em silêncio, porque nunca viu a utilidade de falar.
Agora estava farto.
“Quando vais acabar?” perguntou à queima-roupa, sem sequer se virar para a ver. Sabia que se o tivesse feito teria continuado a calar-se, e então as coisas nunca teriam mudado, não por parte dele.
Em vez, Hanae olhou para ele. Sentiu-a claramente virar-se, sentiu o olhar dela.
Pelo canto do olho, viu que deixou de sorrir.
“Quando vou acabar que?” perguntou, e pelo tom de voz transparecia que sabia exatamente o de que falava, mas que o quisesse ouvir.
Não lho ia tornar simples, se podia evitá-lo.
“O Asahi.” bufou ele. “O continuo correr atrás dele, o continuo deixar-lhe acreditar que todas as coisas que faz sejam certas. O continuo magoar-te para não obter absolutamente nada por parte dele. O quê esperas que faça, Hanae? Queres continuar a esperá-lo até o dia em que se vai render perante o fato de que Kasumi não vai voltar? Queres esperar que finalmente renuncie ao DVD, que deixe de saudar o painel, que te tire uma foto para que podem viver felizes para sempre? Todo isto é...” interrompeu-se.
Encontrou a coragem para voltar a olhar para ela, e viu-a sorrir de volta.
Não percebia, não percebia por nada o que estava a pensar.
“Eu sei. Eu sei que o Asahi não me ama e que estou a agarrar-me à nada. Embora não o consigo evitar. Eu sei que um dia ele vai deixar de correr por trás duma lembrança, e eu sei também que isto não significa que vai começar sentir algo por mim.” suspirou, levantou os braços para se esticar e logo os dobrou por trás da cabeça, a deslizar para a frente na cadeira. “Mas preciso acreditá-lo. Exatamente como ele acredita no retorno da Kasumi. É loucura e é irracional, mas afinal não são a mesma coisa? Se todos dois ficarmos desapontados nas nossas esperanças vai ser uma pena, mas pelo menos poderíamos ficar em paz com nós mesmos e dizer que tentámos, que acreditámos nisso. Acho que seja a única maneira que temos para demonstrar a nós mesmos como amamos, para nós convencer dia após dia de que temos razão.”
Hikaru acenou com a cabeça, porque afinal percebia, porque afinal ele também era como eles.
Sempre a perseguir algo, sempre sem obter resultados e sem conseguir ver aproximar-se o objetivo, mas a continuar a correr porque já não se podia parar, uma vez começado.
Voltou a olhar à sua frente, como se os olhos tentassem ir mais além do horizonte: era quase o pôr do sol, e o sol corava o céu dum vermelho alaranjado, intenso; encontrou-se a pensar em Asahi, de repente, a ele que tirava uma foto nesse momento, Hanae como protagonista.
Pensou em quanto teria sido bom o sorriso que a rapariga lhe teria dirigido nessa altura, embora soubesse que ele não ia devolver.
E logo ele também sorriu, embora nesse instante não tivesse alguma boa razão para o fazer.
“Se calhar é mesmo assim.” disse-lhe, a renunciar por enquanto à batalha. “E se calhar um dia o Asahi percebera mesmo ter jogado fora anos da sua vida, e se calhar vai reparar-te.” suspirou, a abanar a cabeça, antes de ficar de pé. “É melhor que eu ir agora.” disse-lhe, a dirigir-se para a rua principal.
“Vai-te já embora? A loja de vídeo fechou, tens alguns programas interessantes?” perguntou a rapariga, a acabar depressa a cerveja e a inclinar-se para o bar, lançando uma nota perto da caixa e fazendo um sinal para Natsuki, para depois o alcançar.
“Nada em particular.” respondeu Hikaru, a encolher os ombros. “Só, estou farto. Quero ir para cassa.”
“Ah, continuas o mesmo.” repreendeu-o Hanae, a bater uma mão no ombro dele. “Deverias começar a ficar ocupado, sabes? Sempre ficas fechado nesse lugar, só sais connosco, e fazes isso quase nunca. Não queres olhar um bocado ao redor?” perguntou, a fazer troça dele.
Hikaru, contra todas as expectativas, riu.
“Oh, mas...” murmurou, a baixar-se para ela com ar conspirador. “Eu sei exatamente para onde olhar, Hanae.”
Foi mais rápido, a tentar ir mais depressa do que ela, mas resultou não ser necessário.
A rapariga parou, e mesmo sem olhar para ela Hikaru sabia que tinha uma expressão confusa.
Quase lamentou por ela.
Teria gostado de voltar para trás, de lhe dizer que havia coisas das quais nunca lhe poderia ter falado, porque não o queria fazer até ela o perceber a sós.
Hanae e Asahi se calhar eram iguais, estabeleceu, mas ele afinal das contas não era como eles.
Todo mundo podia falar de Asahi e da maneira como se iludia, todo mundo podia esperar que um dia Hanae conseguisse fazer-lhe abrir os olhos e fazer-se olhar duma maneira diferente, por uma vez.
Hikaru ia guardar o que sentia, e só ele teria sido testemunha dessa caça sem resultados.
Quando Hanae tivesse percebido isso, se o tivesse feito, ele teria sido prestes a fazê-la feliz como sempre mereceu.
Até então, como os outros dois, teria-se contentado com perseguir uma sombra.
