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The Reason

Summary:

Vazio. Tédio. Insatisfação. Isso era tudo que ele sentia, e só precisava de uma distração... O que ele não esperava, no entanto, é que essa distração viria na forma de um lindo mexicano que estava prestes a endireitar sua vida torta para sempre.

Notes:

AVISO IMPORTANTE!

Os "q!" foram retirados da frente dos nomes por puro detalhe estético, mas que fique bem claro que essa história se trata APENAS dos personagens, e não dos criadores de conteúdo que os interpretam.

Dedico essa história ao meu filhote EsTorrente, que é um artista ocupado e fenomenal, e mesmo assim achou um tempo de criar uma linda capa para essa história (te quiero mucho, hijo!), e também ao fandom do QSMP, que me ajudou a chegar em 20k seguidores em menos de um mês. Obrigado por tudo! ♡

Um agradecimento especial também à @valkyriachaos por me ajudar na revisão dessa história! Eu estaria sofrendo pakas sem ela LEKGMAELKG

Chapter 1: ATO I, CELL

Chapter Text

CAPA


 

CELL1

Tédio. Isso era a única coisa que ele conseguia sentir nos últimos tempos. O sentimento era tão absurdo e incômodo que era quase palpável, e Cell não conseguia fazer nada além de grunhir em frustração enquanto encarava o teto descascado de sua cela.

Ao contrário do que se espera de um detento comum, ele já tinha feito tudo que tinha para fazer naquele lugar. Tomou controle das gangues de contrabando, instaurou novas regras de convivência (e execução), comprou a lealdade de cada um dos guardas, tinha inúmeros contatos do lado de fora, seu nome agora era respeitado e temido não só em algumas áreas, mas sim por toda Alcatraz, e outras inúmeras coisas que ele focou em adquirir nos últimos dois anos que escolheu permanecer ali. Todos seus objetivos tinham sido alcançados, ninguém mais o desafiava ou batia de frente com ele — era paz absoluta o tempo inteiro .

Ou seja, era tedioso pra caralho.

Levou uma das mãos ao rosto, esfregando a barba por fazer e então bagunçando seu cabelo — agora longo devido ao passar dos anos. Seus braços estavam cobertos com novas cicatrizes que adquiriu no dia em que fora traído por uma certa dupla , e com diversas outras que foi ganhando durante o processo de tomar por completo o controle da prisão para si. As cicatrizes há muito tempo já não doíam mais, e isso o incomodava profundamente. Ansiava por sangue, por confusão, por qualquer coisa. Estava cansado desse vazio que sentia todos os dias, que foi capaz até mesmo de anular seus tiques nervosos e temperamento explosivo.

Cell já não era temido pela sua impulsividade e comportamento errático. Ele era temido pela sua frieza, pela sua completa falta de expressão enquanto removia os dedos de um detento novato que ignorou as “regras de convivência” ou pela facilidade e rapidez com que quebrava pescoços, sem nem ao menos demonstrar um pingo de remorso. Hoje em dia ele era um homem apático, silencioso, e letal… tal como um grande felino selvagem que espreita nas trevas até dar o bote com uma precisão assustadora.

Felizmente para os guardas e os outros detentos, ele já estava desinteressado demais em tudo naquele lugar para ativamente “caçar” alguém, mas nas raras ocasiões que sua atenção foi chamada, os acontecimentos foram mais que o suficiente para que ele adquirisse o seu mais novo e “amigável” título:

O carniceiro de Alcatraz.

Mas ele estava pouco se lixando para esses títulos ridículos. Recebeu inúmeros com o passar do anos e nunca deu muita bola a eles, pouco se importando com a sua infâmia e apenas focando em atingir os seus objetivos… Mas agora, ele não tinha mais esses objetivos para atingir e nem tinha motivação para encontrar outros. Talvez fosse hora de escapar e caçar aquela dupla de tolos que achou pertinente fazê-lo de idiota? Sorriu por detrás da palma descansando contra o seu rosto, e lambeu os lábios lentamente — uma alteração sutil que seu tique sofreu durante os anos.

É. Eu gosto dessa ideia. Eu gosto muito dessa ideia.

— Cell — uma voz interrompeu seus devaneios, seguida por um tintilar de chaves contra as grades da cela. — Acorda, bela adormecida. É hora do café da manhã.

Ele abriu um dos olhos para encarar o guarda destrancando sua cela e sorriu zombeteiro ao reconhecer quem era.

— Bom dia pra você também, Virgílio. Como vai a família?

O guarda, de aparência mais velha, se levarmos em conta seus cabelos e bigode grisalhos, apenas riu sem humor e balançou a cabeça negativamente. Virgílio Nogueira era o guarda-chefe e um dos mais experientes de Alcatraz, além de ser o único que tinha coragem de interagir diretamente com Cell sem gaguejar a cada duas palavras. Os outros não faziam ideia de como ele conseguia.

— Vão estar bem enquanto você não souber quem são — Virgílio calmamente disse, terminando de abrir a cela e esperando do lado da porta aberta. — Vamos. É dia de chegada de novos detentos e os guardas estão inquietos. É melhor ter você junto com os outros caso algum dos novatos decida bancar o espertinho.

— Ooooh, carne nova? — Cell imediatamente pulou para fora da cama, seus olhos azuis brilhando com interesse. — Faz meses desde que não recebemos novos convidados.

— Esses são um caso especial, transferidos de uma penitenciária fora do país.

— Gringos? — Cell assobiou enquanto andava ao lado de Virgílio. — Eu nem lembro a última vez que importamos lixo de fora. É alguma ocasião especial?

O guarda suspirou pesadamente.

— Superlotação.

— Entendo, entendo.

Virgílio o encarou de soslaio.

— Uma olhada nos caras e esse teu sorriso bobo some do teu rosto, garoto.

— Que nada, meu velho. Esse lugar tá um puta tédio. Nada acontece, todo mundo tem medo de mim e ninguém mais tenta me peitar. Eu quero mais é que eles sejam um bando de arrombados e eu tenha novas motivações pra degolar alguém!

— Cellbit — a amargura de Virgílio era clara em seu tom de voz cansado. — Entre os cinco, existe um abusador.

Cell parou de andar, e assim como previsto pelo guarda, o sorriso animado do carniceiro desapareceu por completo.

Na próxima vez que ele falou, seu tom era de gelar os ossos.

— Eu pensei ter te dito pra não permitir esse tipinho na minha Alcatraz, Nogueira.

— Todos fomos contra — Virgílio murmurou, desgostoso. — Mas o diretor foi pago uma quantia exorbitante de dinheiro pelo auxílio, então ele só aceitou.

— Claro, o imbecil do diretor — Cell lambeu os lábios. — Esse cara já tá me irritando faz um tempo. Vai ser realmente uma pena se um dia ele sumir misteriosamente.

Virgílio fez uma careta.

— Por favor, não. Cada vez que você mata um diretor, eles mandam um pior do que o anterior pra substituir.

— É só eu continuar me livrando deles até mandarem um que obedeça as merdas das minhas regras — ele rosnou, estralando seu pescoço em irritação.

Eles dobraram o corredor e, embora Cell ouvisse as vozes dos outros detentos, ele esperava que nenhum deles decidisse topar com ele no momento. O único motivo pelo qual Virgílio ainda continuava vivo era porque ele acabou criando um certo carinho pelo ranzinza guarda-chefe com o passar dos anos (era solitário ser temido, então ele apreciava as conversas noturnas), mas se fosse qualquer outro guarda além dele, a pessoa já estaria sangrando até a morte.

Era bom que ele segurasse essa raiva, entretanto. Era ótimo . Quanto mais ódio ele acumulasse, mais dolorosa seria a morte que ele entregaria ao lixo humano que chegaria em breve, e a necessidade de ter o calor de sangue fresco correndo pelos seus dedos quase fez com que sua ansiedade tomasse controle de seu corpo e mente.

Ele odiava abusadores. Odiava. Uma das primeiras regras que ele instaurou em Alcatraz após tomar o controle do local foi o completo abolimento de tal ato revoltante, e se alguém fosse pego quebrando essa regra, não ia perder um dedo ou um olho… mas sim, receber o tratamento completo do carniceiro, além de ter uma morte lenta e dolorosa — tamanho era o desprezo de Cell para com aqueles que se atrevem a cometer tal crime repugnante.

Ele não era nenhum santo — muito pelo contrário, ele se considerava uma das piores coisas que já pisou na terra —, mas até ele tinha seus limites… e esse definitivamente estava no topo de sua lista. O que significava que, desses cinco novatos, só quatro viveriam para contar história — isso caso se comportassem de acordo como o demandado pelo rei de Alcatraz. Caso contrário, a coisa mudaria de figura bem rápido.

É o que veremos.

Virgílio eventualmente abriu a porta que dava para o salão comunal, onde refeições e interações em geral aconteciam, e assim que Cell pisou dentro do local, um silêncio ensurdecedor o seguiu.

Ele calmamente andou até uma mesa vazia no centro do salão e, durante todo o trajeto, sentiu olhares intrigados ou amedrontados em sua direção. Já estava acostumado com esse tipo de coisa (as pessoas raramente o fitavam com qualquer coisa além de pavor, rancor ou ódio), mas fazia tempo que sua presença não silenciava um lugar por completo, e até mesmo depois que ele se acomodou na mesa, se alguém se atreveu a voltar a conversar, foi em sussurros baixos que ele mal escutava.

Talvez fosse algo em sua expressão. Fazia tempo que Cell não se sentia furioso como estava se sentindo no momento, então não seria surpresa se seu rosto — normalmente apático —, estivesse mais assustador que o próprio capeta.

Bem, ele queria causar uma memorável primeira impressão nos novatos, então não se esforçou nem um pouco para alterar sua fisionomia assustadora.

Eventualmente um trêmulo ajudante de cozinheiro trouxe seu café da manhã, o depositando na mesa e saindo rapidamente quando Cell nem ao menos reagiu à sua aproximação. Ele tampouco tocou a comida, muito tomado pela tempestade de pensamentos assassinos que seu cérebro conjurava enquanto escondia os lábios por trás das mãos entrelaçadas. Estava entretido demais em pensar nas diversas formas que lidaria com os novos integrantes de Alcatraz para lembrar de comer, além de que sempre podia fazer isso mais tarde em sua cela, então essa não era uma de suas maiores prioridades no momento.

Pouco mais de quinze minutos se passaram e o salão eventualmente recuperou sua vivacidade quando os demais detentos notaram que o furioso carniceiro não estava fazendo nada além de encarar o nada. Os guardas, no entanto, permaneceram inquietos, e todos tentavam ao máximo evitar contato visual com Cell. Eles sabiam muito bem qual era o motivo de sua silenciosa fúria, e definitivamente não queriam estar por perto quando ela viesse à tona.

Quando as portas principais do salão se abriram, pouco mais de dez minutos mais tarde, todas as cabeças se viraram em sua direção, e foi possível de se assistir alguns guardas passarem por ela acompanhados de um grupo de novas pessoas, todos trajados com o característico uniforme alaranjado da cadeia, dotados de pequenas tarjas que indicavam seus nomes.

Cell semicerrou os olhos, nunca se movendo de sua posição analítica. Ele fora a única pessoa que não precisou se virar na direção da porta, tendo em vista que já estivera a encarando esse tempo inteiro a espera do novo grupo de detentos. Então, assim que seu olhar calculista identificou os novatos, ele se pôs a analisar.

Os primeiros a entrar foram quatro, sendo três deles absurdamente similares com tons de pele caucasianos, cabelos curtos em tons loiros ou castanhos e sorrisos presunçosos que fizeram o sangue de Cell borbulhar em suas veias. Eles adentraram o salão com a pompa de um grupo de ricaços fazendo um tour privado ao invés de detentos de uma prisão de segurança máxima, o que fez Cell estalar a língua no céu da boca e novamente estralar o pescoço. Aqueles definitivamente lhe dariam dores de cabeça.

Eles eram de estatura mediana, entre um metro e setenta e um metro e oitenta, e tinham uma aparência atlética, o que divergia bastante do quarto detento que os acompanhava: um homem baixo, esguio e pálido, que olhava para os lados de forma extremamente assustada, quase como se esperasse que alguém fosse lhe esfaquear pelas costas a qualquer momento.

O que, na perspectiva de Cell, já fazia dele bem mais inteligente do que os outros três, tendo em vista que isso definitivamente era passível de acontecer.

Cell rangeu os dentes e descansou as costas contra o encosto de sua cadeira. Ele já estava fazendo isso a anos, então ele sabia muito bem identificar os tipos de detentos que chegavam em sua cadeia, o que significava que ele imediatamente entendeu que nenhum daqueles quatro se salvava, por mais que apenas um deles fosse o tal abusador que Virgílio havia mencionado. Todos carregavam a aura de falta de remorso e, em alguns casos, até mesmo orgulho pelos seus atos nefastos, o que normalmente Cell não daria a mínima (afinal de contas, ele não é nenhum tipo de herói moralista), mas com aquelas posturas ele já sabia que aqueles eram do tipinho de chegar na sua cadeia e tentar avacalhar com o ritmo das coisas, e Cell odiava quando novatos chegavam já querendo sentar na janela.

Bom , estralou o pescoço mais uma vez. O filho da puta abusivo vai de vala e, se algum dos outros aprontar, ele vai ter companhia no outro lado.

Cell assistiu os guardas falarem alguma coisa pro quarteto, provavelmente explicações de onde ir para se alimentar e afins, e eventualmente eles começaram a ir em direção ao lugar onde a comida era servida. Vendo aquela como a chance perfeita de abordar os novatos e já deixar bem claro como as coisas funcionavam, Cell decidiu se levantar e ir até eles, mas assim que colocou as mãos sobre a mesa e fez que ia levantar, uma quinta e última figura atravessou a porta, fazendo com que o mundo em volta do carniceiro desacelerasse por um momento.

Tinha ficado tão distraído com seu asco pelos demais que esqueceu completamente que eram para ser cinco detentos, e assim que o quinto adentrou o recinto, Cell sentiu todos os seus sentidos se aguçarem de forma desconcertante.

Ele era belíssimo, uma das criaturas mais graciosas que Cell já teve o bel prazer de avistar. Seus olhos, em tom de chocolate, eram compenetrantes, e a faixa vermelha que adornava sua cabeça e se misturava entre os fios de cabelo castanhos possuía um charme único. Os lábios eram carnudos e naturalmente avermelhados, o que combinava perfeitamente com sua pele levemente bronzeada e a musculatura bem mais desenvolvida, que marcava o uniforme alaranjado. Ele era o que aparentemente tinha a altura mais próxima da sua e, diferente da postura arrogante do trio ou da paranoia do homenzinho, o quinto detento parecia se carregar de forma confiante — uma confiança que Cell facilmente conseguia ver através, já que ele já teve que fazer o mesmo por anos naquela cadeia.

Era tudo fachada, um mecanismo de defesa para não demonstrar fraqueza perante predadores. O rapaz na verdade estava assustado, confuso , claramente incerto de onde deveria ir ou o que deveria fazer, parecendo completamente deslocado nos arredores absurdamente hostis à sua volta. Aquilo era algo que o carniceiro não via há muitos anos e que, definitivamente, deixava claro que o rapaz teria dificuldades em se ajustar ao ambiente carcerário.

A questão é que, não foi bem isso que fez com que Cell congelasse — tampouco a beleza estonteante do jovem —, mas sim o olhar que ele possuía. Um olhar que fez com que o coração outrora gelado de Cell se acelerasse dentro do seu peito, já que ele nunca vira tal coisa em criminoso algum já levado àquele lugar e que, sem dúvidas, faria dele uma das mais saborosas e concorridas presas de Alcatraz.

O olhar de um inocente.