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Quando eu não estiver por perto

Summary:

Zimi ri, alto e brilhante. É um som agradável - Tantai Jin não se importaria se fosse a última coisa que ele ouvisse.
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Tantai Jin retorna ao mundo, e direto aos braços da sua família.

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Work Text:

Tantai Jin abre os olhos sem saber exatamente quando os fechou pela última vez. Sua última memória é de assitir Li Susu desacordada, a distância entre eles crescendo cada vez mais. Naquele último momento a ideia de que sua alma não se dispersaria completamente nem lhe ocorreu, tão certo estava de sua decisão de se sacrificar para evitar a destruição do mundo.

Mas algum resquício deve ter sobrado, pois ele está acordado, encarando o rosto invertido de uma jovem moça.

“Ah! Bom dia!”

A moça se afasta sem susto, o campo de visão de Tantai Jin sendo preenchido por um céu azul vivo. Aos poucos ele se acostuma com as sensações de possuir um corpo novamente - o calor do sol, as pedras sob suas costas, o som de água se movendo por perto, a respiração de sua companheira.

“Você está bem?” Ela pergunta, e Tantai Jin vira a cabeça para o lado para vê-la.

Pela aparência dela já é possível encontrar algumas dicas de onde ele está, pelo menos. As roupas que ela usa tem o corte das seitas imortais, em familiares tons de branco e amarelo. Hengyan. Tanto o porte dela sentar - coluna reta e queixo erguido - quanto a discreta mas presente pressão espiritual emanando de seu corpo indicam uma discípula de muitos anos. Apesar do rostinho jovem e olhar curioso.

Ainda incerto de seu controle sobre a voz, Tantai Jin apenas concorda silenciosamente e olha para o outro lado.

O lago sagrado ainda é tão belo quanto antes. Apesar de que ele não sabe quanto tempo se passou. Quando ele tenta levantar, ainda sem muita coordenação, a menina o suporta com firmeza e cuidado até que esteja sentado sem tontura.

“Está tudo bem mesmo?” A moça insiste, encarando Tantai Jin com olhos redondos e brilhantes. “Eu estava voltando para casa e vi você deitado aqui. Foi difícil te acordar, suas energias estavam completamente drenadas.”

Não há nada de familiar na menina com o que ele possa usar para determinar o tempo. Certamente não é alguém que estava na seita ao mesmo tempo que ele conviveu, ninguém esqueceria o rosto do homem que tentou destruir todos os reinos e ela não parece reconhecê-lo, mas imortais envelhecem mais rápida ou lentamente de acordo com sua cultivação.

Tantai Jin opta por não divulgar essa informação, por enquanto.

“Estou bem… Não sei como vim parar aqui.”

A moça parece pensar, mastigando no lábio inferior por um tempo.

“Você lembra quem é?” Quando Tantai Jin concorda ela sorri. “Ótimo, já ajuda. Eu não sou boa na arte da medicina. Você viria comigo para a seita? Com certeza alguém vai saber te ajudar.”

E é simplesmente assim que Tantai Jin acaba seguindo uma jovem pelas trilhas bem marcadas contornando o lago. A moça anda devagar, atenciosa após ver que Tantai Jin ainda está um pouco descoordenado. Mesmo assim, ela anda alguns passos à frente, perigosamente confiante em deixar um estranho fora de seu campo de visão. Não que ele não seja capaz de perceber o quão inegavelmente poderosa ela é, apenas pelos leves fios que escapam de seu controle. Forte, mas relativamente inexperiente. 

Enquanto eles caminham, Tantai Jin assiste o balançar das intrincadas tranças nos cabelos da moça e tenta organizar os próprios pensamentos.

O jeito com que ele partiu fora traumático para o mundo todo. As seitas Xiaoyao e Hengyan foram as mais atingidas, perdendo seus líderes e muitos discípulos, e sendo o lar dos dois principais participantes. Ele se pergunta se Gongye Jiwu conseguiu se recuperar, após seu ataque inescrupuloso à Tantai Jin.

Ele tenta não pensar em Li Susu. De todas as pessoas, ela é a que mais merecia um final feliz, e a que ele mais fez sofrer.

E ainda assim, no final ela o abraçou apertado e estava disposta a morrer junto. Como se ele fosse permitir, como se fosse capaz de ver a sua amada sem vida novamente.

“Ah, que rude!” A moça exclama de repente, parando no caminho e esperando Tantai Jin a alcançar para caminharem lado a lado. “Nem perguntei o seu nome.”

“Tantai…” Ele responde sem pensar, antes de pausar por um segundo. “Ye.” Não é a escolha mais criativa, mas faz sentido o suficiente. Dificilmente sua identidade vai se manter discreta por muito tempo dentre imortais, mas não há necessidade de assustar a menina tão cedo.

“Como existem coincidências nesse mundo!” O sobrenome não parece incomodá-la, porque ela sorri abertamente e bate as mãos. “Meu nome é Zimi. Eu sou filha da líder da seita, vou te levar pra ela e com certeza ela vai conseguir ajudar.”

“Prazer em conhecê-la, senhorita Zimi. Muito obrigado.”

Ela não tenta puxar conversa, deixando Tantai Jin em paz para se preparar psicologicamente para enfrentar - e rapidamente se render - a quem quer que esteja comandando a seita Hengyan agora.

Isso é, até o momento em que uma voz se faz ouvir na distância e Zimi agarra o braço de Tantai Jin e o puxa para trás de uma grande rocha. Ele vai com facilidade, meio por susto meio por curiosidade, e nem tenta espiar de quem estão se escondendo. O lugar é familiar, próximo à entrada da seita, mas Tantai Jin tenta não pensar nas memórias dos poucos momentos que passou ali, horas roubadas em que pode segurar Li Susu em seus braços sem preocupações e com a certeza e que dessa vez tudo daria certo.

“Ela não desiste…” Zimi reclamou baixinho quando a distante voz chamou ainda longe, as palavras indistinguíveis. Segurando o indicador sobre os lábios em um pedido de silêncio, a menina vira para Tantai Jin com os olhos brilhando em um tom sobrenatural de amarelo-dourado, antes de estalar os dedos e desencadear uma onda violenta no lago logo além da curva na estrada. “Ela vai me procurar pra lá agora. Você está vendo aquele selo?”

Um pouco mais afrente, engravado no chão de pedra diante da escadaria que levava aos prédios da seita havia de fato um elaborado selo. Tantai Jin tinha certeza que era algo novo, ou pelo menos havia sido criado após sua morte. Ao seu lado, ainda emitindo ondas discretas de alguma magia que parecia fluir facilmente através dos meridianos de Tantai JIn e aos poucos fortalecê-lo, Zimi continuou explicando:

“Se nós conseguirmos passar daquele selo, aquela criaturinha não consegue mais nos alcançar. Ela não pode entrar.”

“E porque estamos fugindo…dela?” O máximo que Tantai Jin havia conseguido identificar da mulher chamando por Zimi era uma cortina de cabelos negros contrastando com um vestido branco, e a voz melodiosa, ligeiramente irritada e vagamente familiar.

“Porque sim.” Zimi responde, agarrando o pulso de Tantai Jin sem medo ou vergonha. É divertido e único o suficiente para fazê-lo sorrir. “Vem.”

Puxado pela mão, ele não tem muita escolha a não ser seguir a sua salvadora. Apesar de jovem, a moça é claramente muito mais forte que ele, provavelmente treinada marcialmente desde pequena. A filha da líder da seita, afinal. Mesmo que tenha acordado apenas para imediatamente encontrar seu fim, Tantai Jin é ao menos grato que seus últimos - definitivamente, desta vez - momentos se passem na companhia de uma pessoa tão cheia de vida.

“Por acaso você é de Jing?” Ele decide ceder à curiosidade e perguntar.

“Ah…” Zimi olha para trás e parece perceber só então que ainda está segurando um estranho. Os olhos dela ainda brilham estranhamente, voltando ao natural tom escuro muito lentamente. “Não, por quê?”

Tantai Jin dá um passo maior para caminhar lado a lado e aponta para a cabeça da moça.

“O jeito como o seu cabelo está trançado. É tradicional de Jing, principalmente da região do rio Ruo.”

Zimi sorri de novo, tocando os próprios cabelos com uma expressão orgulhosa.

“Não sei, minha mãe sempre prendeu assim e eu acabei acostumando. É bem prático. Na verdade, eu nasci por lá.” Ela aponta para cima, mas Tantai Jin não consegue ver nada no céu além dos distantes reflexos do Reino de Shanqing, como se fosse uma miragem no céu limpo. “Mas vivi a vida toda na seita Hengyan, nunca visitei o rio Ruo.”

Se até mesmo os costumes de um povo que fora tão marginalizado por tanto tempo são agora aceitáveis para até mesmo as seitas imortais, Tantai Jin acha que seu sacrifício valeu a pena. Independente de quanto tempo se passou, é bom saber que os reinos pelo menos parecem estar em termos neutros. Melhor do que ele esperava.

“Quase lá!” Zimi aponta e corre os últimos metros até cruzar o selo esculpido na entrada da seita. Tantai Jin a segue com mais calma - apesar de estar se sentindo consideravelmente mais forte e firme no próprio corpo, não há necessidade de abusar da sorte e arriscar passar vergonha.

O selo não se manifesta e nem Tantai Jin sente qualquer sinal de magia.

“Qual o objetivo do encantamento?” Ele pergunta, estudando as runas e characteres mas não reconhecendo um número suficiente para desvendar o sentido.

“Não deixa demônios passarem.” Zimi responde, com um sorrisinho de lado que por algum motivo faz Tantai Jin lembrar de alguns dos raros momentos doces de sua vida passada. De Ye Xiwu - Li Susu - e ocasiões que o ensinaram que nem sempre brincadeiras estão atreladas à humilhação. “Limites claros e acetiáveis, etecetera… Você realmente não é das seitas, huh?”

Optando por não responder, Tantai Jin se junta a ela na subida da escadaria. Pouquíssimos discipulos circulam fora dos muitos prédios, todos focados em suas tarefas e ninguém parece prestar atenção na suposta filha da líder da seita e o estranho que ela traz consigo.

“Estavamos fugindo de um demônio lá fora, então?”

“Uhum! Mo Nv.” Zimi concorda naturalmente, para a surpresa de Tantai Jin. “Nunca entendi porque Gongye- shishu gosta tanto dela.”

Então Gongye Jiwu sobreviveu. Muito provavelmente com a ajuda de Mo Nv. O fato de que demônios conseguem circular pelos reinos com segurança é uma mudança muito maior do que Tantai Jin poderia imaginar. A maioria das seitas impede a entrada de estranhos de qualquer origem, então o selo bloqueando demônios mal conta como separação. E a confirmação de que Zimi é de uma geração mais jovem também faz sentido, já que ela não parece fazer a menor ideia de quem Tantai Jin é.

“Quando era pequena eu não conseguia fugir muito,” Zimi continua. “Mas com o tempo fiquei melhor, nem sei porquê ela ainda tenta.”

“Talvez ela ache que precisa estar nas boas graças da filha da líder da seita,” Tantai Jin sugere, falando baixinho em tons conspiratórios.

Zimi ri, alto e brilhante. É um som agradável - Tantai Jin não se importaria se fosse a última coisa que ele ouvisse. Estavam, afinal, finalmente parados na entrada do salão principal da seita Hengyan onde Tantai Jin - Cang Jiuming, naquela época - havia sido apresentado a Qu Xuanzi.

“Olha, não sei bem se tem muito o que eu possa fazer por ela como filha da líder da seita, mas…”

O calor que o riso da moça trouxe para o coração de Tantai Jin paradoxicalmente aumenta e desaparece quando uma familiar, amada , voz ecoa dentro das sombras do pavilhão.

“Bom saber que está se divertindo,” a voz de Li Susu chama. Tantai Jin de repente não encontra forças para se virar e encarar aquele rosto novamente. “Quando você voltou? Mo Nv foi te encontrar no caminho.”

Ao invés de se virar, ele assiste Zimi saudar Li Susu sem perder o sorriso, cheia de energia.

“Hoje mais cedo. Mãe, quando eu sai do lago esse moço estava desacordado na margem sem saber como veio parar ali.” Então Li Susu sucedeu o pai - Tantai Jin não entende porquê isso o surpreende. E é claro agora o motivo pelo qual ele se sentia tão confortável junto daquela jovem moça, porquê os sorrisos dela eram tão familiares. Ele reune a coragem e finalmente vira para olhar. “Então, esse é Tantai…”

“Jin.” Li Susu interrompe, encarando-o como se não conseguisse acreditar no que vê. As mãos de Tantai Jin tremem com o esforço de se manter parado, de não correr e tomar sua amada - sua esposa - nos braços. Depois de um longo momento de silêncio, Li Susu parece relaxar com um sorriso trêmulo, os olhos marejados. “Tantai Jin, você sabia que o sonho que você criou tinha consequências?”

A pergunta não faz sentido, a princípio, forçando Tantai Jin a revisar suas memórias como havia evitado fazer até o momento. Até lembrar da ilusão que havia criado para Li Susu - aquela versão falsa da vida de casados em Sheng, tão mais feliz. Até lembrar do que ela demandou.

Desviar o olhar do belo rosto de Li Susu foi quase impossível, mas mais do que recompensador quando ele pôde olhar para a moça que o acompanhava com novos olhos. Ver os detalhes do rosto dela, as intrincadas tranças que Tantai Jin também gostava de usar. Zimi parecia mais desconcertada que a mãe, lábios finos partidos de forma nada elegante. De repente tudo fez mais sentido - a familiaridade daquele rosto, da energia que o supriu tão facilmente. A afirmação de que ela havia, de alguma forma, nascido onde somente deuses viviam.

“Tantai Zimi.” Li Susu se aproxima da filha e afasta a franja dos olhos dela com delicadeza, chamando-a pelo nome com cada sílaba bem enunciada, como se quisesse deixar isso bem claro para ele. “Obrigada por trazer seu pai de volta pra casa.”

Tantai Jin viveu uma vida cheia de momentos marcantes, raras ocasiões passaram despercebidas, mas nenhum evento, nem mesmo sua ascensão à divindade, poderiam tê-lo preparado para assistir uma imortal, uma mulher feita e claramente poderosa, cair de joelhos à sua frente soluçando quase histericamente.

“Eu esperei tanto!” Zimi o repreende, agarrando as saias de Tantai Jin e apoiando a testa nas pernas dele. Atordoado, Tantai Jin apenas coloca as mãos sobre os ombros dela e tenta buscar orientação em Li Susu. Não adianta muito, porque ela apenas olha para eles como se fosse a coisa mais bela que já viu. “Onde você estava?”

Não há muito que Tantai Jin possa fazer. Ele mal tivera tempo de aprender a entender as próprias emoções em vida, quem dirá experienciar algo assim - essa felicidade tão intensa, essa gratidão que eclipsa tudo que já sentiu. Tudo o que ele consegue é colocar a mão sobre a cabeça de Zimi, sentir a presença e o calor dela enquanto traça os contornos das tranças em seus cabelos, e fazer uma última promessa.

“Eu não sei.” Para sua surpresa, Tantai Jin descobre que a própria voz está limpa, clara. Apropriada para a seriedade do que quer dizer. “Mas nada vai me tirar de perto de vocês de novo.”

Notes:

A Mith de 13 anos me possuiu e esse é o resultado.
Não tenho desculpas, só que a quantidade de fics em português me deixou com vontade de participar haha
Por favor me corrijam se ficou algum erro pra trás, faz eras que não escrevo em português #vergonha
(Título emprestado da música "Estrelas", Osvaldo Montenegro, porque a vibe combina)