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Kenma não entendia porquê ainda passava por isso. Ele sabe do seu gênero desde os treze anos e passa pela transição social desde então, além de passar por cis sem questões perguntadas, mas mesmo assim algo dentro de si gritava que ele nunca seria um garoto de verdade e que ninguém o via como um, apesar das constantes afirmações de seus amigos.
E, Deus. Quem dera se essa crise tivesse iniciado hoje, porque pelo menos seria mais fácil de se lidar. Mas, desde a semana anterior, tem uma pulguinha atrás de sua orelha que grita consigo, falando coisas tão dolorosas que Kozume mal conseguia respirar.
Tudo começou num amistoso contra a Fukuroudani, o time de Akaashi Keiji, quando um segundanista sem noção começou a caçoar de Kenma, dizendo que sua voz e corpo pareciam de menina. Ele foi repreendido tanto pelo próprio time quanto pela Nekoma.
E Kenma disse que estava tudo bem quando perguntaram a ele e até convenceu algumas pessoas, mesmo que ouvindo diversos "sinto muito"s e "ele não sabe o que diz". Sorte a de Kozume de conseguir esconder o que sentia; esconder o quanto aquilo havia destruído o garoto.
Foram anos de autoafirmação e terapia contínua para ele não se sentir tão culpado por ser como era e ele raramente tinha crises, tendo um ciclo de amigos e familiar que o apoiava como nunca.
Mais tarde naquele fatídico dia, quando ele chegou em casa e foi para sua ligação diária com Kuroo, foi tão difícil manter a fachada de "nada me abala". Tetsurou Kuroo era seu melhor amigo desde sempre, acompanhou cada passo da vida de Kenma e, sinceramente, as vezes Kozume sentia que o mais velho o conhecia melhor do que ele conhecia a si mesmo. Ou seja, não foi surpresa para Kenma quando Tetsurou percebeu, nas entrelinhas, que não estava tudo bem.
Kozume conseguiu desconversar, pelo menos. E conseguiu por uma semana inteira.
Entretanto, claro que a vida não pegaria leve com o loiro. Foi na quarta-feira seguinte que o professor de Kenma se recusou a chamá-lo como tal e o obrigou a ficar no lado das meninas numa atividade, mesmo quando seu nome social já estivesse na chamada desde o primeiro ano. Ele faltou no treino nesse dia, não confiando em si mesmo para se manter na pose de vice-capitão.
Ele, também, não teve forças para ligar para Kuroo. Dando uma desculpa boba de "saí com o Tora". Ele sabia que Tetsurou não acreditou, mas o mais velho não insistiu.
No dia seguinte, Kenma faltou na aula e no treino, pedindo desculpas a Taketora e prometendo limpar o ginásio pós o treino na sexta.
Ele faltou na sexta também.
Sua mãe, querida como sempre, não insistiu para que ele fosse na escola. Kenma não era de faltar, se ele estava para baixo assim, com certeza tinha motivo. A Kozume mais velha fazia questão de levar três refeições para Kenma, mas estas sempre voltavam majoritariamente intactas.
E Kenma tentou evitar Kuroo porque ele sabia que, no momento que ouvisse a voz do mesmo, quebraria. Conseguiu evitar o melhor amigo na quarta e na quinta, mas ter planos por três noites seguidas era totalmente fora do personagem de Kenma, não haviam mais desculpas.
Para a surpresa de ninguém, aconteceu exatamente o que Kozume sabia que ia acontecer.
"Kyanma! Como foi no treino hoje?", Kuroo saudou animado do outro lado da linha. Kenma ficou em silêncio e fechou os olhos porque agora, definitivamente, não era o momento de chorar. "Kenma?", Tetsurou chamou ao não ter respostas por mais de dez segundos.
— Kuro. — Kozume murmurou, praguejado sua voz embargada ao que sentia as lágrimas escorrerem.
"O que houve?" Kuroo perguntou preocupado.
— Nada. — foi o que Kenma conseguiu dizer, mas sua voz falha o traiu.
Alguns segundos de silêncio. "Te falaram algo?" Tetsurou perguntou e a resposta foi um soluço dolorido de Kenma. "Eu tô indo 'pra ai."
— Amanhã você tem aula. — Kenma se forçou a dizer.
"Vai ter um protesto e minhas aulas foram canceladas. Além de que perder aula valeria a pena se for para te ver." Kenma soluçou de novo e conseguiu ouvir Tetsurou andar rápido pelo apartamento que dividia com Bokuto.
— Não precisa se preocupar comigo, eu tô bem, Kuro. — Kozume disse e imediatamente se sentiu um idiota. Isso era tão acreditavel quanto um antílope recitando Shakespeare.
"Kenma." o remetente sentiu um pingo de raiva na voz de Kuroo, se encolhendo na cama, pressionando os olhos ainda mais forte. Tetsurou suspirou do outro lado da linha. "Kenma, gatinho, eu me preocupo e vou me preocupar sempre. Você é meu melhor amigo desde sempre e sabe que pode confiar seus problemas em mim, eu sempre tenho tempo para você."
Kenma fungou.
— Mas suas aulas.. você não pode ficar se distraindo com minhas besteiras.
"Não é besteira se te afeta, Ken. Vou chegar aí logo, logo."
— Não desliga. — Kenma disse, chorando de forma ainda mais audível. — Por favor. — adicionou baixo.
"Nunca.", Kuroo respondeu.
A ligação continuou majoritariamente em silêncio, este sendo interrompido por soluços de Kozume e palavras doces de Tetsurou.
Kuroo chegou na residência dos Kozume em tempo recorde nessa noite.
"Já vou aí Kenken. Me espera por mais alguns minutinhos, ok?"
— Vem rápido.
E a ligação foi cessada. Kenma cobriu a cabeça e passou a mão pelos cabelos, a culpa por ter feito Tetsurou sair tão tarde e de tão longe apenas porque ele não consegue guardar os próprios sentimentos para si mesmo o alcançando e o sufocando.
Como um trovão numa tempestade furiosa, seu pranto intensificou misturado à culpa e seu cérebro desligou de seus arredores, ao ponto que nem notou a porta de seu quarto abrindo e a luz acendendo.
— Kenma? — Kuroo chamou baixo, fechando a porta e se aproximando da cama de Kozume.
Kenma não respondeu, mas sentiu a cama afundar do seu lado e um toque gentil, quase imperceptível através das camadas de cobertor e roupas. Kozume arrepiou mesmo assim.
— Ken, você quer conversar sobre o que aconteceu?
— Não aconteceu nada. — Kenma respondeu. Mentiroso, péssimo amigo. Kuro veio de tão longe e você ainda tem a coragem de mentir.
— Você sabe que não precisa mascarar suas dores comigo, Kenma. Seus sentimentos importam e guardar eles só vai te fazer se sentir pior. Se permita sentir e lastimar, se abrir e entender que suas dores são válidas e que isso não depende dos outros.
Kenma soluçou embaixo dos cobertores, mas colocou a cabeça para fora, tendo a visão de Kuroo o observando com uma expressão preocupada e tão, mas tão cheia de amor. Ele precisou desviar o olhar imediatamente.
— Me desculpa por ser assim. Eu não queria- eu só quero ser um garoto normal, Kuro. — as lágrimas não paravam de cair e sua voz tremia tanto e ele gaguejava e se sentia terrível; Kenma se sentia patético e odiava pensar que Kuroo podia achar ele patético.
Ou pior, patética.
Tetsurou, entretanto, encostou a mão no rosto de Kenma, seu polegar deslizando pela bochecha de Kenma, numa tentativa falha de secar as lágrimas do mesmo. Kozume levantou o olhar com o toque.
— Você é um garoto normal, Kenma. — Tetsurou abaixou a mão, a apoiando no colchão. — Você é tão homem quanto eu ou seu pai somos e é uma droga que tem gente que se recusa a colocar isso na cabeça.
— Se eu só fosse cis, ninguém teria que aceitar nada. Eu só seria. — Kozume rebateu.
— Eu sei disso, Ken. Mas ainda assim ninguém tem direito de te desrespeitar, você é quem você é e isso não é motivo de discussão.
— Você não entende, Kuro. — riu sem humor, secando os olhos com a manga da blusa e virando para deitar de barriga para cima.
— Eu sei que não entendo, gatinho. E eu sinto muito por não conseguir te ajudar tanto quanto gostaria. Eu odeio ver você sofrendo por conta de pessoas irrelevantes que não sabem um terço da sua história.
Kenma se manteve em silêncio e Kuroo levou como incentivo para continuar falando.
— Você não devia se sentir culpado por ser você, Ken. Quem te machuca dessa forma é porque não aguentariam metade do que você tem que aguentar todos os dias só por existir. Eu sinto muito que você não consegue viver sem um desgraçado te enchendo o saco, gatinho. Queria poder te colocar num potinho longe de todas essas pessoas ruins.
Kenma se deu o direito de rir fraco e Kuroo sorriu com o som. Passou a mão pelos cabelos de Kozume, sendo recebido por nós e uma textura oleosa, mas não comentou sobre.
— Eu tô nojento. — Kenma disse.
— Nunca. — Tetsurou respondeu. — Você tá passando por coisa demais.
— Eu tô, não tô? — Kenma respondeu após alguns segundos de silêncio, não conseguiu segurar as lágrimas, levando ambas as mãos até o rosto soluçando alto.
Sentiu o toque delicado e firme de Tetsurou o puxando para sentar na cama, recebendo um abraço forte e carinhoso. Seja forte, eu tô aqui e vou te amar independente de tudo – era a mensagem que a blandícia transmitia.
Kenma tirou as mãos do rosto e abraçou Tetsurou de volta, se permitindo chorar alto no ombro do melhor amigo. Eu também te amo e sou grato por ter você comigo.
Perderam a noção de tempo que ficaram no enlace de corpos, mas em algum momento Kenma parou de chorar e passou a apenas sentir o calor confortável que Kuroo sempre emanava.
— Como você tá se sentindo? — Tetsurou desvencilhou parcialmente de Kenma, para poder olhar no rosto do mais novo. O rosto de Kenma estava vermelho e seus olhos estavam inchados.
— Melhor.
— Quer falar sobre o que aconteceu?
Kenma balançou a cabeça num não silencioso.
— Tudo bem. — Tetsurou disse num suspiro. — Vou te deixar descansar um pouco, você tá terrível. — Kuroo sorriu e Kenma revirou os olhos e empurrou o rosto do mais velho.
— Obrigado pela parte que me toca.
Kuroo riu fraco e largou Kenma por completo, apertando a mão do loiro. Kozume não deixou ele soltar.
— Ken-
— Fica. Por favor.
— Vou ficar aqui quanto tempo você precisar, gatinho.
Kenma segurou Tetsurou pelo braço e o puxou deitar com ele, o mais velho indo sem pestanejar.
Estavam virados de frente um para o outro, silenciosamente analisando seus rostos, como se para guardar cada detalhe desse momento.
Não era a primeira vez que eles dividiam a cama, não era a primeira vez que ficavam entre mais que só amigos e menos que amantes, não era a primeira vez que eles usavam dessa ligação e relacionamento único para esquecerem do resto do mundo.
Tetsurou levou uma das mãos até o cabelo de Kenma, acariciando ali enquanto a outra se mantinha entrelaçada com a de Kenma.
— Meu cabelo tá podre, Kuro. — Kenma reclamou sem realmente sentir desconforto. Tetsurou abriu a boca para negar mas fechou de novo.
Mais alguns segundos de silêncio antes do mais velho responder com um:
— Quer que eu lave pra você?
Kozume sorriu fraco. — Quero.
Demorou mais alguns minutos para eles levantarem e se dirigirem até o banheiro. Os pais de Kozume, já acostumados com a proximidade de Kuroo e Kenma, conscientes de não ter nada sexual entre eles, não perguntaram nada.
— Posso te fazer algumas perguntas? — Kuroo direcionou a questão a Kenma quando eles pararam na frente do espelho, tirando o elastico que ele mesmo afrouxou com as carícias de mais cedo.
— Certo.
— Se for demais, pode me mandar calar a boca.
— Com todo o prazer. — Kenma sorriu para Tetsurou com auxílio do reflexo e o mais velho revirou os olhos com um sorrisinho.
— Idiota. — empurrou fraco a cabeça de Kenma que deu uma risadinha.
Kuroo se afastou para abrir a água da banheira enquanto Kenma sentava na privada, esperando o banho encher.
— Você tem respeitado as horas de binder? Eu sei como você fica quando- sabe.
Kenma assentiu. — Eu acabei passando o tempo na quarta e na quinta, mas hoje eu não usei o dia inteiro, então acho que tudo bem.
Kuroo lançou um olhar para ele, com a sobrancelha arqueada.
— Ok. — Kuroo disse, voltando a olhar a banheira que enchia aos poucos. — Você tem comido?
— Minha mãe me trouxe comida, mas... — Kenma parou de falar e Kuroo entendeu. — Comi o suficiente, pelo menos.
— Ok. Hoje a gente pode jantar na mesa? —Kozume assentiu. — Você me evitou essa semana por causa da crise? — Tetsurou disse baixo dessa vez, como se falar alto fosse fazer Kenma sumir.
— Eu não te evitei a semana toda...
— Responder com "hmm" e "haha" nas mensagens e ligações não é não-evitar, Ken.
— Eu sei. Des-
— Não pede desculpas, eu entendo o motivo. Você sabe que eu vou estar aqui pra você, né? Pra sempre.
— Eu sei tanto que sabia que se falasse com você ia explodir.
Kuroo murmurou em concordância enquanto se afastava da banheira para depositar um selar no topo da cabeça de Kenma.
— Você já pode entrar na banheira, se quiser.
Kenma levantou e se espreguiçou, tirando as meias primeiro, seguido da calça de pijama e o moletom junto da camisa ao mesmo tempo, tirando a peça íntima que cobria sua genital por último, entrando na banheira em seguida.
— Você vai entrar? Tem roupa sua no meu quarto. — Kenma disse, virando para olhar Kuroo que arregaçava as mangas da camisa que usava.
— O banho é seu hoje, ok? Só estou aqui de auxiliar. — o loiro riu fraco enquanto assentia.
Kuroo pegou o banquinho que ficava do lado da privada e sentou ali após pegar os produtos de cabelo. Abriu o shampoo e colocou na palma da mão, esfregando o líquido antes de passá-lo no cabelo de Kozume, massageando o couro cabeludo do mesmo.
Se Kenma não fosse humano, capaz que ele começasse a ronronar ali mesmo.
Kuroo enxaguou o produto apenas para passar de novo fazendo o mesmo processo, enxanguando de novo antes de passar o condicionador.
O moreno em algum momento começou a murmurar alguma melodia que Kenma achou familiar, mas não soube identificar. Apenas aproveitando o silencio e a massagem que recebia.
— Vai querer hidratar o cabelo?
— Você acha que precisa?
Kuroo deu de ombros, mesmo que Kenma estivesse de costas para ele.
— Não, mas te deixa com cheirinho de bebê. Gatinho quando volta do pet shop. Cheiro de fotinhos fofas de coelhinhos. — Kenma riu com as comparações de Tetsurou.
— Pode ser, então.
Tetsurou enxaguou o condicionador e passou o creme hidrante, prendendo o cabelo de Kenma – o máximo possível, pelo menos – num coque alto, usando presilhas para prender os fios mais curtos que não conseguiu prender.
Pegou a esponja de banho e o sabonete em barra, esfregando as costas do mais novo de forma delicada.
Eram em momentos como esse que Kenma percebia que nunca amou alguém tanto quanto ama Tetsurou. O carinho e cuidado que o mais velho tem consigo é diferente de tudo que ele já sentiu, não tem pudor e não tem maldade – Kenma se sentia normal com Kuroo; se sentia ele mesmo. Sentia que o mais velho faria tudo por ele e ele faria tudo pelo mais velho, contanto que significasse eles estarem juntos.
Kuroo lavou cada parte de Kenma com cuidado e carinho, os toques castos e repletos de preocupação e respeito faziam Kenma sorrir para si mesmo, se permitindo a relaxar ao ponto de tirar pequenos cochilinhos vez ou outra.
Em algum momento foi acordado pelo toque sutil de Tetsurou em seu pescoço, o segurando para poder enxaguar o produto do cabelo. A água já estava relativamente mais gelada desde o começo do banho, mas Kenma não se importava. Estava feliz de estar ali com Kuroo; com seu Kuro.
— Você dormiu. — Kuroo disse baixo em meio a uma risadinha.
— Culpa sua.
— Fico feliz que você fica confortável a esse ponto comigo.
Kenma deu de ombros, mas tinha um sorrisinho no rosto.
— Pronto. Você quer ligar o chuveiro pra dar uma ultima enxaguada no corpo antes de colocar a roupa? Eu sei que você não é muito fã da banheira.
Kenma ponderou por alguns segundos antes de assentir.
— Pega uma roupa limpa pra mim? — pediu, levantando ao mesmo tempo que Kuroo.
— Certo. Alguma preferência?
— Hmm. Calça e camisa.
Kuroo cantarolou um "ok" antes de sair do banheiro.
Depois de alguns minutos, Kenma, já devidamente vestido com uma calça moletom e uma camiseta que algum dia já foi do melhor amigo, e Tetsurou estavam reaquecendo o jantar para poderem se alimentar.
A sra. Kozume os acompanhou na mesa, apesar de já ter jantado, querendo aproveitar a presença do filho depois da semana complicada e a presença de Tetsurou depois de algumas semanas sem vê-lo.
Após jantarem, tirarem a mesa e lavarem a louça (Kuroo quem fez as duas últimas coisas), subiram para o quarto do Kozume mais novo.
Tetsurou sentou na cama e Kenma no chão, em cima de um travesseiro, para que o mais velho pudesse secar o cabelo do garoto.
Num silêncio confortável, Kuroo passava a toalha na cabeça de Kenma, tirando o máximo de água que podia, já que seria impossível ligar o secador agora devido o horário.
Kenma respirou fundo e Tetsurou imediatamente ficou alerta.
— Um moleque da Fukuroudani comentou sobre minha voz e meu corpo, dizendo que eu era muito- menina. E, depois, quando eu estava conseguindo finalmente seguir em frente, um professor se recusou a me chamar de Kenma e me obrigou a ficar do lado das meninas numa atividade. — Kenma disse de uma vez, sem coragem de olhar para Tetsurou.
— Estranho esse comportamento na Fukuroudani, principalmente com Akaashi na capitania.
Kenma deu de ombros.
— Eu sei, mas aconteceu. — Kenma riu com o nariz, num ronquinho característico dele. — Ele levou o maior fecho de todo mundo, foi engraçado.
Kuroo riu um pouco. — Você falou com a sua mãe sobre o professor?
Kenma ficou em silêncio.
— Ken...
— Eu sei, de verdade. Eu sei.
E eles caíram em silêncio novamente.
Mais alguns minutinhos passaram até Kenma quebrá-lo novamente.
— As vezes eu queria desistir da transição. Talvez se eu fosse uma garota cis as coisas seriam mais fáceis.
— Talvez, mas vale a pena sacrificar sua felicidade e seu verdadeiro eu por uma vida falsa? Se odiar a troco de aceitação, sendo que você já é aceito pelas pessoas que importam; as que te amam? Você é um garoto tão lindo, Ken. Seu sorriso quando você é você brilha muito mais.
Kenma segurou a mão de Kuroo, parando os movimentos da mesma. Tetsurou o encarou confuso e Kenma levantou o olhar, travando o mesmo com Tetsurou.
— Eu amo você. Senti saudade.
— Eu também senti saudade e também amo você, gatinho.
— Acho que meu cabelo tá seco o suficiente pra gente dormir agora.
— Mmhm. — cantarolou, dobrando a toalha no meio e a apoiando na cadeira da escrivaninha.
Kenma já estava segurando a coberta para Kuroo se juntar a ele antes mesmo do mais velho virar de frente para si. Tetsurou sorriu e tirou a calça jeans, mostrando sua bermuda de pijama.
Kenma arqueou a sobrancelha e o mais velho deu de ombros, se juntando na cama.
— Eu falei que vim correndo, não tinha tempo de trocar de roupa.
— Não falei nada.
— Seu rosto não mente, Kodzuken. — Kuroo cutucou a bochecha de Kenma com o indicador, recebendo uma careta do mais novo.
— Não me chama disso.
— Ei! Daqui alguns anos as pessoas só vão te chamar disso! Marque minhas palavras, logo mais você será o mundialmente famoso Kodzuken.
Kenma revirou os olhos e soltou sua risadinha de sempre segurando a mão de Kuroo e entrelaçando seus dedos.
Tetsurou puxou a mão de Kenma e selou seu antebraço algumas vezes. O alívio que sentiu ao não ver nenhuma marca nova ali era compassível.
— Eu tenho muito orgulho de você, gatinho. Você é o garoto mais lindo e incrível do mundo, o melhor amigo que eu podia ter.
Kenma sorriu e fechou os olhos.
— Obrigado. — murmurou enquanto se aproximava do mais velho, abraçando seu torço enquanto já sentia o sono lhe consumindo.
— Mhm.
Kuroo não conseguiu dormir tão rápido quanto Kenma.
Kuroo respirou fundo, enfim deixando as lágrimas que estava guardando desde o momento que atendeu a ligação de Kozume mais cedo caírem, fazendo o máximo para não acordar o garoto adormecido ao seu lado.
Imagens do verão dos moletons inundavam sua mente, o fazendo imaginar um cenário onde Kenma não o deixava ajudar e se afundava em pensamentos obsessivos e mórbidos, imaginando que o único escape dessa realidade pesada fosse o auto flagelo.
Foi uma época terrível para Kozume.
Kuroo não podia permitir que Kenma vivesse isso de novo, por isso não pensou duas vezes antes de vir correndo até o mais novo quando ouviu o choro de Kenma, com medo do que ele podia ter feito ou pensado em fazer.
Kuroo balançou a cabeça devagar, fisicamente tentando afastar os pensamentos dolorosamente explícitos. Kenma está aqui, Kenma está bem agora, Kenma está limpo.
Tetsurou afagou o cabelo de Kenma quando o mais novo se moveu, limpando as lágrimas que sobraram nos próprios olhos.
— Kuro. — Kenma murmurou, a voz transbordando sono.
— Hm?
— Seu coração tá batendo. — Kuroo mal conseguiu entender o que Kenma disse, mas riu fraco quando sua mente processou as palavras (ou mistura delas).
— Me avisa se parar, ok?
Kenma murmurou em concordância e o som de seu ressonar voltou a encher o quarto.
É, Kenma, seu Kenma, estava melhor agora. Eles estavam juntos, afinal.
— Boa noite, gatinho.
"tudo o que você sente é bom,
se você apenas se permitir a sentir."
