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Ele o olhava com desdém desde o começo da festa. Apesar da fama de carismático e caloroso, compreendia a mudança bruta de humor. A distância e o ritmo são um empecilho impossível de ser superado, no entanto, os olhos captavam pequenas cenas que sigilosamente sinalizava a raiva do homem: os músculos tonificados, a perna inquieta, os olhos vidrados na cena… conteve-se, pois um sorriso desejava nascer em seus lábios.
A imprevisibilidade é o que há de mais fascinante no indivíduo. O livre-arbítrio é uma benção e uma maldição, o ponto de equilíbrio entre a prisão e a libertinagem. Seu andar, teu falar e teus gestos; tudo só pode ser
consumido por conta desse fator.
Acontece que o destino se molda a partir. E quando algo está escrito, porém,
não concretizado, impossibilita-se esquecer, apagar. É uma oração que necessita de um completo; uma ação incompleta que necessita de outra para obter sentido, e assim, terminar a ideia apresentada.
Tentou apagar. Desde o princípio, desde que a primeira faísca invisível e incandescente mostrou-se no meio de ambos. O nascimento de uma chama quente imersa em um lugar dentro do corpo a qual é impossível de se retirar; a ação consumada e a sua consequência cicatrizada.
Queima, sempre queima. Os dedos de Jaser — apesar de pálidos, esguios e suados — pareciam conter uma chama ardente sempre que encostava em suas mãos. Os dedos se entrelaçam, se unem em um gesto simplório, insignificante ao que o corpo é capaz de fazer, significativo ao que a mente interpreta.
A mão oposta toca as costas. Teus olhos, concentrados, percebem que o tato carinhoso faz com que as costas se arquearam, estalando os ossos e eriçando os pelos da pele. Os corpos se chocam em um movimento ousado, um puxão bruto.
— Não sabia que dançava. — A voz grossa, apesar de baixa, é captada pelos teus ouvidos como a única daquele salão. — Muito menos que era do tipo que gosta de ser o centro das línguas enormes que contém por aqui. — O rosto, originalmente blasé, ganhou uma expressão estressada. É uma das consequências por querer demais, em um lugar que contém tão pouco.
— As línguas ficam no salão abaixo, Strach. Aqui em cima, as bocas se fecham.
— Justificou-se. Apertou mais a cintura, aproximou-se mais. Os rostos tão colados que dava para ver o brilho nos olhos verdes, as bocas tão próximas que a respiração tensa e presa se torna algo próprio teu. — E, entre nós, todo mundo sabe dançar uma valsinha, não sabe?
Ele revirou os olhos, riu sem graça. O vento que saíra de sua boca bateu na mecha branca, que em ocasiões como aquela, escondia a marca de nascença. Um incômodo subiu a mente, arranhou o corpo.
Jaser sempre se escondia para agradar pessoas que queriam ter poder sobre a vida de todos. Continha receio de agir, e mais vergonha ainda de se expressar. Se comportava conforme os padrões exigiam, falava o que as pessoas esperavam ouvir; existia conforme um terceiro, desconhecido e misterioso, quer.
— Eu não sei. — Teus dedos retiraram o cabelo branco da face. Revelaram o rosto inteiro; com a marca, as olheiras e o medo. — Não vai dar certo.
— Não existe jeito certo de dançar, existe querer dançar. Você quer?
E então, o querer o barra. A vontade é palpável, apesar de estar nas entrelinhas. As mãos se apertam mais, como se quisesse quebrar os ossos, rasgar a carne. A cabeça baixa, balança de um lado para o outro. E rápida como uma flecha, a resposta lhe rasga e desmonta em um simples:
— Só uma dança. Você guia.
— As suas ordens, Jaser.
