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Era rotina andar pelo labirinto, mesmo quando as paredes mudavam e o breu cobria todas as marcas que seus pés, incansáveis, deixavam pelo chão. Muitas vezes, o único som que ouvia era o arranhar metálico da antena parabólica que se arrastava como um assobio melancólico. Elu conseguia fechar os olhos e caminhar por metros sem se chocar contra nenhum dos altos muros que serpenteavam em formas indistinguíveis.
Por muito tempo, tentou entender a lógica do labirinto, qual seria a melhor estratégia para chegar à saída, mas agora percebia como ele respirava, pulsava como um coração saudável e forte. Vivo. Crescendo enquanto elu andava. Ele era o Labirinto, e o labirinto era ele. Não conseguiria viver se continuasse buscando o fim, mas também não conseguia deixar de pensar no que havia no centro.
Em alguns dos dias mais inebriantes, quando seu corpo era despido pelas luzes e sua alma levada pelos caminhos, elu conseguia ouvir, distante e abafado, um uivo dolorido de uma criatura em sofrimento. Machucada? Talvez. Perdida? Com certeza.
Labirinto tentou seguir o som, mas as curvas, as voltas, não permitiam. Logo se viu de frente com o primeiro beco sem saída que encontrava em muito tempo. Ali, atrás daquela parede, o uivo soava claro como o dia.
Toc. Toc.
Bateu na parede duas vezes, forte o suficiente para ser ouvido do outro lado, e esperou. O uivo cessou. Em seu lugar, com atenção renovada, percebeu um choro fraco, de quem tentava engolir as próprias lágrimas.
“Quem está aí?” Labirinto perguntou, determinado, a voz talvez mais firme do que pretendia.
O choramingo aumentou um pouco, como se a criatura estivesse irritada consigo mesma por ter sido percebida.
“Eu não sabia que havia outro ser por aqui além de mim”, tentou de novo, mais calmo. “Desculpe se te assustei.”
Labirinto permaneceu em silêncio por algum tempo, dando espaço para que a criatura decidisse se responderia ou não. Elu encostou o ouvido na parede áspera, atento a qualquer arrastar que indicasse partida.
“Não era para ninguém me encontrar”, disse uma voz rouca do outro lado da parede, menos monstruosa e inumana do que elu havia imaginado. “O que você está fazendo no meu labirinto?”
A confusão se espalhou por Labirinto, que pressionou as palmas contra a pedra fria, sentindo o pulsar da vida ressoar dentro de si e pelos caminhos que percorria.
“Teu labirinto? Eu sou o Labirinto.”
Um rosnar raivoso antecedeu o grito de indignação da criatura.
“Impossível. Se tu és o Labirinto, então também és mau e imprestável. Me deixaste sozinho aqui, sem uma alma com quem eu pudesse conversar por tanto tempo, enquanto caminhavas vivo?”
“Eu não sabia que tu vivias aqui.” Labirinto suavizou o tom, sem querer ferir mais do que já parecia ter ferido.
“Como não? Se foste criado para mim? Para me manter longe do mundo que se feriria pela minha monstruosidade?”
“És um monstro? Quem te disse isso?”
“Minha criadora. Foi ela quem me ensinou a usar minhas garras e meus dentes afiados e, ainda assim, me prendeu aqui. Sou a vergonha viva, o cúmulo da raiva e da violência. Não há amor lá fora para mim.”
Havia tanta mágoa naquela voz, rouca de pouco falar, rasgada de tanto chorar.
“Tua voz não me soa como a de um monstro”, Labirinto respondeu. “Atrevo-me a dizer que soas mais humano do que eu.”
“Humano.” A criatura riu, sem humor. “Nem me lembro mais de como isso se parece. A humanidade virou um sonho distante depois de tantos anos aqui.”
“Entendo o que queres dizer. Também vago por aqui há muito tempo. Por isso me surpreendi ao te ouvir.”
“Quanto mais falas, menos certeza tenho se és real ou apenas uma alucinação.”
A voz ficou mais baixa, triste, como se já aceitasse o fim daquela breve conexão. Labirinto não queria perder a única coisa que fizera sentido dentro daquela espiral, então teve uma ideia.
“Você sabe alguma canção?”
“Lembro de algumas que um músico costumava tocar perto de onde nasci. Por quê?”
“Cante. Cante alto, para que eu siga o som da tua voz. Quando eu te encontrar, tocarei tuas mãos e saberás que sou real.”
Silêncio. Ele pensava na proposta.
“Que os deuses nos ajudem”, Labirinto sussurrou, achando que o outro não ouviria.
“Nenhum deles jamais me ajudou.”
Então veio uma batida suave no chão, e a voz, ainda rouca, mas surpreendentemente melodiosa, começou a cantar:
Eu sei que venho lutando
Com essa vida de desvalença
Eu sei que luto sozinho
Pois ninguém nunca me ajudou
Labirinto se concentrou na voz e, de olhos fechados, deixou que as pernas caminhassem para onde os corredores mandassem.
Um dia eu largo de tudo
Já não me importa nenhuma crença
Se eu morro, eu morro lutando
Sozinho eu vou, eu sei para onde vou
As paredes começaram a se apertar ao redor delu, como se se contorcessem pela mágoa do canto. Nunca estiveram tão geladas ao toque, ou talvez fosse a pele de Labirinto que nunca estivera tão fervente.
Vou, mas quero ir sabendo
Se não vou ter outro amor
E pelas minhas tardes mais frias
Eu vou deixar a minha dor
As pernas de Labirinto ficaram bambas ao ouvir um anúncio pequeno de sorriso na voz do cantor.
A minha crença morrendo
E minha vida nascendo
Eu vou achar alegria, eu vou achar
A nota estendida se materializou como um fio dourado atravessando o breu do labirinto. No fim do fio, lá estava ele; sozinho e machucado, mas sorrindo ao cantar, como se pela primeira vez houvesse esperança de não estar mais só.
Os olhos verdes oscilavam com o brilho dourado da teia que os unia. Os cabelos longos, ondulados, oleosos e assanhados. Os pelos cobrindo braços e peito nu, arranhados — provavelmente pelas longas garras que surgiam da ponta de seus dedos. Tiras de couro nos braços, no torso e no pescoço, amarradas nele como se fosse algo a ser domado.
O coração de Labirinto batia forte no peito. Soltou o fio e se aproximou, agachando-se para ficar à altura dele. A criatura o encarava de olhos arregalados, encolhendo os ombros como se temesse o toque.
Há quanto tempo alguém não o tocava?
Há quanto tempo alguém não lhe demonstrava afeto?
Labirinto estendeu a mão.
A criatura a segurou rápido e forte, como se precisasse daquela âncora para não desaparecer. Labirinto sentiu o arranhão, viu algumas gotas de sangue caírem, mas ignorou, preferiu sentir a suavidade do autoproclamado monstro, cujos olhos agora se enchiam de lágrimas.
“Tu estás mesmo aqui.” Ele apalpou braços e ombros de Labirinto, quase em desespero. “Não eras mais um truque para me ferir.”
“Jamais.” Os olhos de Labirinto marejaram.
Ali, enfim, estava o centro do labirinto que sempre o perturbara por dentro e por fora da alma. E naquele círculo de paredes tão altas que sequer permitiam ver o céu, havia alguém tão perdido quanto ele.
“Não sei se um dia sairemos daqui ou se é nosso destino caminhar pela eternidade”, Labirinto murmurou, com ternura suficiente para devolver cor ao rosto pálido de anos sem sol. “Mas estarei contigo a partir de agora.”
Labirinto o puxou para um abraço apertado e acariciou seus cabelos sujos, enquanto ele se aninhava na curva de seu pescoço.
O corpo dele tremia sob o toque, não de frio, mas de algo esquecido havia tanto tempo que doía reaprender. Seus braços fortes hesitaram antes de se fecharem ao redor de Labirinto, como se temesse que o gesto pudesse quebrar aquela presença recém-conquistada. Quando enfim o fez, foi com cuidado excessivo, a força contida de quem aprendera que seus abraços sempre machucavam.
Labirinto sentiu o peso do outro contra si, sentiu o coração descompassado batendo rápido demais, como um animal acuado que não sabe se corre ou se fica. Passou a mão lentamente pelas costas dele, traçando caminhos invisíveis entre cicatrizes antigas, marcas de garras, de dentes, de tentativas frustradas de escapar de si mesmo.
“Não precisas te conter” murmurou elu, a voz baixa, firme, como quem faz um juramento. “Se me ferires, que seja por existir, não por medo.”
O homem-cachorro respirou fundo contra o pescoço de Labirinto, aspirando o cheiro de pedra, poeira e vida. Um som estranho escapou de sua garganta, meio soluço, meio rosnado, antes que ele escondesse o rosto, envergonhado.
“Não sei mais como…” começou, e a frase morreu antes de nascer. “Não sei mais ser visto.”
Labirinto afastou-se apenas o suficiente para olhá-lo. Seus olhos verdes, antes ferozes, agora estavam baixos, quase suplicantes, como se pedir fosse um crime antigo.
“Então aprende comigo” disse elu. “Eu existo para ser percorrido. Não te apresso, não te exijo saída.”
O labirinto ao redor deles parecia ouvir. As paredes cessaram seu movimento inquieto, o pulsar desacelerou, como um coração que encontra repouso após longa corrida. Pela primeira vez, aquele centro não era apenas um ponto de aprisionamento, mas de encontro.
“Qual é teu nome?” perguntou Labirinto, tocando de leve o queixo dele, erguendo-lhe o rosto sem impor.
Houve um silêncio pesado. Nomear-se era um ato perigoso.
“Jonas.” respondeu por fim, como quem entrega algo precioso demais. “Fui chamado assim antes de me tornarem isso.”
“Jonas.” repetiu Labirinto, deixando que o som se espalhasse pelas paredes, gravando-o na carne do espaço. “Então agora o labirinto sabe quem tu és.”
Os olhos de Jonas se arregalaram levemente.
“Isso significa que não posso mais desaparecer?”
Labirinto pousou a testa contra a dele, compartilhando o mesmo ar, o mesmo espaço estreito entre respirações.
“Significa que, mesmo se tentares, eu saberei o caminho de volta.”
E enquanto permaneciam ali, entre pedra e sombra, o fio dourado ainda tremulava no ar, não mais como guia de fuga, mas como testemunha silenciosa de algo novo: não a derrota do monstro, nem a vitória do labirinto, mas o início de algo novo.
Labirinto sente falta do calor quando acorda, sozinhe, na cama recém-feita da base dos Mascarados. Levanta devagar, para não acordar mais ninguém, a pouca luz indica que ainda é cedo demais para isso. Elu sobe até o segundo andar, esforçando-se para não deixar a madeira ranger, mesmo sabendo que era quase impossível. Os colegas provavelmente só não acordaram porque estavam cansados demais.
Ao terminar de subir a escada, já podia ver a silhueta de quem procurava, sentado à beira do telhado, encarando o horizonte colorido da caatinga ao amanhecer.
“Aguiar?” chamou, apenas para trazer atenção; já sabia que era ele.
“Bom dia.” respondeu o delegado, fraco, mas não sonolento. Devia ter acordado há um tempo já.
“Gosta de ver o sol nascer?”
“Uhum.”
“Podia ter me chamado.” Labirinto sentou-se ao lado dele, apoiando as mãos no telhado.
“Eu te acordei quando saí? Desculpa… eu tava pensando demais.” Aguiar balançou a cabeça, como se afastasse as ideias. “Não quero te preocupar.”
Labirinto analisou o estado deplorável dele: as marcas fundas sob os olhos de noites mal dormidas, várias feridas fechadas recentemente, e mal limpas, a camisa que um dia fora branca, agora amarronzada pela sujeira do dia a dia.
Elu se levantou e buscou o pequeno kit que havia deixado com o Pomba para emergências, atrás de alguns barris e caixas vazias.
“Tira a camisa.”
“Calma aí, Labirinto, não tô com vontade disso agora.” Aguiar sorriu de lado, mas começou a remover as tiras de couro e a camisa suja.
“Idiota.” Labirinto ajudou a despir o restante e começou a limpar, com cuidado, cada uma das feridas. Passava o algodão devagar, como se tocasse algo precioso. “Eu quero cuidar de você.” Encarou Aguiar com uma expressão aberta, quase solene.
“Você não precisa.” Ele desviou o olhar, tentando esconder o rubor forte nas bochechas.
“Mas eu quero.” afirmou, sem levantar a voz, enquanto enrolava as faixas ao redor do corpo dele.
“Eu não mereço isso” disse Aguiar, tão baixo que soou quase como um rosnar. Era a autoproteção de quem aprendera que todo cuidado vinha com cobrança.
Labirinto largou os materiais e segurou o rosto dele com as duas mãos, obrigando-o a encará-lo. Era como se todas as luzes ao redor tivessem se apagado, restando apenas Aguiar em seu campo de visão.
“Você merece ser cuidado, Aguiar.” Aproximou-se lentamente, deixando que as bocas se tocassem num gesto íntimo, contido, movendo-se pouco, apenas o suficiente para que o afeto passasse pelo toque. “Você merece ser amado.”
Afastou-se do beijo curto.
As lágrimas quentes desceram, brilhando sob a luz do sol da manhã, pelo rosto marcado de Aguiar, emoldurando o ardor de um sorriso fraco, de quem escutava aquelas palavras pela primeira vez.
“Acho que te entendi um pouco mais hoje” disse Labirinto, retomando o cuidado com as feridas.
“Sonhou?”
“Quem sabe um dia eu te conto… depois daqui, quando a gente sair junto.”
Aguiar assentiu.
