Chapter Text
O relógio de pulso de Lorena marcava quase três da manhã quando ela empurrou a porta pesada de metal com o ombro, equilibrando dois sacos de lixo pretos e pesados. O ar frio do beco a atingiu como um tapa, um contraste seco com o calor úmido e o cheiro de cerveja e suor que emanavam de dentro do bar. Ela soltou o lixo e, no instante em que se virou, ouviu o som da madeira que escorava a porta deslizando pelo chão.
Click.
A trava automática ecoou no silêncio da rua.
— Merda... — Lorena resmungou, a voz rouca pelo cansaço. Ela tentou girar a maçaneta inutilmente.
Ela puxou o celular do bolso da calça cargo, a tela brilhando intensamente na escuridão. Mandou uma mensagem rápida para a amiga, pedindo para abrir a porta dos fundos. Sabendo que a baixinha provavelmente estaria ocupada demais com algum pedido ou conversando no balcão, Lorena suspirou e sentou-se na escada de cimento úmido. O som do bar chegava ali fora apenas como uma vibração abafada, um grave de baixo que parecia pulsar no chão. Ela puxou seu kit de tabaco, os dedos ágeis espalhando a erva no papel fino com a precisão de quem já fez aquilo mil vezes. Acendeu o cigarro, a brasa laranja iluminando momentaneamente seu rosto cansado. A primeira tragada foi longa, preenchendo os pulmões e soltando a fumaça que se misturava à neblina da madrugada paulistana.
Foi quando o som de dentro se misturou com outro no beco. Não era mais apenas o movimento dos poucos carros que passavam; eram vozes.
Lorena se encolheu levemente, inclinando a cabeça para trás da lixeira industrial. A poucos metros dali, sob a luz amarelada e falha de um poste distante, viu dois vultos. Um homem alto, de ombros largos e movimentos pesados, e uma mulher consideravelmente mais baixa. No início, Lorena revirou os olhos e soltou uma lufada de fumaça lateral. "Vão se pegar no lixo, é cada uma", pensou.
Mas o tom da conversa não era de romance.
— Já disse que não, para com isso — a voz da mulher era firme, mas carregada de desconforto.
O homem não recuou, ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela, a voz arrastada pela bebida insistindo em algo que Lorena não conseguia discernir, mas cujo tom era nitidamente invasivo. O coração de Lorena acelerou. Ela não era de briga, mas havia algo na postura agressiva daquele cara que fazia seu sangue ferver. Com um último trago, ela esmagou o cigarro no degrau e se levantou. O medo era um nó no estômago, mas o impulso de proteção foi maior.
Ela caminhou com passos pesados, fazendo seu all star ecoarem no asfalto.
— Ei! Algum problema aqui? — Lorena disparou, sua voz saindo mais firme do que ela esperava.
Antes que o homem pudesse processar, Lorena já estava entre eles. Ela estendeu o braço, puxando a mulher que notou de relance ter cabelos ruivos vibrantes para trás de si.
— Sai fora, garota. Não é da sua conta — o homem rosnou, o hálito de álcool chegando antes dele. Ele fechou o punho e avançou, o corpo cambaleante, mas perigoso pelo tamanho.
Lorena não pensou. Quando ele encurtou a distância, ela girou o corpo e desferiu um soco direto, colocando todo o peso do seu cansaço e da sua indignação naquele impacto. O estalo do nó dos dedos contra o maxilar dele foi seco. O homem cambaleou para trás, os olhos revirando antes de atingir o chão com um baque pesado.
O silêncio seguiu, quebrado apenas pela respiração ofegante de Lorena.
— Puta que pariu... — Lorena soltou, a adrenalina começando a baixar e dando lugar a uma dor aguda. Ela chacoalhou a mão direita no ar. — Ai, ai, ai... minha mão!
— Você está bem? — A voz atrás dela era suave.
Lorena se virou, finalmente olhando para a mulher que acabara de "salvar". O impacto visual foi maior que o do soco. Sob a luz fraca, a mulher tinha cabelos lisos que pareciam fogo líquido, a pele era de uma brancura quase lunar, e o nariz era perfeitamente esculpido. Mas foram os olhos escuros, brilhando com uma intensidade hipnótica, que fizeram Lorena travar por um segundo. A boca dela estava pintada de um tom nude elegante.
— Eu que deveria perguntar isso — Lorena respondeu, fazendo uma careta de dor enquanto segurava o próprio pulso. — Você está bem? Aquele cara... ele estava sendo um escroto.
A ruiva deu um sorriso de lado, uma expressão que misturava diversão e uma autoconfiança inesperada.
— Estava tudo sob controle, na verdade — ela disse, cruzando os braços.
Lorena franziu o cenho, o rosto esquentando de vergonha por achar que deveria ter estrago algum momento intimo.
— Sob controle? O cara é o dobro do seu tamanho e estava quase te prensando na parede.
— Ele era um porre — a mulher deu de ombros, sem desviar os olhos de Lorena. — Mas eu ia saber lidar com ele.
Lorena resmungou algo ininteligível, olhando para o chão, sentindo-se uma idiota por ter bancado a heroína sem necessidade.
— Foi mal pelo impulso, então. Achei que... enfim, desculpa.
A ruiva deu um passo à frente, diminuindo a distância entre as duas. O perfume dela, algo que lembrava flores e algo caro, tomou conta do espaço.
— Não precisa se desculpar — a mulher disse, o tom de voz ficando mais baixo e aveludado. — Minha noite melhorou cem por cento agora que fui salva por alguém tão linda.
Lorena sentiu o rosto queimar de vez. As palavras ficaram presas na garganta, o contraste entre a agressividade do soco e a suavidade daquele flerte a deixando completamente desarmada. Ela abriu a boca para responder, mas o som da porta batendo na parede a assustou.
A porta do bar se escancarou atrás delas.
— Lorena! Cadê você, criatura? Tá querendo dormir no beco? — A voz estridente de Lucélia rompeu a bolha, trazendo consigo o som alto da música, o falatório dos clientes e o clarão de neon que invadiu o escuro do beco.
Lorena olhou para trás, para a amiga, e quando voltou o olhar para a ruiva, percebeu que a noite em São Paulo acabara de ficar muito mais interessante.
A ruiva olhou para a porta e depois para Lorena.
— Posso entrar com você? E te ajudar com essa mão?
Lorena assentiu, ainda um pouco atordoada pelo elogio.
— Pode... claro. Me segue.
Lucélia arqueou as sobrancelhas ao ver o homem apagado no chão e a mulher estonteante logo atrás da amiga. Lorena apenas deu de ombros, passando pela porta. A música "indie" universitária subiu de volume conforme elas atravessavam o salão apinhado. Lorena sentiu o olhar da mulher em suas costas e indicou a área dos fundos, onde ficava o estoque e uma pequena área de descanso para os funcionários. Lá dentro, Lorena pegou um pano de prato limpo e se inclinou para abrir o freezer, mas a ruiva foi mais rápida, pegou o pano da mão dela e o encheu com cubos de gelo antes que Lorena pudesse protestar.
Lorena sentou-se em um banquinho de madeira gasto, observando a visitante. A ruiva usava um vestido marrom de mangas longas e saia curta, combinado com saltos finos que pareciam custar mais do que a casa de Lorena. Ela parecia uma obra de arte deslocada em um bar de estudantes. Lorena olhou para o próprio reflexo no espelho manchado da parede a camiseta do uniforme tinha uma mancha de licor barato, o rabo de cavalo estava frouxo e ela cheirava a fumaça. Sentiu-se subitamente mal vestida. A mulher se posicionou à frente dela, agachando-se com uma elegância sobrenatural, equilibrando-se perfeitamente nos saltos. Ela segurou a mão machucada de Lorena. O toque era delicado, mas a pele dela era gélida. "Deve ser pelo gelo", Lorena justificou mentalmente, sentindo um arrepio percorrer seu braço.
Com movimentos suaves, ela pressionou a compressa improvisada contra os nós dos dedos inchados de Lorena, enquanto a outra mão acariciava gentilmente o pulso da garçonete.
— Qual o nome da minha heroína? — Eduarda perguntou, erguendo o olhar.
— Lorena — ela respondeu, sentindo a respiração falhar por um segundo. — E o seu?
— Eduarda.
A ruiva sorriu. Foi um sorriso largo, genuíno, que revelou algo que Lorena não tinha notado no escuro do beco os caninos de Eduarda eram levemente mais afiados do que o normal. Longe de ser assustador, o detalhe dava a ela um charme, como se ela guardasse um segredo selvagem sob aquela aparência de alta costura.
Lorena ficou em silêncio, sentindo o gelo amortecer a dor e o toque de Eduarda acelerar seu coração.
— E quantos anos você tem, Lorena? Trabalha aqui há muito tempo?
— Tenho vinte e três — respondeu a garçonete. — E faz só quatro meses que estou aqui. É um bico enquanto a faculdade não acaba.
Lorena tentou recuperar o controle da situação, devolvendo a pergunta.
— E você? Frequenta muito aqui? Nunca te vi no balcão.
Eduarda soltou uma risada curta, que ecoou na salinha pequena.
— Não, definitivamente não. Eu nem moro nesta cidade.
Lorena sentiu um pequeno aperto no peito, uma murchada involuntária. Se ela não morava ali, as chances de ver aquela mulher hipnotizante de novo eram mínimas. Eduarda pareceu notar a mudança na expressão dela e voltou sua atenção para a mão machucada, examinando os ossos com uma perícia tátil.
— Não quebrou nada — Eduarda murmurou, sua voz ganhando um tom mais baixo e sugestivo. Ela começou a acariciar os dedos de Lorena vagarosamente, olhando-a fixamente. — Seria uma pena estragar mãos tão... úteis.
Lorena engasgou com o próprio ar, o flerte direto a deixando desorientada. Eduarda sorriu de novo, mostrando os caninos que tanto a intrigavam. Tentando disfarçar o nervosismo, Lorena disparou a primeira pergunta defensiva que lhe veio à mente
— Você... você é médica? Tem jeito de quem sabe o que está fazendo.
Eduarda inclinou a cabeça, o sorriso se tornando algo mais nostálgico.
— Já fui. Há muito tempo atrás.
— Você não tem cara de velha para falar assim — rebateu Lorena, tentando ler as linhas do rosto perfeito à sua frente.
— É mesmo? — Eduarda arqueou uma sobrancelha, o carinho no pulso de Lorena subindo lentamente para o antebraço. — Quantos anos você me daria, Lorena?
— No máximo vinte e oito. Trinta, estourando — respondeu, firme.
Eduarda sustentou o olhar, o carinho agora subindo de forma possessiva pelo braço de Lorena.
— É um lisonjeio, querida. Mas isso só seria verdade se estivéssemos falando de décadas atrás.
Lorena, entorpecida pela dor que sumia e pela intensidade do toque de Eduarda, não conseguiu processar direito o que ela queria dizer com "décadas". Antes que pudesse questionar, Eduarda soltou seu braço e se levantou com um movimento agil. Ela caminhou até a porta dos fundos que dava para o salão, observando o movimento.
O som da música estava mais baixo e o burburinho das vozes havia diminuído consideravelmente. O bar já começava a esvaziar, sinalizando que a noite chegando ao fim.
— Você já está liberada? O movimento baixou — Eduarda perguntou, sem se virar.
— Acho que não — Lorena suspirou, levantando-se do banco. — O gerente me escalou para fazer a limpeza do salão hoje. Tenho pelo menos mais uma hora de trabalho pesado.
Eduarda virou o rosto, as sombras da sala desenhando ângulos agudos em seu maxilar.
— Descreva quem é o seu gerente.
— Não precisa, Eduarda. Eu dou conta — Lorena começou, mas a ruiva manteve o olhar firme, uma autoridade silenciosa emanando dela que não admitia discussões. — É o Lorival. Um baixinho, gordinho, com cara de fofinho mas é um porre.
Eduarda assentiu e saiu da sala sem dizer uma palavra. Lorena ficou ali, confusa segurando o pano com gelo agora derretido. Minutos depois, a porta se abriu novamente e Eduarda entrou com um sorriso vitorioso.
— Você está liberada, Lorena.
A garçonete arregalou os olhos.
— Como? O Lorival nunca deixa ninguém sair mais cedo, nem se o bar estiver pegando fogo.
Eduarda deu de ombros, casual.
— Eu só tive que olhar no fundo dos olhos dele e pedir com carinho. Ele foi... muito compreensivo.
Ela nunca tinha visto ninguém dobrar o Lorival daquele jeito. Sem querer questionar a sorte, ela caminhou até seu pequeno armário de metal, pegando uma mochila com uma muda de roupa limpa para se trocar.
— Vou te levar embora — Eduarda reforçou, recostada no batente da porta. — Estou de carro.
— Ah... obrigada. Mas, se não for pedir demais, podemos passar em algum lugar para comer? — Lorena perguntou, meio sem jeito enquanto organizava suas coisas. — Tem um lugar de lanches aqui perto. Não deve ser muito o seu estilo, mas dá para o gasto.
— Sim, claro — Eduarda respondeu e, em um sussurro que Lorena não conseguiu ouvir enquanto se dirigia ao banheiro para se trocar, completou — Você estragou o meu jantar original, afinal. O mínimo que posso fazer é aceitar um substituto.
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Pouco tempo depois, as duas já ocupavam uma mesa ao fundo em uma lanchonete 24 horas próxima. O lugar estava quase vazio, a luz fluorescente rebatendo no linóleo gasto das mesas.
Lorena atacava um lanche gorduroso acompanhado de batatas fritas e um copo grande de refrigerante, a alimentação típica de quem acabara de sair de um turno exaustivo. Já Eduarda mantinha uma postura impecável, tendo pedido apenas um lanche sem carne e uma cerveja artesanal.
— Sou vegana — explicou ela com um sorriso discreto.
Lorena se sentia estranhamente à vontade. Ela geralmente era quieta, de poucos amigos e desconfiada, mas havia algo na aura de Eduarda que a convidava a falar. Sem entender muito bem de onde vinha aquela urgência, ela começou a contar sobre sua vida, sobre os amigos, família, faculdade e ate os animais que já teve.
— Trabalho lá mais por rebeldia, na verdade — Lorena disse, limpando o canto da boca com um guardanapo de papel. — Meu pai não apoiou meu curso de Letras. Ele queria algo que desse dinheiro. Quando eu bati o pé, ele cortou algumas regalias. Então, o bar paga os livros e a minha liberdade.
Eduarda a observava com um brilho de admiração nos olhos escuros.
— Eu te entendo. Saí de casa cedo também.
— Sério? Por quê? — Lorena perguntou curiosa.
— Na minha época, as coisas eram... consideravelmente mais rígidas — Eduarda respondeu, girando o copo de cerveja entre os dedos longos. — Minha família queria um casamento forçado. Eu decidi que meu destino não seria decidido por homens. Saí para nunca mais voltar.
Lorena sentiu uma onda de solidariedade, seu lado militante aflorando imediatamente.
— O patriarcado é uma merda mesmo — ela exclamou, indignada. — Caramba, seus pais pareciam viver no século 19 para quererem forçar um casamento. Que horror.
Eduarda deu de ombros, um sorrisinho enigmático brincando nos lábios.
— Talvez fosse isso mesmo. Outros tempos.
Lorena continuou falando, gesticulando com a mão boa enquanto explicava suas teorias literárias e as dificuldades de morar em São Paulo. Ela não percebia, mas Eduarda estava começando a se encantar. A ruiva notava cada pequeno hábito de Lorena como ela mordia o lábio inferior quando ficava levemente envergonhada com um comentário, ou como passava a mão pelo cabelo, como se sentisse calor toda vez que percebia o olhar fixo de Eduarda sobre ela.
Lorena olhou para o relógio. Já passava das quatro da manhã.
— Nossa, já é tarde — ela comentou, olhando para Eduarda. — Você quer ir? Deve estar cansada, amanhã é... bom, hoje já é outro dia.
Eduarda inclinou-se para frente, cruzando as mãos sobre a mesa, os olhos brilhando sob a luz fria da lanchonete.
— Eu não fico cansada facilmente, Lorena. E, sinceramente? Eu gostaria de aproveitar sua companhia por mais um tempo. A noite em São Paulo pareceu ganhar vida desde que você cruzou o meu caminho.
Lorena sentiu o estômago dar um solavanco.
— Você quer ir? Para... para onde você quer ir agora?
— Podemos ir para a sua casa, Lorena. Você mesma mencionou que seus pais estão viajando e que seu irmão nunca fica lá. Isso... se você quiser, é claro.
A ruiva encostou-se no banco, relaxada, as pernas cruzadas reveladas pelo tecido curto do vestido marrom. Lorena a secou sem pudor nenhum por um instante, a boca ficando seca ao notar como o vestido desenhava o corpo de Eduarda. Ela apertou as pernas por baixo da mesa, sentindo um frio na barriga que a deixava tonta. Seria o momento perfeito para confessar que ainda se sentia praticamente virgem tendo tido apenas uma experiência rápida e desastrosa no banco de trás de um carro com uma garota da faculdade, mas sua coragem só permitiu uma resposta curta.
— Sim — Lorena sussurrou, sentindo que estava prestes a entrar em um caminho sem volta.
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O prédio onde Lorena morava estava completamente calmo, silencioso, típico daquela hora da madrugada. Enquanto o elevador subia, ela se sentia sufocada o perfume de Eduarda que preenchia o espaço confinado, deixando-a tensa de um jeito perigosamente bom.
— Seu apartamento é bem chique — Eduarda comentou com um tom de brincadeira quando entraram.
— Meu pai gosta dessas coisas extravagantes — Lorena respondeu, meio sem graça, jogando as chaves sobre um aparador de vidro.
Ela parou no meio do hall de entrada, olhando para a ruiva. Eduarda apenas a observava com um sorriso pequeno nos lábios. Mordendo o lábio inferior, Lorena quis se bater mentalmente. Ali estava ela, com uma mulher estonteante em sua casa vazia, e sentia-se travada como uma estátua, sem saber como dar o próximo passo.
— Quer... quer um vinho? — Lorena disparou, tentando quebrar o gelo. — Minha mãe tem uma adega ali no canto. Acho que você vai adorar.
— Eu aceito — Eduarda disse, seguindo-a com o olhar.
Lorena foi até a adega e, após alguns segundos de indecisão, escolheu um vinho doce, imaginando que seria mais fácil de descer.
— Quer ajuda para abrir? — Eduarda perguntou, aproximando-se.
Lorena entregou o abridor a ela, sentindo o toque dos dedos gelados novamente. Eduarda abriu a garrafa com uma facilidade impressionante e serviu duas taças de cristal que Lorena havia pegado. Antes de beberem, elas brindaram silenciosamente.
— Vamos para a sala? — Lorena sugeriu, segurando a garrafa.
Ela colocou uma música baixa para tocar, um MPB antigo que trazia um clima nostálgico e íntimo para o ambiente. Eduarda ouviu os primeiros acordes e deu uma risadinha.
— Você é uma típica jovem com alma diferentona, Lorena. Ouve clássicos, critica o patriarcado... mas aposto que não vive sem o Twitter.
Lorena olhou para ela, chocada e rindo ao mesmo tempo.
— Meu Deus, como você sabe? Ninguém nunca me leu tão bem quanto você acabou de fazer.
Eduarda deu um gole no vinho, os olhos fixos nos de Lorena por cima da borda da taça.
— Eu já vi muitas gerações passarem, gatinha. Algumas coisas nunca mudam, só ganham nomes novos.
— Você não vai mesmo contar sua idade? — Lorena perguntou, tentando soar audaciosa.
Eduarda balançou a cabeça negativamente, um brilho divertido no olhar. Ela se aproximou, deixando a taça de lado e segurando a mão de Lorena a mesma que ela havia machucado no beco. Eduarda passou os dedos de leve sobre a pele avermelhada e inchada dos nós dos dedos.
— Se eu contar, talvez você suma — Eduarda murmurou.
— Impossível — Lorena respondeu quase sem fôlego. — Parece que você me hipnotizou.
Eduarda sorriu e começou a subir o toque. Seus dedos deslizaram pelo antebraço de Lorena, subindo pela parte superior até pararem no pescoço. Ela afastou os fios de cabelo escuros com delicadeza. A mão gélida fez um carinho lento na pele quente da mais nova. Eduarda pressionou levemente o ponto de pulso de Lorena com o polegar, sentindo o batimento frenético sob sua pele. Lorena bebeu o resto do vinho em sua taça de um só gole, sentindo um arrepio violento percorrer seu corpo. O toque gelado de Eduarda era como um choque constante que a prendia no lugar. A mais velha subiu a mão, deixando envolver os cabelos da nuca de Lorena com firmeza, mas sem machucar. Ela se aproximou até que suas coxas estivessem se encostando.
— Eu não hipnotizei você — Eduarda disse, sua voz se tornando mais grave. — Mas me sinto da mesma forma agora. Seu cheiro... está me deixando louca.
Lorena mal conseguia acreditar. Ela se sentia tão comum, tendo feito apenas o "básico" para se arrumar, enquanto Eduarda exalava um perfume sofisticado. O que ela não sabia era que o cheiro que Eduarda mencionava era o do seu sangue mesmo sem nenhum corte, a ruiva podia sentir o gosto e o aroma nitidamente, pulsando sob a pele jovem. Ainda sem soltar o cabelo de Lorena, ela se aproximou mais. Os olhos verdes de Lorena corriam por todo o rosto da ruiva em pura expectativa e nervosismo. Eduarda apertou um pouco mais os fios, puxando o rosto de Lorena para cima, até que o espaço entre elas desaparecesse.
Finalmente, Eduarda a beijou. Foi um toque que encontrou o calor febril de Lorena, uma colisão que fez a mais nova soltar um suspiro trêmulo contra os lábios da mulher que parecia ter saído de seus sonhos mais audaciosos. O beijo não era calmo era uma disputa de territórios que Lorena fracamente tentava acompanhar. Eduarda conduzia com uma maestria que deixava Lorena sem chão, buscando mais do gosto, mais do calor, mais da lingua. Uma das mãos da ruiva mantinha-se firme na nuca de Lorena, os dedos entrelaçados nos fios escuros ditando o ritmo e a intensidade de cada investida, enquanto a outra mão descia e se fixava na cintura da mais nova, puxando-a para que não houvesse nem um milímetro de ar entre elas.
— Puta que pariu... — Lorena murmurou entre os lábios de Eduarda, a cabeça girando enquanto sentia o corpo da outra contra o seu.
— Você não faz ideia, Lorena — Eduarda respondeu com a voz rouca, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos verdes nublados pelo desejo. — Do quanto você é deliciosa.
Lorena sentia um desespero subir pelo peito. Ela queria mais queria tudo, mas não sabia como pedir. Sua mão livre buscou apoio nos ombros de Eduarda, apertando o tecido do vestido marrom enquanto tentava acompanhar a sensação daqueles toques. Eduarda sorriu contra a boca dela e desceu o beijo para o maxilar, trilhando um caminho lento até o pescoço.
— Eduarda... — Lorena arfou, a cabeça caindo para trás.
A ruiva não parou. Começou a morder e beijar a curva sensível do pescoço de Lorena, justamente onde o pulso batia com mais força. Lorena apertou as pernas, tentando controlar a onda de excitação que ameaçava desmanchar seus joelhos.
— Espera... — Lorena sussurrou, o corpo tremendo.
Eduarda subiu o rosto novamente, ela não permitiu que o clima esfriasse ignorando por um segundo a súplica, ela capturou a boca de Lorena em um beijo ainda mais profundo e faminto, como se estivesse selando uma promessa. Suas línguas se encontraram em uma dança desesperada antes que a ruiva finalmente cedesse espaço.
— A taça... — Lorena completou, os pulmões implorando por oxigênio quando Eduarda enfim suavizou a pressão. — Vou derrubar a taça.
Ela ainda segurava o cristal com a mão trêmula. Eduarda a deixou se afastar por um instante, observando-a com uma fome que Lorena nunca tinha visto em ninguém, uma intensidade que parecia devorar cada movimento da garçonete. Lorena esticou o braço e colocou a taça de vinho na mesa de centro, vendo de relance o cristal balançar perigosamente. Quando ela se virou de volta, Eduarda já estava lá, fechando o cerco novamente.
— Pronto — Lorena disse a voz falhando, os olhos fixos na boca cheia da ruiva. — Agora eu sou toda sua.
Dessa vez, foi Lorena quem avançou, movida por uma coragem súbita e afobada. Ela capturou os lábios de Eduarda, mordendo e chupando a boca da mais velha com uma vontade desesperada. O gosto de vinho caro e o frescor gélido de Eduarda se misturavam na língua de Lorena, um banquete proibido que a deixava tonta. Eduarda soltou um grunhido baixo, surpresa pela ousadia, mas rapidamente retomou as rédeas. Com um movimento ágil e uma força que Lorena não esperava, Eduarda a empurrou para trás. Lorena sentiu o estofado macio do sofá sob as costas enquanto Eduarda a deitava ali, posicionando-se sobre ela com um peso gostoso sobre o seu. Lorena arregalou os olhos, o coração martelando contra as costelas. Eduarda sorriu, os caninos brancos dando um detalhe predatório ao seu rosto perfeito sob a luz baixa. Ela beijou o queixo de Lorena com uma lentidão torturante.
— Vai ser toda minha mesmo? — Eduarda sussurrou.
Lorena sentiu o nervosismo se misturar com um tesão avassalador. Eduarda se encaixou entre as pernas dela, pressionando o corpo contra o jeans rígido da calça de Lorena, criando um atrito que fez a morena arquear as costas involuntariamente. Eduarda voltou a descer o rosto para o pescoço de Lorena. Seus lábios eram gelo, mas o rastro que deixavam parecia fogo. Ela deixou os dentes roçarem deliberadamente contra a veia pulsante no pescoço de Lorena, sentindo a vida da garota vibrando sob seu toque. Ao mesmo tempo, as mãos da mais velha escorregaram por debaixo da blusa de Lorena. As palmas espalharam-se sobre as costelas e a barriga de Lorena. A pele da mais nova se contraiu sob o toque, o abdômen subindo e descendo em respirações curtas e erráticas.
— Responde, Lorena... — Eduarda insistiu, a voz vibrando contra a pele do pescoço dela. — Você vai ser minha?
Lorena estava perdida demais no turbilhão de sensações para conseguir articular qualquer palavra. Seu corpo respondia pelo seu cérebro, queimando cada vez mais contra o toque da mulher. Vendo que a garota estava no limite, Eduarda subiu as mãos por dentro da blusa, encontrando a pele nua dos seios de Lorena, que não usava nada por baixo. Ela os apertou com firmeza, os dedos pressionando os mamilos diretamente, enquanto mordia o pescoço da mais nova de forma possessiva, sem chegar a romper a pele mas deixando claro que era ela quem mandava ali.
Lorena soltou um gemido agudo, um som que ecoou pela sala, seguido por uma sequência desesperada de palavras.
— Sim... sim... porra, sim!
A entrega era total. Lorena não pertencia mais a si mesma ela era, irrevogavelmente de Eduarda pelo menos por aquela noite. O som do gemido de Lorena pareceu alimentar algo profundo e ancestral dentro de Eduarda. A sala, antes preenchida pelo MPB suave, agora ecoava apenas a respiração pesada de Lorena e o silêncio absoluto quase inumano da ruiva. Eduarda parou por um segundo, o rosto enterrado na curva do pescoço de Lorena. O aroma do sangue, agora acelerado pela adrenalina e pelo desejo, era como um banquete servido em taça de cristal.
Lorena sentiu os dentes de Eduarda rasparem novamente em sua veia, mas desta vez não foi apenas um roçar. Houve uma pressão deliberada, um teste de resistência que fazia a gengiva de Eduarda pulsar.
— Eduarda... — Lorena murmurou, as mãos perdidas nos cabelos ruivos, puxando-a para mais perto, sem saber que estava convidando o perigo para dentro de si.
Eduarda recuou apenas alguns centímetros, o suficiente para encarar Lorena, mas sem quebrar o contato dos corpos retirando uma se suas mãos de dentro da blusa da garota. Seus olhos, que antes eram de um preto profundo refletindo a luz da sala de uma forma felina, as pupilas perigosamente dilatadas. Ela deslizou o polegar pelos lábios de Lorena, que estavam inchados e vermelhos. O plano original de Eduarda era simples: uma caçada rápida, mas depois da trapalhada do beco, um lanche inebriante seria em um apartamento de luxo para saciar a sede que a atormentava há dias. Mas algo estava mudando. O calor de Lorena não era apenas biológico havia uma entrega ali que Eduarda não encontrava há décadas. Ela estava começando a gostar do jeito que Lorena a olhava não com medo, mas com uma fome que rivalizava com a sua.
— Você é tão cheia de vida, Lorena — a voz de Eduarda era um trovão baixo, vibrando no peito da mais nova. — Às vezes eu esqueço como é essa sensação. Esse calor que queima, que consome tudo.
Eduarda hesitou, um pouco da sua racionalidade vencendo os desejos. Ela tentou se afastar minimamente, lutando contra o instinto de morder ali mesmo, mas Lorena não permitiu. A mão da mais nova subiu da nuca para o rosto de Eduarda, segurando-a com urgencia.
— Não para... — Lorena sussurrou, os olhos nublados. — Eu já disse. Eu sou sua. O que quer que você queira fazer, eu quero também.
Eduarda, pela primeira vez em muito tempo, virou uma predadora que se sentia fascinada pela presa. Ela se rendeu, capturando os lábios de Lorena em mais um beijo profundo e molhado, voltando a se encaixar ainda mais peso sobre o corpo quente da morena no sofá.
Lorena, tomada pela vontade que o toque de Eduarda parecia despertar, deixou suas mãos percorrerem as costas fortes da ruiva por cima do tecido do vestido marrom. Os dedos desceram com firmeza até chegarem à bunda de Eduarda, puxando-a para baixo para colar seus quadris definitivamente. Em um movimento instintivo, Lorena enlaçou as pernas em volta da cintura de Eduarda, "prendendo-a" contra si em um abraço de pernas. A ruiva se deixou levar, fechando os olhos enquanto sentia a fome de sangue se misturar de forma caótica com o prazer de estar com Lorena. Os toques da mais nova sobre si eram elétricos, despertando uma vaidade e um deleite que ela pensava estarem mortos. Um pensamento fugaz cruzou sua mente se Flora e Celina soubessem que ela estava se perdendo desse jeito com uma desconhecida, entregando-se àquela luxúria imprudente no meio de uma cidade humana, com certeza acabariam com a vida dela. Mas, ali, sob o peso de Lorena, as regras que ela seguia pareciam tão distantes quanto o sol.
Eduarda voltou a mergulhar as mãos por baixo da blusa de Lorena, erguendo o tecido com pressa até que ele estivesse acima dos dois peitos pequenos e perfeitos da morena. Ela se separou do beijo, um fino fio de saliva unindo seus lábios por um segundo antes de se romper. Eduarda respirou fundo, o ar frio saindo de seus pulmões enquanto olhava para baixo, admirando a visão da entrega total de Lorena. Sem conseguir resistir por mais tempo ao convite daquela pele febril, Eduarda afundou a cabeça sobre o calor dos seios de Lorena. Fazia muito tempo que ela não se rendia aos desejos carnais de forma tão visceral. Ela abocanhou um dos mamilos, chupando-o com força.
— Ah, meu Deus... Eduarda, isso! — Lorena arfou, as mãos agarrando os cabelos ruivos com força enquanto seu tronco se erguia do sofá, arqueando-se na direção da boca da outra. — Por favor, não para... eu estou ficando louca com você.
Eduarda continuou provocando, alternando entre os peitos, sugando a pele delicada e mordendo de leve, marcando o território com sua saliva gélida que contrastava com o fogo de Lorena. Enquanto sua boca trabalhava em cima, uma de suas mãos desceu com agilidade para desabotoar o jeans de Lorena. Ela infiltrou os dedos no vão do tecido, pressionando a intimidade da mais nova por cima da calcinha. Eduarda sentiu seu próprio corpo tremer ao perceber o quanto a garota estava molhada, o gemido agudo que Lorena soltou foi o combustível que faltava.
Desesperada por conexão, a mais nova puxou os cabelos de Eduarda com força, obrigando a ruiva a trazer o rosto para cima para que pudessem se beijar novamente. A mais velha então começou a esfregar com mais força sobre o tecido, sentindo o contorno da buceta de Lorena, o movimento rítmico e firme fazendo a morena morder o lábio inferior com tanta força que acabou quebrando a pele. O gosto metálico do sangue de Lorena invadiu o beijo. Eduarda revirou os olhos, sentindo os sentidos explodirem. O gosto do próprio sangue da garota, misturado com o hálito doce de vinho, era uma droga potente demais. Naquele momento, a mente de Eduarda tornou-se um campo de batalha seus pensamentos brigavam violentamente entre o desejo de entrar na garota e possuí-la ou simplesmente rasgar seu pescoço e sugar cada gota daquela vida que pulsava de forma tão irresistível.
Eduarda se afastou novamente, as mãos correndo para agarrar a barra da calça e da calcinha da mais nova, jogando-as para o lado com um movimento brusco. Quando olhou novamente, as outras vontades morreram o maior desejo de todos agora era provar o gosto daquela buceta.
Lorena estava estirada no sofá, a blusa levantada acima dos seios, os lábios inchados e avermelhados pelos beijos e mordidas. A barriga lisa subia e descia rapidamente, e as pernas abertas davam uma visão deliciosa para Eduarda. A ruiva agarrou uma das pernas de Lorena, massageando a carne firme, ouvindo a morena gemer baixinho. Então, abaixou a cabeça, começando a beijar a pele das coxas. Quando chegou no limite, Lorena sentiu a respiração contra sua intimidade e deu um estalo de nervosismo. Mesmo já tendo tido sua primeira vez no carro, não deu tempo de fazer aquilo com a garota. E se ela não gostar? E se Eduarda não gostar? E se...
Mas antes que Lorena pudesse terminar o pensamento, a língua ágil e macia de Eduarda passou pelo seu clitóris com uma pressão avassaladora.
— Porra! — Lorena gritou, o som ecoando pela sala enquanto o seu corpo sofria um espasmo.
As suas pernas fecharam-se instintivamente, prendendo a cabeça da ruiva entre as suas coxas, mas Eduarda não recuou. Pela primeira vez, a vampira usou sua força sobrenatural para um propósito puramente prazeroso, segurando as coxas de Lorena com as mãos firmes, mantendo-as abertas e vulneráveis, impedindo que a morena fugisse do toque. A língua de Eduarda movia-se com uma velocidade e que desafiavam a biologia humana. Lorena sentia-se sendo devorada de dentro para fora. Cada vez que a língua circulava o seu nervo sensível, uma onda de choque percorria sua espinha.
— Eduarda... por favor... eu vou... — Lorena tentava falar, mas as palavras morriam em pequenos gritos sufocados. — Eu não aguento... tão bom.
Eduarda, por sua vez, estava em transe. O sabor da excitação de Lorena era mais doce que o vinho, mais inebriante que qualquer sangue que já provou. Ela sentia o pulso da garota batendo frenético contra sua boca, o calor da pele dela irradiando contra o seu rosto pálido. Os dentes de Eduarda coçavam, mas ela forçou-se a focar apenas no movimento da língua, sugando e pressionando com uma fome que a fazia ignorar o mundo lá fora. Ela queria que Lorena atingisse o limite, queria que o sangue dela fervesse de prazer antes de qualquer outra coisa. As mãos de Lorena, antes enfiadas no cabelo de Eduarda, agora arranhavam o estofado do sofá. Seus dedos buscavam qualquer apoio enquanto seus quadris começavam a se elevar, buscando mais daquele contato frenético contra sua buceta que era a única coisa real no seu universo naquele momento.
— Continua, por favor! — Lorena implorou, a voz rouca, o corpo todo esticado como uma corda prestes a arrebentar.
Eduarda aumentou a pressão, a sucção tornando-se mais firme e rítmica, sugando os lábios mais grosso e os pequenos, colhendo o liquido que vazava abundantemente de Lorena levando ate o clitóris banhando o nervo sensível antes de chupar levemente. Ela sentiu as pernas de Lorena tremerem contra seus ombros. A morena sentiu o mundo escurecer e explodir em cores ao mesmo tempo. O ápice veio como uma avalanche, um prazer tão intenso que beirava a agonia. Lorena arqueou as costas, o pescoço esticado, um grito longo e mudo escapando de seus lábios enquanto seu corpo entrava em convulsões de puro deleite, entregando-se completamente à mulher.
Eduarda se ergueu lentamente, ficando de joelhos no sofá enquanto observava Lorena. A garota estava completamente derrotada pelo prazer, com o peito subindo e descendo em uma tentativa desesperada de recuperar o fôlego. Eduarda sentia o próprio corpo gritar era uma cacofonia interna de necessidades. A fome de quem não tinha uma refeição decente há mais de uma semana a consumia, fazendo seu estômago contrair, mas ao mesmo tempo havia uma vontade nova e perturbadora de apenas aproveitar mais tempo ali, sentindo aquela conexão.
Enquanto Lorena permanecia de olhos fechados, tentando processar o que acabara de sofrer, Eduarda desfez-se do próprio vestido e da roupa íntima com movimentos fluidos. A pele pálida e fria da vampira contrastava dramaticamente com o tom dourado e aquecido de Lorena sob a luz baixa. Ela se ajeitou em cima da morena novamente, e no instante em que Lorena sentiu aquela pele de porcelana contra a sua, seus olhos se abriram imediatamente. Lorena olhou para cima, encantada. A visão de Eduarda nua sobre ela parecia algo saído de uma pintura renascentista sombria. Suas mãos, ainda meio trêmulas pelo orgasmo, fixaram-se primeiro na clavícula da mais velha. O contraste era gritante o dorso da mão direita de Lorena, ainda inchado e avermelhado pelo soco que dera mais cedo, repousava sobre a pele imaculada de Eduarda. Lorena a admirava com um encantamento juvenil, quase devocional, tocando-a com um cuidado tão genuíno que se Eduarda ainda tivesse um coração funcional, ele certamente estaria saltando do peito agora. Eduarda cedeu, deitando-se mais sobre ela, colando seios, barrigas e sexos, sentindo o choque térmico que sempre a fascinava nos humanos.
Lorena suspirou, a mente de estudante de Letras buscando palavras para descrever o indescritível. Ela murmurou, quase em transe.
— Provo um licor jamais destilado... Servido em canecas de pérola... Nem todos os tonéis do Reno produzem tal embriaguez!
Eduarda sorriu, uma expressão de surpresa cruzando seu rosto perfeito ao reconhecer os versos de Emily Dickinson. Ela aproximou o rosto do de Lorena, os narizes se roçando.
— Dickinson... — Eduarda sussurrou. — Pois saiba que eu sim, acabei de ficar bêbada de Lorena.
Elas dividiram um beijo lento, sem a pressa de antes, saboreando o gosto uma da outra apenas deslizando suas línguas contra a outra, aproveitando o contato. Aos poucos, os beijos foram avançando e ganhando profundidade. As unhas curtas de Lorena faziam um carinho suave nas costas de Eduarda, enviando calafrios pela espinha da vampira. As mãos da morena desceram em seguida, apertando com firmeza a bunda da mais velha, puxando-a para mais perto e fazendo Eduarda começar a se esfregar contra ela em um ritmo torturante. Lorena abriu mais as pernas, deixando que Eduarda se encaixasse bem no meio. As bucetas molhadas deslizavam uma na outra, criando um atrito quente que mexia com a natureza gelada de Eduarda. Os beijos seguiam difíceis, cortados o tempo todo por respirações pesadas e gemidos que se embolavam no ar do apartamento.
Eduarda sentia o corpo todo tremer. O prazer agudo, misturado com aquela fome de sangue que ainda batia forte na gengiva, deixava ela sensível pra caralho. Ela colou no ouvido de Lorena e soltou com a voz rouca, quase morrendo de fome.
— Puta merda, Lorena... você é viciante — sussurrou Eduarda, e o hálito frio dela arrepiou a garota inteira. — É como se toda a sua vida estivesse aqui, agora. Eu não consigo parar... você tá me deixando totalmente sem controle.
— Então não para... — Lorena respondeu entre dentes, apertando a bunda de Eduarda com mais força. Os dedos dela se enfiavam na carne firme enquanto as unhas arranhavam as costas da ruiva, deixando um rastro de puro desejo. — Eu quero sentir tudo... pode vir, Eduarda. Eu sinto você... eu sinto que você quer. Me leva onde ninguém nunca conseguiu.
Lorena beijava o rosto de Eduarda freneticamente. Era uma adoração mútua que parecia nem ligar que, a qualquer segundo o beijo de uma podia ser o fim da outra. Eduarda começou a se mover com mais urgência, o atrito entre elas tornando-se uma fricção úmida. Ela sentia o sangue de Lorena correndo logo abaixo da pele, o pulso da morena martelando contra seu próprio corpo, convidando-a, desafiando-a.
— Você não faz ideia do que tá pedindo — Eduarda grunhiu, a luta interna transparecendo em seus olhos que brilhavam com uma intensidade sobrenatural.
Ela queria morder, queria rasgar e beber cada gota daquele êxtase, mas a doçura do cuidado de Lorena a segurava. Ela não queria estragar a noite, não ainda. Eduarda desviou a boca da de Lorena e desceu para o pescoço dela, mas não buscou a veia. Em vez disso, ela pressionou os lábios com força sobre o ponto de pulso da morena, sentindo a vibração da vida dela contra sua boca. Ela sugava a pele ali enquanto continuava a se esfregar com força, os movimentos de seus quadris tornando-se erráticos e desesperados.
— Vem comigo — Lorena sussurrou, a voz quase sumindo, as mãos puxando os ombros de Eduarda para que o peso dela a esmagasse contra o sofá. — Vem...
Eduarda soltou um som baixo, algo entre um gemido e um rosnado, intensificando o atrito. A fricção entre as duas chegou a um ponto de não retorno. O calor de Lorena parecia estar sendo transferido para o corpo frio de Eduarda, e por um breve momento, a vampira se sentiu viva de novo. As unhas de Lorena se enterraram nas costas de Eduarda enquanto ela arqueava o corpo, encontrando o ritmo perfeito. O limite atingiu as duas com toda sua força. Eduarda sentiu uma onda de choque percorrer cada nervo morto de seu corpo, um prazer tão agudo que a fez morder o próprio lábio para não cravar os dentes em Lorena. Ela atingiu seu limite enquanto Lorena, abraçada a ela com uma força surpreendente, desabava junto seus corpos tremendo em uníssono, colados pelo suor e pelo prazer.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som rítmico da respiração de Lorena e pelo barulho discreto do trânsito que começava a despertar lá fora. Eduarda, sentindo-se estranhamente fraca, uma exaustão sensorial que não experimentava há séculos, deixou o corpo cair para o lado. Ela continuou deitada sobre Lorena, mas de forma mais relaxada, os sexos ainda pulsando e úmidos, uma lembrança quente do que acabara de acontecer. Lorena a abraçou com força, como se temesse que a ruiva pudesse evaporar. Seus olhos se desviaram para o grande janelão do apartamento. Através do vidro, era possível ver o céu de São Paulo mudando de cor, um azul marinho dando lugar a um tom pálido de rosa e laranja. O sol estava surgindo aos poucos. Eduarda olhou para a luz e soube que era hora de ir, mas o calor do corpo de Lorena era como um ímã, puxando-a para mais perto, para o conforto daquela vida vibrante.
— Eu vou te ver de novo? — a voz de Lorena saiu bem baixinha, quase um segredo contra o ombro de Eduarda.
Eduarda se afastou apenas o suficiente para olhar para ela, os olhos ainda escuros, mas com uma fagulha de consciência humana.
— Você quer me ver de novo, Lorena? — a vampira questionou, a voz sem emoção.
— Quero. Muito — Lorena respondeu, e não havia dúvida no seu tom.
Um sorriso de canto apareceu nos lábios de Eduarda.
— Talvez eu te visite nos teus pesadelos, gatinha — ela disse, fazendo a garçonete soltar uma risadinha cansada.
Os primeiros raios de sol começaram a brilhar sobre o tapete da sala, avançando lentamente pelo chão de madeira. No fundo, a música no som continuava a tocar, e a ironia do momento não passou despercebida por Eduarda quando a batida inconfundível da Rita Lee preencheu o ambiente.
— "Venha me beijar, meu doce vampiro..." — Lorena cantarolou baixinho, a voz rouca acompanhando a melodia com um sorriso bobo, enquanto olhava para Eduarda.
Eduarda arqueou uma sobrancelha, o rosto colado ao de Lorena.
— Você tem um péssimo gosto para trilha sonora, gatinha — a ruiva ironizou, embora o seu toque continuasse gentil.
— Ou o destino é que é engraçadinho — Lorena rebateu, o rosto iluminado pelo começo do dia.
Eduarda se elevou sobre ela, segurando o queixo de Lorena com a mão. Ela deu um beijo doce, lento e carregado de uma melancolia que Lorena não conseguia entender. Quando se afastaram, Eduarda olhou no fundo dos olhos verdes da garota, a pupila dilatando e brilhando.
— Você só vai lembrar de ter tido uma noite ótima — Eduarda começou, a voz agora carregada de uma sugestão hipnótica que fez os olhos de Lorena ficarem levemente vidrados. — Eu fui embora porque você pediu. Eu saí por aquela porta antes do sol bater no sofá e você se despediu com um sorriso.
— Mas eu não quero isso... — Lorena resmungou baixinho, lutando fracamente contra o comando mental que tentava reescrever sua memória.
— Tem que ser assim, gatinha. Pro seu próprio bem — Eduarda sussurrou.
Ela a beijou de novo, mas dessa vez foi uma trilha de despedida. Começou no canto da boca, desceu pelo queixo, passou pelas bochechas onde as covinhas de Lorena ainda apareciam timidamente, até voltar para o pescoço. O cheiro do sangue agora era irresistível, uma promessa que ela não podia mais adiar. Eduarda abriu a boca, as presas finalmente descendo por completo, e mordeu o pescoço de Lorena com força, selando aquela noite com a única coisa que realmente unia seus mundos a vida que agora fluía de uma para a outra. Eduarda afastou-se devagar, seus lábios deslizando pela pele ferida até lamber o excesso de sangue, garantindo que a ferida parasse de sangrar e deixando apenas duas pequenas marcas avermelhadas como lembrança. Ela pairou sobre Lorena por alguns instantes. A garota estava com os olhos baixos, o rosto manchado pelo sangue que agora pertencia às duas, mas não havia pavor em seu semblante.
No exato momento em que o sol ultrapassou a linha do horizonte e invadiu a sala com força, os raios bateram contra a pele de Eduarda. Lorena soltou um suspiro ao ver a pele pálida da mulher brilhar sob a luz, refletindo o dia de uma forma que desafiava a natureza. Eduarda deu um sorriso avermelhado, as presas ainda parcialmente visíveis. Lorena, com um último esforço de vontade, ergueu a mão meio fraca e acariciou o nariz de Eduarda.
A vampira abaixou-se e deu um último beijo em Lorena, sujando a boca grossa da menina com o sangue compartilhado que ainda restava em seus lábios.
— Eu vou voltar — Eduarda prometeu baixinho, sua voz sendo a última coisa que Lorena ouviu antes de fechar os olhos, rendendo-se finalmente ao cansaço avassalador da noite e da perda de sangue.
Quando Lorena acordou, horas depois, a sala estava mergulhada na luz plena da tarde. Ela estava coberta com uma manta macia que não lembrava de ter pegado. O cheiro de Eduarda, aquele perfume permanecia impregnado em sua pele e no estofado do sofá. Ela passou a mão pelo pescoço, sentindo um leve incômodo, enquanto sua mente tentava organizar as memórias confusas de uma noite que parecia ter sido arrancada de um sonho febril e impossível.
