Chapter Text
• Ano 850 ~ Tempo presente •
A noite havia engolido o Castelo de Utgard por completo.
Não era apenas escuridão — era um peso. Uma camada espessa de breu que tornava o ar mais difícil de respirar, como se até o céu tivesse decidido abandonar aquele lugar. A lua, alta e distante, iluminava apenas o suficiente para tornar o horror visível.
Pedra se misturava a poeira e sangue, formando um cenário que parecia saído de um pesadelo.
No topo da torre, estavam os recrutas.
Connie mal conseguia sentir os próprios dedos.
Sasha respirava em soluços curtos, tentando conter o pânico.
Christa repetia o nome de Ymir como se aquilo pudesse mantê-la inteira.
Reiner e Bertholdt observavam em silêncio — um silêncio pesado demais para jovens daquela idade.
Lá embaixo, cercada por dezenas de formas deformadas, Ymir lutava.
O corpo titânico movia-se com agilidade quase animalesca, derrubando um adversário após o outro, mas para cada titã que caía, dois pareciam surgir da escuridão. Mordidas arrancavam pedaços de sua carne. Mãos gigantescas rasgavam seu corpo com brutalidade mecânica.
E então, finalmente, o inevitável aconteceu.
A estrutura restante da torre cedeu com um estalo profundo, como um osso partindo sob peso excessivo. O mundo virou poeira e queda. Os recrutas só não morreram porque se agarraram no corpo de Ymir, protegendo-os do impacto.
Quando a poeira assentou, a realidade tornou-se ainda mais cruel.
Ymir estava no solo.
E os titãs estavam sobre ela.
O som da carne sendo rasgada não parecia real. Era úmido. Errado.
Um titã grande ergueu a cabeça, os olhos vazios fixando-se nos jovens paralisados. A boca abriu-se devagar demais, revelando fileiras de dentes desproporcionais.
O desespero não vinha em gritos. Vinha em silêncio.
Foi nesse silêncio que algo cortou o ar.
SHHHNK.
Um som agudo, limpo — quase elegante.
A cabeça do titã caiu pendurada antes que o corpo compreendesse que estava morto.
Por um segundo, ninguém entendeu o que havia acontecido.
Então outro titã tombou.
E mais um.
Movendo-se contra a luz da lua, uma única silhueta desceu com precisão calculada. O uniforme da Divisão de Reconhecimento ondulava ao vento noturno. O equipamento de manobra tridimensional chiava suavemente, como se fosse extensão natural daquele corpo.
Ela pousou entre os escombros com leveza surpreendente.
O cabelo ruivo, preso em uma trança espessa que descia pela lateral do corpo até a altura do quadril, contrastava violentamente com o cenário de morte.
Um dos olhos verdes analisava o campo com frieza estratégica; o outro, azul pálido e vítreo, refletia a lua sem vida própria. A cicatriz vertical que atravessava o lado esquerdo do rosto apenas reforçava a impressão de que aquela beleza não era delicada — era sobrevivente.
Ela girou as lâminas nas mãos com naturalidade quase displicente e eliminou outro titã que se aproximava, cortando-lhe a nuca com um único movimento preciso. Um cheiro de queimado peculiar tomou conta do ambiente.
Só então ela se voltou para os recrutas.
E sorriu.
Não era um sorriso eufórico. Era um sorriso calmo. Seguro.
— Vocês estão bem?
A pergunta soou quase absurda diante do caos, mas havia firmeza nela.
Ninguém respondeu imediatamente. Eles simplesmente a encaravam, tentando encaixar aquela figura desconhecida em alguma memória — sem sucesso.
Ela não esperou confirmação.
— Quando eu disser, corram para a lateral. Não parem. Não olhem para trás.
E então, ela já não estava mais ali.
O equipamento disparou, projetando-a para o alto. O movimento era elegante, mas não teatral. Não havia desperdício. Cada impulso tinha cálculo, cada giro possuía finalidade. Dois titãs caíram quase simultaneamente, o vapor subindo ao redor dela como neblina quente.
Por alguns minutos, a balança pareceu equilibrar-se. Até que um braço colossal surgiu entre os destroços. O titã era maior que os anteriores. Rápido demais.
A mão fechou-se ao redor do corpo dela com brutalidade.
Um grito escapou de Christa.
Connie deu um passo à frente, inútil.
A jovem ruiva foi erguida até a altura da boca aberta. O maxilar desceu lentamente.
Mas ela não gritava. Não se debatia. Apenas o encarou.
O sorriso ainda ali.
— Pena que eu não faço seu tipo. — murmurou com leveza inesperada.
Foi quando o titã hesitou.
A mandíbula parou a poucos centímetros dela.
A expressão vazia contorceu-se de forma estranha, como se o instinto tivesse encontrado algo que não compreendia.
E então, com um movimento brusco, ele a lançou para longe.
Como quem descarta algo indesejado.
O corpo dela girou no ar, mas seus reflexos eram precisos. Ajustou o centro de gravidade, absorveu o impacto ao tocar o solo e deslizou alguns metros antes de recuperar-se. Como alguém já acostumada a ser descartada.
Ela levantou-se imediatamente.
O sorriso agora tinha um traço mais cansado.
— Eu tinha que ajustar a concentração desse composto... — murmurou para si.
E voltou à luta.
Mas o tempo começava a cobrar seu preço. Os músculos ardiam.
Os movimentos tornaram-se ligeiramente mais lentos. A respiração mais pesada. Um golpe raspou sua lateral. Outro a atingiu de frente, arremessando-a contra os escombros.
Sua testa se abriu contra a pedra. Sangue escorreu, contornando o olho de vidro.
Quando tentou se levantar, o mundo girou por um segundo a mais do que deveria.
Um titã ergueu a perna para esmagá-la.
A sombra cobriu seu corpo.
Ela sabia que não teria tempo.
Então—
SHHHNK.
A lâmina desceu como um julgamento — preciso, violento, absoluto.
A cabeça do titã deslizou pelo ar antes de atingir o chão.
— Você está no caminho. — disse uma voz fria.
Mikasa pousou ao lado dela, já voltando-se para o próximo alvo.
Outras sombras surgiram nos telhados destruídos.
Eren. Armin. E atrás deles, soldados veteranos da Divisão.
O campo mudou de ritmo. E o massacre virou estratégia. Onde antes havia desespero, agora havia método. Em poucos minutos, os titãs restantes tombaram, transformando-se em vapor que subia preguiçosamente sob a lua.
O silêncio que se seguiu era quase irreal.
Christa correu até Ymir, agora humana, mutilada e inconsciente — o corpo pequeno demais para conter tanta perda.
Eren, no entanto, permanecia olhando para a ruiva desconhecida.
Quem é essa?
Antes que pudesse falar—
— MIA!
A voz ecoou com energia inconfundível.
Hange Zoe atravessou o campo sem qualquer dignidade militar e a abraçou com força.
— Você voltou! Eu sabia que você voltaria!
Mia riu baixo, apesar do sangue ainda escorrendo pela testa.
— Hange... você ainda fala alto demais.
E então ela sentiu.
Não foi um som. Foi um peso.
Ela virou-se lentamente.
Capitão Levi permanecia alguns metros atrás, braços cruzados, imóvel como uma estátua talhada em pedra escura. O olhar dele era frio como uma lâmina. E sob ele, algo mais profundo — uma tensão contida demais para ser indiferente.
O sorriso dela diminuiu, tornando-se mais sincero.
— Eu sei que eu tenho muito a explicar — disse com leveza controlada. — Mas... é bom estar de volta.
Levi não respondeu.
O vapor dos titãs subia entre eles como fantasmas dissolvendo-se na noite.
E, por um instante, ficou claro para todos ali que ela não era apenas um reforço inesperado.
Era um retorno.
E retornos, naquele mundo, nunca eram simples.
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Duas horas antes - "A Casa Vermelha"
A Casa Vermelha não era discreta.
Enquanto outros bordéis da Muralha Rose se escondiam em vielas ou atrás de fachadas modestas, aquela construção erguia-se como um pequeno palácio iluminado. Lanternas vermelhas e douradas pendiam dos beirais, e as janelas altas derramavam luz quente sobre a rua de pedra. À noite, o lugar pulsava — conversas abafadas e o perfume doce de incensos caros preenchiam o ambiente.
Ali, o prazer não era vendido às pressas.
Era exibido.
E ainda assim, havia uma figura que atravessava os corredores como se não enxergasse nada disso. Os passos eram leves, rápidos e seguros, como alguém que conhecia cada curva daquele lugar.
A jovem de trança ruiva avançava pelo corredor com a mesma familiaridade de quem andava em casa... embora aquele lugar nunca tivesse sido exatamente um lar.
As lanternas refletiam em seu olho de vidro azul-claro.
Serviçais e cortesãs que passavam por ela diminuíam o passo por um instante, alguns sussurrando entre si.
Mia ignorava.
Ela não podia perder tempo. Estava ali para terminar algo.
Quando dobrou o último corredor, uma voz conhecida ecoou.
— Mia?
Ela parou.
Encostada em uma coluna de madeira estava uma jovem de cabelos negros presos em um coque elegante, segurando a barra de um vestido de seda azul.
Rin.
Os olhos da garota se arregalaram.
— Você sumiu o dia inteiro! Eu estava começando a achar que—
Mia abriu um sorriso rápido, quase travesso.
— Boas notícias.
Rin piscou.
— ...Boas notícias?
Mia se aproximou e apoiou uma mão em seu ombro.
— Chama a Lis e a Kisa. — disse ela, baixando a voz. — Me encontrem no telhado.
Rin demorou um segundo para reagir. Então entendeu.
E o sorriso que surgiu em seu rosto foi imediato.
— Agora?
— Agora.
Rin não fez mais perguntas. Saiu correndo pelo corredor.
Mia soltou o ar devagar, seu coração batia rápido.
Sem perceber, seus dedos tocaram a cicatriz que atravessava seu rosto.
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O telhado da Casa Vermelha era um dos poucos lugares onde o luxo desaparecia.
Ali em cima havia apenas telhas antigas, o vento da noite e a visão aberta da vila dentro da Muralha Rose.
Mia sempre gostou daquele lugar. Era o único ponto de onde dava para ver o céu inteiro.
Quando as outras chegaram, ela já estava sentada na beirada do telhado, com os joelhos dobrados.
Rin apareceu primeiro. Depois vieram as outras duas.
Lis era a mais calma das três, de cabelos castanho-claros e expressão gentil.
Kisa, a mais nova, tinha olhos curiosos e uma energia que nunca parecia caber dentro do corpo.
Nenhuma das quatro "irmãs" se parecia fisicamente. Mas aquilo nunca importou.
— Então? — perguntou Kisa, ofegante. — Você chamou a gente como se fosse segredo de estado.
Mia sorriu. Um sorriso diferente. Leve.
— Achei um lugar pra vocês.
As três piscaram ao mesmo tempo.
— ...O quê? — Rin murmurou.
— Um casal de idosos. — explicou Mia. — Moram num vilarejo próximo. Não têm filhos. Precisavam de ajuda na casa... e aceitaram abrigar vocês.
Kisa levou as duas mãos à boca.
— Sério?
Lis olhou para Mia com incredulidade.
— Mia... você tem certeza?
— Tenho.
O vento da noite passou pelas quatro. Por um instante, ninguém disse nada.
Então Kisa começou a rir. Rin abraçou Lis. Mia apenas observou.
Era estranho ver alegria ali. Naquele telhado onde tantas vezes elas tinham se reunido para compartilhar medos.
Rin se virou para ela.
— Você conseguiu.
Mia desviou o olhar para o horizonte.
— Ainda não. — disse calmamente. — Só vou considerar missão cumprida quando vocês estiverem fora daqui.
Kisa inclinou a cabeça.
— E você?
Mia hesitou.
Por um instante, seu pensamento voou para longe. Para além da muralha.
Para o vento frio das missões externas. Para aqueles que ela tinha deixado para trás.
Hange Zoe provavelmente estava louca de preocupação.
E o Capitão Levi...
Bem. Ele com certeza iria matá-la quando descobrisse.
Mia soltou um pequeno suspiro.
— Eu volto para o meu esquadrão.
Rin cruzou os braços.
— Isso se eles não te matarem.
Mia riu.
— É possível.
Por um momento, sua mente voltou alguns meses no passado — o papel da carta ainda estava vivo em sua memória.
"Volte a trabalhar para mim. Ou suas irmãs morrem."
A assinatura do dono da Casa Vermelha estava no final da carta. Mia lembrava da sensação do papel rasgando em suas mãos.
Lembrava da raiva. Do medo. E da decisão.
Ela tinha pedido ajuda apenas a uma pessoa — Hange Zoe.
A única que aceitou ajudá-la a desaparecer. O relatório oficial dizia que Mia havia morrido em missão. Mas aquilo sempre foi uma mentira temporária.
Ela precisava resolver aquilo antes. Depois, voltaria.
Mia se levantou.
— Escutem. Vocês vão pegar apenas o essencial. Nada de malas grandes. Encontrem comigo no estábulo em dez minutos.
As três assentiram.
Mas antes que se separassem... Mia congelou. Seus olhos se estreitaram.
No horizonte, algo estava errado.
Pequenas silhuetas corriam pelas ruas da vila. Gritos distantes. Pessoas fugindo.
Kisa franziu a testa.
— O que foi?
Mia não respondeu. Seu olhar ficou fixo. E então seu corpo inteiro enrijeceu.
Uma sensação antiga percorreu sua espinha.
Instinto de combate.
Algo que ela havia desenvolvido depois de tantas missões fora das muralhas.
Seu cérebro levou um segundo para aceitar.
Não. Isso é impossível.
Mas a verdade já estava clara.
— Titãs.
As três irmãs empalideceram.
— O quê?! — Rin sussurrou.
Mia já estava se movendo.
— Vão para o estábulo. Agora.
— Mia—
— AGORA.
O tom de voz não deixou espaço para discussão. As três desapareceram pela escada.
Mia permaneceu no telhado por um segundo, seu olhar ainda fixo no horizonte.
Como assim tem titãs dentro da Muralha Rose...?
Sua mente não encontrava resposta. Então ela fez o que sempre fazia. Parou de pensar.
E começou a agir.
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O quarto de Mia ainda estava exatamente como ela havia deixado. Simples. Discreto.
Debaixo da cama havia uma caixa. Ela a puxou para fora.
Dentro estavam o uniforme verde da Divisão de Reconhecimento e o equipamento de mobilidade tridimensional. Ela passou a mão pela capa verde por um instante. O símbolo das asas da liberdade brilhou sob a luz da lamparina.
Era como reencontrar uma parte de si mesma.
— Hora de trabalhar.
Minutos depois, Mia já estava correndo para o estábulo. Os gritos na vila estavam mais próximos. Som pesado de passos.
E então ela viu.
Um titã surgindo entre as casas.
Alto. Lento. Grotesco.
Kisa soltou um grito.
— MIA!
— Nos cavalos! — ela ordenou.
Rin, Lis e Kisa montaram rapidamente.
Mia sacou as lâminas.
Antes de sair, ela tocou rapidamente a bolsa presa ao cinto — seus frascos de veneno ainda estavam lá.
Um sorriso surgiu em seu rosto.
— Certo... vamos ver se vocês ainda funcionam direitinho.
Ela disparou.
O primeiro titã caiu em segundos. Depois outro. Não eram muitos.
Mas algo estava estranho. Eles não estavam interessados na vila.
Estavam... indo para algum lugar. Mia observou a direção.
Os titãs avançavam todos na mesma rota. Como se estivessem... sendo chamados.
Ela montou no cavalo.
— Sigam para a casa do casal! — gritou para as irmãs. — Não parem por nada!
— E você?!
Mia puxou as rédeas.
O vento da noite soprou sua trança ruiva para trás. Seus olhos estavam fixos nos titãs que marchavam ao longe.
— Eu vou ver para onde eles estão indo.
E então ela disparou atrás deles.
Na direção do Castelo de Utgard.
Sem saber que, em poucas horas, aquela decisão mudaria tudo.
