Work Text:
O gosto do vinho barato queimava-lhe o estômago. O amargor descendo pela garganta e infectando seus sentidos sem dó. Ele girou a taça em sua mão levemente, uma, duas, três vezes. Paralisado. Olhando, sem ver, o líquido girar e girar em perfeito conjunto, sem ondulações, até parar. Observou atentamente a fina camada de líquido que ainda cobria as bordas da taça retornar ao fundo, aglutinando-se lentamente as demais gotas.
As ações mecânicas. O braço encostado, apoiando a parte superior do corpo. Seu corpo largado em uma cadeira em frente a janela. A janela posicionada de tal forma que era possível ver não somente a lua, como também o reflexo do satélite natural na baía de Yokohama.
Era amor, virou dor,
O tempo não curou.
Brindando sob a Lua, à cidade, à contaminação, à tristeza, à vitória...
À Dazai.
Que irônico, pensou, brindar a quem mais odeio. Estou saudando sua morte ou afogando minha saudade?
E o amargor continuou, pela noite, pelo dia, pelos próximos meses e estações. Sob a tristeza, junto a contaminação. Marcado nos intricados padrões dos flocos de neve. Sem aspirar a nada, sem desejar nada.
O amargor.
