Work Text:
O farfalhar das folhas roçam o topo dos meus ouvidos como um murmúrio desonesto e discrepante, empurrando em um assopro austero aquela representação paradisíaca que minha mente registra até os míseros detalhes e lembranças eufóricas; mas, quando os meus orbes castanhos se prendem na maçã premiada e solitária da árvore dourada, meu cerne percebe como tudo é ilusório, como tudo é um sonho punitivo para minha credulidade, por tolerar e liderar cada carnificina entre meus irmãos. A coroa de prata acima da minha cabeça — maculada nas pontas amoladas e entortadas nas laterais com sangue dos filhos insontes — é um fardo recluso, um lembrete dos futuros que minha mão ousou ceifar.
Minha auréola exige uma força específica no meu crânio, curvando-a em uma atitude deplorável e incondizente de um príncipe; como se quisesse a todo vapor arrepender-se e, imediatamente, acabar com todo esse legado monumental sobre mim. Não para me repreender, e, sim, para expressar meu remorso e vulnerabilidade reprimida. Mas ninguém está aqui para notar. Todos ocupados demais em festejar e cantar sobre o meu esplendor em seus coros litúrgicos, que não há mais espaço para preocupação. A solidão importa os meus pés descalços e desprotegidos, como um abraço indesejado de um parente, ela cochicha no meu ouvido enquanto vasculha em meus ossos o motivo perfeito para arrancar e pendurar minhas grandes asas, assim como uma bela borboleta emoldurada no meio da sala.
“Não existe escapatória no paraíso, Mikhael." Um silêncio perturbador parou por segundos — minutos se eu não tivesse tão incerto sobre mim — que, brevemente, morreu com uma punhalada ríspida e satisfatória daquela voz. “E tu sabes bem que não importa onde vais ou que corpo habitarás para acovardar-se, tu pagarás eternamente o teu pecado com solidão e morte."
Realmente…
Não importa quantas vezes esse pesadelo nocivo persista em rastejar e reiterar nas minhas vísceras à noite, minha mente não é forte o suficiente para suportar as consequências, nem as malditas recordações dos escombros e nem o odor opressivo de pele queimada exalando nas minhas narinas. Como soldado, eu não era forte como acreditava ser. Eu sabia, como mensageiro, que o conceito de livre-arbítrio era algo limitado e inalcançável para seres celestiais como nós, que os banham em matanças desnecessárias, privilégios e glória errônea. E eu reconheço que essa tortura perene é uma penitência justa.
Ainda assim, minha âmago é incapaz de não ansiar os narcisos do quintal, de não desejar que o sol brilhe mais uma vez sobre nossos corpos, ambos prontos para explorar e dançar em solo sagrado. Eu clamo pelo recomeço e a esperança de me tornar completo em seus braços, outra vez.
E, antes que eu pudesse contemplar o estágio sardônico da minha queda, um puxão de braços afetuosos — porém temerosos — na minha cintura é o golpe fatal de uma espada na minha consciência. Os cantos de vozes solenes, onde todos morrem e renascem como um no próximo crepúsculo, são substituídos pela sonoridade calma e familiar de guizos se chocando. O estorvo de plumas brancas é reduzido em nada mais do que um fantasma do meu passado, em que ele carinhosamente se enlaça no seu amor genuíno e fervoroso.
Quando os meus olhos se encontram totalmente adornados e acalentados nos meus braços, percebo que não há mais olhares e murmúrios escrupulosos do jardim, nem morte ou solidão guardada. Existe apenas eu e você, meu amado Pierrot.
Então, tudo o que me resta apresentar essa doce imagem na escuridão do meu quarto é a inspiração de uma promessa que nunca se quebrará:
“Assim como você me salvou da perdição, eu prometo salvá-lo de todo sofrimento e perversão que existe nesse mundo.”
