Work Text:
“Porque você está sempre com tanta raiva do mundo, filho?” Terrence inqueriu sem olhar para o menino, seu menino. Finney acabara de chegar em casa e simplesmente jogou o casaco sobre a cadeira, pegou uma laranja e se sentou, ele nem se preocupou em explicar por onde esteve. Isso enfurecia o mais velho, ainda sim estava tentando ser compreensivo.
A cozinha parecia mais escura que o normal, a casa quieta. Foi assim que Finn descobriu que Gwen tinha ido dormir na casa da amiga. Era melhor assim, ele não estava com paciência para o olhar magoado de Gwen.
Ele mal começou a descascar a laranja quando sentiu seu sangue ferver lentamente sob o olhar do mais velho continuava a pressioná-lo para uma resposta. Era uma incógnita saber quem estava com mais raiva ali.
“Você não tem o direito de me perguntar isso” Finney ladrou sem conseguir se conter, ele estava mais agitado que o normal naquela semana... Era preciso muito pouco para tirá-lo do controle.
“Fez Gwen chorar hoje, bateu em um garoto dois anos mais novo... Levou uma suspensão de dois dias e desapareceu por horas sem avisar! Acha que eu não tenho o direito de saber o porquê...”
Finn se levantou abruptamente, quase derrubando a cadeira no processo.
“Eles provocaram isso! Eu só estava me defendendo” gritou, olhando para o pai com a mesma intensidade que ele o olhava. Que merda, não fiz nada de errado.
“Você não precisava se defender dessa forma” o mais velho gesticulou com vigor, sacudindo a cabeça em uma negativa que deixava claro sua posição sobre o que Finney havia feito.
“Se eu não me defender, bem, quem vai?” ralhou com uma agressividade que denunciava o quanto ele estava fora de si, prestes a explodir. Ele não precisava de um carrasco. Porque ninguém entende...? “Você sabe... Sabe o que falam sobre mim. Sabe como... Como eu fiquei e mesmo assim acha que eu não tenho o direito de sentir raiva?! Você se afundou no álcool depois de perder a mamãe e...”
“E você quer acabar igual seu pai? Afundado em algo por que não foi forte o suficiente?” indagou sem se importar em concordar com o quanto havia errado até ali. Ele também sabia que Finney não precisava passar pelo mesmo para chegar a mesma conclusão: não valia a pena.
“Eu sou... forte... o suficiente. Você não tem ideia do quanto” o garoto disse entre dentes, tentando conter seu impulso violento. Ele era forte. Ele não deixaria ninguém dizer o contrário. Ninguém sabia... Ninguém sabia o que ele teve que suportar ou o quanto doeu.
“Eu não quis dizer isso. Não era nesse sentido” o homem passou a mão pelo rosto e tentou não gaguejar para tocar no assunto que era um tabu entre todos naquela casa. “Todos sabemos o quanto você foi forte. Você era só um garoto... Meu deus e... Eu fico pensando que não consegui ajudar você antes... E nem consigo agora! Mas, filho, por Deus, você não deixa ninguém te ajudar. Você não deixa as pessoas chegarem perto ou... Ou saberem pelo que você está passando!”
“Eu não preciso de ajuda. E eu não preciso ser salvo. Posso fazer isso sozinho” Finn despejou de uma vez, agarrou o casaco e saiu para fora, batendo a porta atrás de si. Foda-se sua casa. Foda-se seu pai e qualquer um que achasse que ele não conseguia lidar com isso. Ele estava lidando com isso desde o dia em que saiu daquele porão. Ele estava ocupado sobrevivendo, sem ninguém para salvá-lo, muito antes disso.
Isso não é bem verdade, é? sua mente traiçoeira sussurrou inquieta. Finney prendeu a respiração e então a soltou devagar. Havia uma pessoa, uma única pessoa que estava lá para salvá-lo, quando ninguém mais estava. E não era porque ele era forte, mas porque ele tinha algo dentro de si que Finn nunca teria (ou mais ninguém); e o Blake pensou que talvez fosse isso que as pessoas chamassem de espírito. O espírito de Robin ultrapassava força física ou confiança, ou qualquer outra qualidade que ele demonstrava. Finney o invejou por muito tempo em silêncio, porque ele sabia que não tinha o mesmo dentro de si.
Ele não o invejava a muito tempo, embora as vezes desejasse trocar de lugar com o amigo para lhe dar a chance que não teve.
Andar pelas ruas sempre o deixava tenso e liberto na mesma intensidade. Sem rumo e sem compromissos, ele podia chegar em qualquer lugar. Havia um certo prazer em não ter um estigma de onde estava. Uma cidade nova, um estado novo. Finney pensava nisso com frequência.
Havia poucas coisas o mantendo onde estava, mas ainda sim... Não era como se pudesse mudar o que estava preso em sua alma somente mudando de lugar. Os demônios ainda estariam a solta, o provocando constantemente, o perturbando sobre os fatos do passado. Ele não conseguia fugir de certas coisas. Não conseguia fugir de si mesmo. Sendo assim, ele acabou no mesmo lugar de sempre, mais um motivo do porque todos na escola o consideravam uma aberração: ninguém podia negar o quanto conversar com seu melhor amigo morto era estranho, nem mesmo Gwen ou o próprio Finney.
Ajoelhado sobre o túmulo de Robin, mais uma vez naquele mesmo dia, o Blake inspirou e expirou alto. Ele fez a mesma oração de sempre, pedindo que suas palavras pudessem encontrar Robin, onde quer que ele estivesse.
“Me ajude a ser forte, Robin” pediu, tentando ganhar coragem o bastante para não precisar sentir toda aquela raiva. Ele era um medroso e sabia disso. Ele precisava revidar... E mesmo assim nada funcionava. Não estava derrotando ninguém ao fazer isso, apenas ensinando as pessoas a se manterem longe. E Finney não queria ficar sozinho, não de verdade. Ironicamente, ele não queria a companhia de ninguém exceto a de um menino morto. “Você não faz ideia de como queria ter você aqui.”
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“Você não faz ideia de como eu queria que você pudesse me ouvir... Eu sempre estou aqui, com você” o fantasma de Robin murmurou, preso em sua própria dimensão, assistindo o melhor amigo desabar de novo e de novo. “Você é forte, Finney, corajoso e... Você vai melhorar, eu sei que vai.”
