Chapter Text
O barulho da cidade fez Julian despertar dos pensamentos. O apartamento da mãe tinha um piso de madeira que ajudava na regulação da temperatura e janelas antigas. Era o lugar onde ele conseguia respirar melhor depois de tanto tempo sufocado.
Na cozinha, Jeanette preparava café, de costas, usando uma camiseta velha de banda que ele reconhecia como sendo dele. Estava com saudades, certamente.
— Você acordou cedo — ela comentou, sem se virar.
— Ainda desconfortável com o fuso — Julian respondeu, pegando uma caneca no armário.
Ela sorriu de canto, finalmente olhando para ele. O olhar era atento, mas suave — totalmente diferente do pai.
— Ele brigou com você de novo?
Julian deu de ombros, sem querer entrar muito no assunto. Ele sabia que falar de John tocava em um ponto sensível dela, além de que ele não precisava estragar o dia logo cedo.
— A gente sempre briga. Só que… dessa vez foi pior.
Ela não insistiu. Apenas empurrou o prato com torradas na direção dele.
A mente dele viajou para a imagem de John em pé no escritório, com o típico tom de voz manso, mas envenenado. Lembrou-se dele dizendo que música não era plano de vida, era capricho.
— Eu não sou seu investimento, John — Jules respondeu mais alto do que pretendia. — Você sempre soube que eu queria ser músico.
— Não conte com minha ajuda para isso — disse o genitor, com a expressão mais séria do que nunca. — Sou contra essa ideia estúpida.
— Nunca contei com nada seu, não seria essa a primeira vez.
O silêncio pesado tomou conta. Jules lembrou de como suas mãos tremiam e suavam ao mesmo tempo, embora não quisesse demonstrar fraqueza na frente do pai. Ia virando para voltar ao quarto quando ouviu a voz baixa de John resmungar:
— Primeiro, essa história com o outro garoto. Agora, quer ser cantor? Uma decepção atrás da outra.
Julian apenas respirou fundo e não disse mais nada
A lembrança se dissipou aos poucos e ele piscou algumas vezes, voltando para a cozinha pequena, para o cheiro de café recém-passado e para a presença silenciosa da mãe do outro lado da mesa. Jeanette mexia na própria caneca, respeitando o espaço dele.
Depois do café, Julian voltou ao quarto como fazia desde a adolescência. Era um espaço simples, com pôsteres antigos colados de qualquer jeito nas paredes e fios espalhados pelo chão. A guitarra descansava encostada na cama e ele a pegou quase por instinto, sentando-se.
Tocou algumas notas soltas apenas para sentir o som preencher o ambiente. Sem expectativas, sem discursos sobre futuro, sem o peso de sobrenomes nos seus ombros. O caderno estava aberto ao lado — páginas cheias de frases riscadas, palavras que começavam e paravam no meio. Julian deixava a caneta acompanhar o ritmo da melodia que surgia, falava de lugares, de encontros improváveis, da luz do sol. Em algum momento, percebeu que sorria sozinho.
Parou de tocar por alguns minutos e suspirou, encarando o teto. O celular vibrava vez ou outra ao lado da cama, mas ele não precisava de muito esforço para saber quem era.
“Chegou bem?”
“Me manda seu endereço”
“Estou com saudade”
Jules sentiu o coração bater em um ritmo diferente, como toda vez que pensava nele. Respondeu as mensagens com um sorrisinho no rosto.
No fim da tarde, com o céu começando a mudar de cor, Jules saiu de casa. Caminhou até uma esquina não tão distante do prédio, onde encontrou a silhueta familiar encostada em um poste.
Nick se virou assim que sentiu a presença do outro, segurava um pequeno buquê de flores coloridas em uma das mãos e um copo de café na outra. Ele deu um sorrisinho antes de se aproximar.
— Não sabia se você gostava, mas não queria aparecer de mãos vazias… — Ele deu de ombros.
— Obrigado. Eu nunca ganhei flores. — Jules riu, um pouco sem jeito.
Antes que Nick pudesse dizer mais alguma coisa, eles se abraçaram sem pressa para soltar. Era uma mistura de saudade, alegria e urgência em estar junto.
— Quer… — Nick afastou-se o suficiente para olhar para ele. — Quer subir? Ou a gente pode sair para algum lugar, se você preferir.
Julian hesitou por um instante e olhou na direção do prédio, depois de volta para Nick.
— A minha mãe está em casa — disse, como um aviso tranquilo. — Ela vai gostar de te conhecer.
— Prometo que não mordo. — Sorriu, compreensivo.
Subiram juntos, lado a lado, dividindo o elevador antigo que subia devagar. Julian sentiu aquela ansiedade boa — a de deixar alguém entrar em seu espaço. Quando abriu a porta do apartamento, Jeanette apareceu quase imediatamente, secando as mãos em um pano de prato.
— Olá — disse ela, curiosa. — Você deve ser o Nick.
Julian piscou, surpreso. Não esperava que ela tivesse lembrado do nome que ele mencionou duas ou três vezes por telefone durante a viagem.
— Jules falou de você algumas vezes — ela completou, com um sorriso simples.
A respiração de Nick pareceu relaxar imediatamente e ele balançou a cabeça com uma expressão suave.
— Prazer, senhora — respondeu, estendendo a mão. — Obrigado por me receber.
— Apenas Jeanette — corrigiu ela, rindo de leve. — Fiquem à vontade. Vou sair mais tarde, então a casa é de vocês.
No quarto, Nick observou tudo com curiosidade genuína: os instrumentos, os cadernos empilhados, os pôsteres de bandas que ele gostava. Julian se sentiu estranhamente exposto e orgulhoso ao mesmo tempo.
— Isso aqui é muito… você — Nick comentou, sentando-se com a guitarra no colo com cuidado.
Julian encostou no batente da porta, cruzando os braços, observando a cena. Era bom ver alguém ali dentro que não estivesse apenas de passagem. O mais novo parecia livre demais para alguém que tinha acabado de chegar, os dedos deslizando pelas cordas timidamente.
— Você toca? — Jules perguntou, curioso.
— Sim. Nada muito impressionante — respondeu, dando de ombros. — Aprendi sozinho quando era criança, meu pai tocava também.
Ele dedilhou distraidamente, uma sequência simples que fez Julian sentir algo se acalmando no peito. Pegou outra guitarra e se sentou no chão, encostando as costas na cama.
— Essa progressão é boa — comentou, tocando junto com ele. — Olha só.
Nick levantou o olhar, interessado.
— Mostra.
E Jules mostrou sem pensar muito, deixando os dedos guiarem o que vinha sentindo nos últimos dias. Não era uma música pronta — era só um esboço de algo que tinha tudo para ser grande. Nick acompanhou com a outra guitarra, concentrado.
Em algum momento, Nick largou a guitarra de lado e se aproximou, sentando-se no chão ao lado dele.
— Gostei de te ver assim — disse em um tom baixo.
— Assim como? — Jules perguntou, encarando ele.
— Confortável em seu habitat. — Ele inclinou a cabeça.
O mais velho sentiu o rosto esquentar. Antes que pudesse responder, o outro segurou seu rosto delicadamente e o beijou de surpresa. Foi lento no início, a mão de Nick que estava apoiada no colchão subiu para a cintura de Jules, puxando-o para mais perto.
Lembraram dos beijos que trocaram no meio da viagem — mais quentes, cheios de paixão. Nick sorriu contra a boca dele e as pernas se tocaram, depois os corpos. Julian sentiu o coração disparar enquanto era levemente empurrado contra a cama.
— A gente sempre acaba assim — murmurou, entre um beijo e outro.
— Não estou reclamando — o mais novo respondeu, a voz um pouco falha.
As mãos exploravam com curiosidade contida, como se estivessem se acostumando com o novo cenário. Se afastaram por falta de ar, não de vontade. Jules ficou deitado, encarando o teto por uns segundos, tentando colocar os pensamentos no lugar.
— Se a gente não sair agora… — ele começou.
— A gente não sai hoje — Nick completou, divertido.
Julian riu e se sentou.
— Só… preciso de um tempo para voltar a ser uma pessoa funcional.
Saíram pouco depois, caminhando pelas ruas iluminadas e confortavelmente frias de Nova Iorque, contrastando com o calor que ainda permanecia na pele. Foram parar em um bar pequeno e escondido entre dois prédios antigos, com a luz baixa, música alta.
Nick pediu as bebidas no balcão, enquanto Julian observava o perfil do outro sob a luz fraca. Era quase mágico vê-lo ali, longe do verão brasileiro.
— Você está quieto — Nick comentou depois de um tempo, tocando de leve o braço dele.
— Só absorvendo — respondeu, sincero. — É bom estar com você.
Conversaram sobre as músicas que tocavam no bar, os bairros diferentes em que cresceram, as lembranças compartilhadas. O tempo passou sem que ambos percebessem. Uma bebida virou duas, depois três, e a vergonha foi se transformando em conforto.
Já mais tarde, eles saíram para pegar um pouco de ar. A rua estava mais vazia, Nick se encostou na parede e Julian ficou à sua frente, balançando o copo nas mãos.
— Posso te contar uma coisa? — perguntou, hesitante.
— Sempre — Nick respondeu, sério agora.
Respirou fundo. Não havia mais aquele medo, só um cuidado com o que estava prestes a dizer.
— Eu nunca me senti assim antes — começou. — Nem aqui, nem lá. Não desse jeito.
Nick manteve o olhar fixo nele, sempre atento e paciente.
— Eu sei que estou descobrindo muitas coisas sobre mim — Jules continuou, a voz baixa. — Mas isso não me assusta quando é com você.
O mais alto deu um passo à frente e tocou o rosto dele com o polegar.
— Você não precisa ter todas as respostas agora — disse.
— Já tenho a resposta que preciso. Estou apaixonado por você, Nick. — Julian sorriu, agora sentindo-se mais aliviado.
Ele se inclinou e o beijou ali mesmo, sem se importar se alguém podia vê-los.
— Ainda bem. — Nick assentiu levemente, a centímetros do rosto do outro. — Porque eu também estou.
