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Raios e Trovões

Summary:

Durante uma tempestade intensa no Rio de Janeiro, detetive Marineide enfrenta não só a ameaça iminente de uma bomba, mas também seus medos profundos de trovões. Acompanhada de Rosiclair, sua colega, elas lutam contra o tempo para desarmar a explosiva situação enquanto lidam com investigações complexas. Simultaneamente, Marineide navega por conflitos pessoais, especialmente com seu ex-namorado problemático, Zé Paulo, e uma tensão crescente com Rosiclair. Entre perseguições e desafios emocionais, a trama explora coragem, amizade e os limites das relações humanas em meio ao caos urbano.

Notes:

¹ ² ³ Transcrição não-literal de trechos do episódio S01E03 - Raios e trovões. Redação de Maria Carmem Barbosa, Patrycia Travassos, Ronaldo Santos, Charles Peixoto. Roteiro final por Maria Carmem Barbosa e Patrycia Travassos.

⁴ Transcrição não-literal de trechos do episódio S01E04 - Elas não usam black-tie. Redação de Patrycia Travassos, Ronaldo Santos, Charles Peixoto e Maria Carmem Barbosa.

Escrito com colaboração de Gabriela Necchi

Work Text:

Três de abril de 1990

A chuva caia espessa, batendo as gotas grossas contra as janelas como pedras de gelo. No rádio, o locutor já anunciava que ela seguiria pela noite, ameaçando afogar qualquer um que fosse tolo o suficiente pra sair de casa.

As plantonistas torciam para que o dilúvio inibisse a selvageria carioca pelo menos por algumas horas, o que claramente não era possível. Como se já não fosse o suficiente ter que lidar há cinco dias com uma equipe de investigação procurando uma bomba tão real quanto nota de 300 cruzeiros.

Marineide, por sua vez, acompanhada de Rosiclair, tentavam arrumar a janela que ameaçava cair a qualquer momento, até um trovão a assustar e a fazer encolher, sentada, com as mãos apertando os ouvidos como podia. Como se fosse um castigo, eles continuavam insistentemente a soar, atiçando todo o pavor da mulher. Já era ruim o suficiente passar por isso em casa, sozinha, mas como era obrigada a cumprir o plantão, a cereja do bolo de seu pesadelo da vida real era ter plateia para seu medo infantil.

"Encaro qualquer homem metido a machão, estuprador, assassino e me encolho com um trovãozinho qualquer?" Admitiria em voz alta? Já o fizera para Zé Paulo e considerava suficiente que o galinha que ela mais amava soubesse disso. Era seu segredinho mais mal guardado.

— Que que é? Você não gosta, não, é? — Tudo que ela não precisava era que Rosiclair também notasse isso.

— Paranoia de criança — e andou para longe dela, tentando desconversar.

— Que cê tem, Marineide? — Rosiclair estava estranhando Marineide. A detetive mais destemida da jurisdição de Celeste Leonardo tinha medos infantis, mas estava estranhando mais a si mesma, por estar preocupada com ela.

— Sei não, Rosiclair — esfregou as mãos nervosamente no peito — tô sentindo uma angústia aqui. Tem alguma coisa aqui dentro me dizendo que essa noite vai ser longa demais.

Mais uma série de trovões fez com que ela se afastasse mais um pouco da janela, olhando para todos os lados, antes de repetir mais uma vez o gesto de tapar os ouvidos. Rosiclair permaneceu observando enquanto Marineide ia para a cantina, sentindo ela mesma uma angústia começar a crescer nela, pela chuva, por Marineide e pela noite que ela queria que fosse o mais tranquila possível. Precisava desanuviar o ambiente, então tomou o mesmo rumo, já em mente com alguns comentários.

Sentada na companhia silenciosa de Adelaide e Belinha, forçou as mãos mais um pouco, uma de cada lado, num esforço inútil se afastar da delegacia por quantos segundos fosse possível, ouvindo um estrondo similar de uma bomba. Mais uma dessas naquela noite e ela surtaria. Da entrada do corredor decrépito, Rosiclair mantinha seu sorriso de canto, um pouco mais debochado do que deveria. Reparava como alguém que tanto se fazia de forte, tinha medo de algo tão corriqueiro e, como desagradável que era, o comentário ameaçava pular boca agora. Mas se conteve, exercitando o resto de empatia que ainda tinha em si. Talvez fosse algo diferente que a impedisse de falar em voz alta, mas não se permitia pensar nisso, implicar com Marineide era muito mais fácil.

Tirou o óculos de armação de plástico transparente do rosto enquanto andava até ela, as olheiras longas e cinzentas bem vivas no rosto, apesar do corretivo de uso diário. A repreensão sem som de Adelaide a acompanhava enquanto ela puxava uma cadeira e se sentava de frente a outra mulher, ficando ali até ela se desfazer do casulo de medo e abrir os olhos. Assim que ela o fez, tentou manter a seriedade quando a viu dar um solavanco para trás, de susto.

— Porra, Rosiclair! Quer me matar de susto? — Ela bradou, voltando a colocar uma mão no peito enquanto se levantava e ficava de costas para limpar uma lágrima que fugiu ao seu controle durante o pulo, tentando disfarçar. Buscou um copo, precisando tomar um pouco de café da garrafa surrada.

— Ih, relaxa um pouco, Marineide. Que tipo de pessoa tu acha que eu sou, porra? — Ela passou a mão no próprio cabelo, preto, liso e impecável, tentando fingir uma indignação que ela sabia ser muito real. De certa forma, amava implicar com a amiga, e a vê-la em um raro momento de desconforto era a chance perfeita para chateá-la mais um pouco, mesmo que levasse uma cortada.

— Do tipo que é um urubu! — Segurou o copo de requeijão com um pouco mais de força. — Sentiu o cheirin' da carniça de longe e voou pra ver se consegue uma boquinha!

— Poxa, Marineide — suspirou um pouco mais alto do que gostaria e pescou a atenção de Adelaide e Belinha. — Cê acha isso mesmo de mim? Eu venho aqui na melhor das intenção pra te ajudar e cê me trata que nem saco de pancada? — deu uma longa olhada para além da porta do terraço, de costas para as duas mulheres, ouvindo a água cair no telhado e as observou cair nas plantinhas bem verdes, uma tentativa de de dar vida àquele lugar tão maltratado. Olhou o chão cheio de uma água misturada com a fuligem da cidade, os entulhos encostados e saiu dali. — Também não ajudo mais! — Agradeceu mentalmente que Celeste a chamava. Um taxista e uma tricolor mal encarada, com um hematoma na sobrancelha foram muito delicadamente deixados pelas guardas da ronda noturna para que a pinimba fosse resolvida enquanto gritavam entre si. Não teria tempo para remoer o xingamento.

— Qual o problema da Rosiclair, hein? — Belinha perguntou pela centésima vez, não esperando uma resposta esclarecedora. Tinha ideias de quais seriam os motivos.

— Falta de sexo? — Marineide chegou perto dela, cutucando suas costelas e tirando uma risada da jovem e foi contagiada, esquecendo-se da chuva torrencial por preciosos minutos.


Marineide trancou-se no dormitório por um tempo. Buscou um cigarro da bolsa, sentindo os nervos à flor da pele e deu uma longa tragada, soltando a fumaça tóxica pelo nariz.

"A equipe da Rádio Globo está aqui na Praça da Bandeira, onde as águas já ameaçam cobrir os carros. Entre os carros, está uma viatura policial que está sendo abandonada por seus ocupantes. Vamos nos aproximar para conversar com o detetive que comanda a operação."

"Bem que poderia ser eu ali. Ainda bem que não é" pensou, enquanto se servia de mais um pouco de café para acompanhar o pão dormido.

"Boa noite, detetive, senhor pode relatar a nós o que está acontecendo?"

A voz que veio a seguir fez com a policial perdesse o interesse no lanche.

"O que ocorre é que nós somos da Entorpecentes e vamos efetuar uma prisão aqui na Praça Mauá. Tamo com o elemento dentro do carro e fomos impedidos de continuar até a delegacia."

Naquele ponto, já estava prostrada ao lado do rádio, um misto de curiosidade e medo da própria certeza de quem era o entrevistado. Mexia nervosamente no cabelo.

"E qual providência que o senhor irá tomar?"

"Nós pediremos abrigo na delegacia mais próxima."

Entorpecentes. Praça da Bandeira.

Tudo que ela não precisava era a maldita terceira bomba caindo em seu colo. O coração ameaçava-lhe pular da boca e fugir para bem longe.

"Obrigado e boa sorte, detetive... como é o seu nome?"

"Paulo. Zé Paulo." ¹

— É pedir demais que esse cara suma da minha vida, porra? — Engoliu em seco, a queimação na garganta dizendo que o lanche da noite perigava fazer o caminho contrário.

Deu outra tragada no cigarro e o apagou no chão. Não era hora de levar uma advertência por estar fumando outra vez no dormitório. Andou de um lado para o outro, tentando organizar a cabeça da forma que podia para o que quer que viesse nas próximas horas. Gritou, frustrada ao bater o joelho em uma mesinha de canto e continuou a andar, batendo os pés. Odiava como a mera menção menção à ele a deixava sem rumo.

— Nossa, Marineide, o que foi?

— Ele chegou? — encarou Belinha, não fazendo o mínimo de esforço para esconder a aflição.

— Ele quem?

Marineide olhou pela janela mais uma vez, tentando ver a rua. Belinha provavelmente não tinha ideia de quem Zé Paulo era, nem que o caos estava instaurado na mulher, mas não era tola e logo descobriria. Para a policial, era preferível que a jovem ligasse apenas com as próprias preocupações, mas a necessidade de falar qualquer coisa pulou de sua boca.

— Fala com sinceridade — agarrou levemente a jaqueta rosa de Belinha — eu tô bem? — Nem tinha ideia do que queria saber com aquela pergunta. Odiava o "efeito Zé Paulo" ao mesmo tempo que o calor invadia todo seu corpo, fervendo seu bom senso. — Eu não tava preparada pra isso. Não hoje. — Mesmo que não explicasse nada para a jovem, insistiu para que ela não a abandonasse até que ele chegasse. ²

O som da teimosa janela caindo outra vez provocou uma mobilização em massa na delegacia, os papéis voando em todas as direções. De tanto tentar evitar, Marineide viu-se em poucos segundos ajudando Zé Paulo a remendar o estrago.

O turbilhão em sua cabeça desapareceu com aquele par de olhos atentos se concentrando a martelar a janela de volta ao lugar.

O coração voltando ao ritmo correto perto do calor do corpo dele.

E o inevitável sorriso bobo que tomou conta do rosto ao trocar olhares de cumplicidade com ele. Não se recordava de quando passaram a se entenderem apenas com pequenos gestos, apenas aconteceu. Tinha gosto de estar em casa, onde nada, nem ninguém iria atrapalhar, nem mesmo tempo.

"Já dizia Vinícius de Morais, que seja eterno enquanto dure." Uma vez ele dissera enquanto estavam nus e abraçados.

Até que ele encontrasse outro rabo de saia e ir correndo atrás, para que Marineide voltasse com sua miséria interior, um pouco mais forte. Mas ela logo esquecia e vivia um ciclo vicioso que ela o esperaria, o frio da barriga com o seu retorno motivaria mais uma noite juntos e logo ele partiria outra vez. Típico canalha.

Rosiclair, em meio à papelada voadora, assistiu a cena com uma careta convenientemente formada pelo vento gelado. Previu que era outra daquelas noites que eles viveriam todo o ardor do tesão e Marineide chegaria no dia seguinte cuspindo marimbondos, enquanto ela mesma não pegava nem resfriado. Ajudou a catar todos os papéis do chão, ninguém percebendo que ela se deixava corroer silenciosamente com os dois, cansada de tentar entender e por ser azarada de estar por perto, em todas as malditas vezes, e ver o quanto a amiga gostava do ex-namorado.

— Que tal um café bem quente? — A redoma que se reconstruía entre os dois era inquebrável e inabalável, pelo menos para o mundo exterior. Foram em direção a cantina para se secarem e conversarem um pouco. Uma reconciliação temporária não estava fora de questão.


Enfim sós, Zé Paulo aproveitou-se de toda influência que exercia na policial e a abraçou, cobrindo-a com a toalha úmida que ele usará para se secar. Ficaram ali por um tempo, o barulho da chuva os embalando.

Da entrada do corredor, Rosiclair mantinha-se escondida como podia, aguçando a audição para tudo que eles falassem.

Marineide lentamente retornava para a realidade, passando os momentos dos dois a limpo, até que, inevitavelmente, a última lembrança que sobrava era o término conturbado. Com as ideias voltando ao estado de normalidade, a revolta tanto com ele quanto com ela rasgando suas entranhas.

— Não vamos recomeçar com essa história, Zé Paulo — desvencilhou-se dele, querendo descobrir um jeito de enfiar isso na cabeça dele e, por que não, na dela também.

— Nossa história não acabou, Marineide — insistiu, como ele fazia sempre, incapaz de largar o osso — não vai acabar nunca.

— Acabou sim. — Tentava sair de perto dele a todo custo. Enquanto estivesse em seus braços, não teria qualquer poder nem sobre seus próprios pensamentos.

— Tem um ano e meio e eu não quero mais voltar. Já aprendi a viver sem você — mentiu tão descaradamente que Rosiclair lhe veio a mente e como compartilham esse mesmo traço de personalidade. Talvez por isso vivessem sempre levando esporro de Celeste pelas cagadas feitas.

— Mas eu não aprendi, me ensina. Eu não sei viver sem você, penso em você o tempo todo. Eu sabia que tava aqui, fiquei ligando pra cá milhares de vezes e você mandava dizer que não estava. ³

Rosiclair outra vez.

— Marineide, teu macho tá te ligando outra vez — gritou para ela, enquanto tentava escrever algo e não perder a paciência com uma criança birrenta.

— Diz que eu morri, Rosiclair — a policial voltou a tomar seu lugar, tomando a prancheta da mão da mulher e conferindo o que era, para dar prosseguimento.

— Cê sabe que ele vai tentar de novo, né. Esse cara é mais grudento que chiclete perdido em calçada — inclinou-se para ela e sussurrou — mais pé no saco que esse pirralho.

— Inventa qualquer coisa, mulher — rindo em concordância com ela, mas a raiva fervendo em seu peito.

Rosiclair a olhou, preocupada que com isso ela se machucasse mais do que simplesmente falasse com ele, mas acatou a decisão dela.

— Ela saiu pra entregar uma intimação.

E desde então, bastava que a mulher olhasse para Marineide e ela saberia quem era no telefone, até que um dia simplesmente parou de pedir o consentimento dela e simplesmente desligava na cara de Zé Paulo.

Ela não poderia ser mais grata por isso.

Mas Rosiclair não estava ali para livrá-la das próprias vontades, estava sozinha.

"Eu te odeio por me fazer ficar assim. E me odeio por ser frouxa desse jeito." pensou.


A policial de butuca viu na fala do homem a deixa perfeita para sair de fininho e voltar ao trabalho antes que alguém anunciasse que estava escutando o que não era de sua conta. Fingindo não estar nem um pouco mais tranquila...

"Marineide tem cabeça. Não vai cair no papinho de cão arrependido tão fácil." Pensou, trancando-se no arquivo, estudando as pastas de fotos com muita atenção. Concentrou-se em cada mal encarado por vez, reconhecendo alguns deles. Os que ela mesma fez questão de passar a pulseira, com a ajuda de Marineide. Como ela gostava dessas diligências, podia ver os anos de experiência dela na Homicídios, surrando homens marrentos até ficarem encolhidos dentro da viatura.

"Foco, Rosiclair. Todo mundo tá dependendo disso."

Passando mais algumas páginas, a esperança estava se esvaindo, até que um fez a luzinha da memória estalar.

Olhos caídos, barba por fazer e rosto roliço.

— Carbutti! — exclamou — Adelaide, vem cá!

Discutiram alguns segundos, mas o nervoso de ter uma bomba, pronta para incinerar todas elas, voltou com com força total. Não conseguia se lembrar onde vira o meliante, mesmo repassando meticulosamente o dia inteiro.


Marineide pendurou seus braços nos suportes do telhado, deixando a cabeça pender para frente, a água gelada molhando seu cabelo e escorrendo até o pescoço, fazendo todo seu corpo arrepiar. Esperava que ele entendesse o recado e tomasse chá de sumiço, mas ele a envolveu mais uma vez, convencendo-a a descer e ela não conseguiu recusar, deixando que ele enrolasse a toalha nela. Sentou-se num caixote, cabisbaixa. Esse suplício não teria fim?

E um objeto não pertencia àquele terraço.


— Só pode estar na cantina ou no terraço — arriscou Rosiclair — não procuraram lá.

— O terraço!


Zé Paulo adiantou-se, impedindo ela de encostar na maleta. Com toda cautela, puxou e abriu. A contagem regressiva piscava sem piedade os últimos 35 minutos de todos eles.

Rosiclair e Adelaide detiveram-se na porta, dando de frente com o casal agachado, Marineide agarrada nas costas do ex-namorado e ele a olhando com descrença.

"Mas não é possível." Não conseguiu não reparar na forma que estavam próximos.

— É uma bomba digital, pode explodir metade do quarteirão.


Rosiclair olhou o relógio. 05:10 da manhã. A chuva tinha enfim parado e já era possível ver o céu ficando azulado, olhando somente para cima, nem era possível dizer que o mundo desabou no Rio de Janeiro por algumas horas.

Mas bastava olhar para baixo e parecia que bem mais que um dilúvio tinha acontecido. A cidade estava completamente submersa em uma água podre que demoraria ainda mais para escoar sabe-se lá Deus para onde.

— Mas vocês já vão? — Celeste estava com um copo de café em mãos, tendo perdido a conta depois do quinto. Sorte divina nem ela e nem ninguém ter um ataque cardíaco durante a noite.

— A gente tem que remover esse meliante pra averiguações — Zé Paulo deu um pescotapa no crossdresser encolhido e algemado — ele roubou a arma de uma policial, doutora. Só foi burro demais pra verificar se tava carregada, porque numa hora dessas podia estar na rua.

— E a Belinha estaria morta numa hora dessas — Rosiclair alfinetou, sentindo os ombros protestarem de tanta tensão. Apertou-os, sem dar importância para a repreensão silenciosa que levava da delegada.

— O que importa é que tudo terminou bem — Celeste exalou otimismo, mesmo estando visivelmente cansada. Ter sobrevivido àquela noite era motivo de comemoração. — E que estamos todas vivas. Moídas, mas vivas.

Marineide estendeu um copo de café forte para Rosiclair, que aceitou prontamente a gentileza.

— A gente se vê mais tarde? — Zé Paulo estendeu a mão para a não-tão-ex-namorada e a puxou para um beijo. A outra detetive revirou os olhos e desviou o olhar, tomando o líquido de uma vez só. Muito cedo para ver aquela cena pela décima vez no mesmo dia.

Adelaide e Celeste se entreolharam e fizeram um acordo de não comentar em voz alta na frente de todo mundo.

— Claro, que horas você passa aqui pra me pegar? — deu um longo beijo nele, o sorriso travesso não querendo abandonar o rosto.

— Às duas tá bom pra você?

— Tá ótimo.

Deram um longo selinho e Zé Paulo puxou o meliante pela gola da blusa, arrastando para fora e sendo seguido pelo parceiro. As policiais ficaram caladas até que os três descessem as escadas e assim que saíram de vista, voltaram a seus afazeres.

— Os senhores vão querer dar queixa? — Belinha voltou-se ao taxista e a tricolor.

Rosiclair levantou-se, ignorando todas e indo direto para o dormitório. Precisava deitar um pouco, os olhos um pouco pesados e a consciência dolorida de ter ajudado Marineide por tanto tempo só para ela se reconciliar com o ex na primeira oportunidade.

"Depois dizem que eu sou amarga. Tá na cara que ele vai dar um jeito de passar ela pra trás outra vez. Deus me livre acabar que nem ela."

— Deixa, Adelaide — a delegada impediu que a amiga fosse atrás para um interrogatório — deixa ela descansar um pouco.

— Isso porque cê não viu a cara que ela fez quando viu esses dois lá no terraço. Nem parecia que tinha uma bomba do nosso lado — argumentou enquanto se fechavam na sala da delegada.

— E ela tem outra bomba em mão. Cabe só a ela saber o que vai fazer quando se dar conta.

— Mas isso tá errado, Celeste.

— Errado por que, Adelaide? Elas que são brancas que se entendam — Celeste sentou, contando com o momento de ir para casa, tomar um banho e dormir um pouco. — E você não recriminar a Rosiclair por algo que não é da nossa conta, deixa a menina descobrir que não é tão amarga como pensa. Vai que essa história anima ela um pouco.

— Mas Celeste...

— Já tá resolvido. E você vai tratar ela exatamente como sempre. Não é por uma coisa minúscula que ela vai deixar de ser a Rosiclair que você sempre conheceu.

Adelaide ponderou as palavras um pouco. Talvez a delegada estivesse certa e tivesse conhecido a policial assim, uma vez que ela nunca tocava no assunto da vida amorosa.

— Tá certo, Celeste. Você tem razão, como sempre — riu.

— Você já viu tanta... — pensou nas opções de palavras que tinha para definir o que precisava dizer — bizarrice nessa delegacia, Adelaide. Isso é a coisa mais insignificante que você podia implicar. Cada um tem seu jeito de ser...

— E se não tá agredindo e matando ninguém, quem somos nós para interferir, não é? — Adelaide completou com uma frase que a amiga dizia sempre.

— É peixe pequeno dentro das atrocidades que nós encaramos todos os dias, não é mesmo?

A amiga concordou com a cabeça. Não estava inclinada a confiar totalmente nesse raciocínio, preferia pagar para ver se ela abriria mão de tanta teimosia.

Ou se teria ao menos coragem de admitir para si mesma.


Dez de abril de 1990

E lá estava. A menina de ouro de Celeste Leonardo estava perigando ser afastada do cargo. Um senso de justiça mais forte que o bom senso resultava sempre nisso e Marineide tinha isso tão à flor da pele que não existia chefia nenhuma nesse mundo capaz de frear.

— Você não vai me contar mesmo, Marineide? — Rosiclair já estava impaciente com a movimentação incomum de Dr° Nadir na delegacia. Ele só aparecia para anunciar problema e ser machista, normalmente as duas coisas andando juntas.

— Você não confia em mim? — Insistiu, não se conformando com um vácuo como resposta. Se Marineide estava com problemas, ela tentaria ajudar, mesmo que isso significasse só pagar algumas canecas de chopp e deixar ela em casa, num sono alcoólico.

— Não!

Rosiclair deu uma profunda olhada na mulher, ofendida com a resposta e marchou para o dormitório, a garganta apertando com as lágrimas. Já esperava falta de tato, mas não com tanta grosseria. Não tinha feito nada dessa vez para merecer.

Marineide ficou confusa.

"Que merda aconteceu aqui?" Bufou, indo atrás da amiga estranhamente sensível, a pulga da dúvida rondando ela.

Entendeu ainda menos ao ver Rosiclair sentada na cama, chorando baixinho, provavelmente com medo de ter a fraqueza descoberta.

Abaixou-se ao lado dela, somente para ver ela limpando um pouco das lágrimas, fazendo bico que só vira algumas pouquíssimas vezes desde que viraram amigas e que o significado nunca ficou muito claro. Com delicadeza, puxou o rosto dela e passou seus dedos, limpando o rosto dela.

— Eu é que apronto, me dano e você é que chora — limpou o outro lado e ela não protestou. As mãos de Marineide estavam frias e o rosto de Rosiclair, quente.

— Muito bonito — ela passou a andar de um lado para outro, pensando nas possibilidades para que aquele choro aleatório fizesse sentido.

O contraste das peles a tirou de um mundinho nebuloso e a mania de Marineide a fez agir impulsivamente. Para se defender, deixou tudo que ela podia considerar como inveja rolar quando levantou.

— Abre teu olho Marineide, porque escreveu não leu, neguinho tá tentando te ferrar, mas você é a intocável, não é? Queria que fosse comigo — cuspiu, aproveitando do sentimento estranho queimando tudo por dentro — queria ver se fosse comigo se ia ter essa movimentação toda. Mas como é com a menina de ouro, todo mundo trabalha pra não ter ponta solta.⁴

Deixou uma Marineide inexpressiva e uma Belinha assustada para trás. A inconveniência dela para chegar sempre no meio de uma discussão era tão certeira que irritava Rosiclair. Ela precisava de um café bem forte e um pouco de tranquilidade, já que a fama de rancorosa seria eterna.

"Que merda tá acontecendo aqui? Essa mulher tá louca, só pode." Mulheres eram difíceis de entender.


Onze de julho de 1990

Rosiclair respirou aliviada. Marineide não seria afastada do cargo por muito pouco. Se podia ter asco de alguém, era o que tinha por Mariana.

"Não que você pudesse julgar, Rosiclair Meireles." Ignorou a sua consciência tentando sabotar seu humor.

— Bem vinda de volta, Marineide — brincou enquanto todas comemoravam.

— Vocês não vão se ver livres de mim tão cedo, minhas caras.

De certa forma, Rosiclair gostava do sorriso que ela dava quando se safava de mais uma cagada. Mostrava que ela estava pronta para quantas mais pudesse fazer.

E ela, definitivamente, faria.

Inconsequência era o traço mais autêntico de Marineide, tornando cada minuto de sua vida uma montanha russa, onde os ocupantes não tinham cintos, capacetes ou travas de segurança para encarar um loop ardendo em chamas num carrinho de madeira podre.

Adelaide comprara outra garrafa de uma mistura medicinal doce para comemorarem e Rosiclair decidiu não tomar. Da última vez, virou três copos, chegou em casa e virou todos dias de folga, dormindo profundamente.

Nunca comentou com ninguém os sonhos proporcionados pelo xarope. Tinham gosto amargo.

Compensou os dias fora do ar escrevendo em cada momento livre na delegacia, enchendo as páginas de seu pequeno caderno de poemas. Obviamente, sem que ninguém notasse. Seu hobby de escrever poemas era seu segredo mais sagrado e não queria que nem mesmo as colegas de trabalho soubessem.

— Tá com medo de ter onda, Rosiclair? — Marineide comentou quando ficaram sozinhas na cantina. — Tu encheu a cara desse negócio da outra vez que eu vi.

— É, tô precisando ficar com os pensamento em ordem. — Preferiu servir-se de um café e fez uma careta com a falta de gosto. — A gente devia prender a Belinha por fazer café, isso sim é um crime.

Marineide riu com a facilidade que o humor depreciativo dela retornava, mas ao menos não era com dela.

— Pode deixar que mais tarde eu faço um café bem forte pra você.

— Ao menos o seu café é bom. Imagina se seu café fosse igual a gororoba que você faz. — Ela olhava fixamente para o resto que sobrara no copo, não querendo encarar a amiga. O caderno de poemas estava no bolso com os novos versos causados pela briga do dia anterior.

— Vai implicar com a minha gororoba de novo, Rosiclair? Olha que eu faço mesmo.

— Deus me livre — jogou o resto na pia e lavou o copo, para sair depressa dali. Não entendia o desconforto por estar tão perto dela.

Marineide assistiu a cena com uma sobrancelha em pé e a acompanhou com olhar até ela sair e viu o momento exato que um pequeno bloco caiu do bolso dela, sem que ela notasse.

Apanhou o objeto. Um caderno que cabia na mão, com uma capa preta lisa cheia adesivos coloridos e um pequeno chaveiro de caveira amarrado no arame. A coisa menos Rosiclair que ela já viu. A curiosidade tentando sua vontade de abrir e conferir, mas apenas o guardou em seu próprio bolso. Entregaria numa outra oportunidade, vendo a mulher trombar com Belinha e fazer a jovem derrubar todas as pastas que segurava, sem parar para ajudar.


Lá pelas tantas da tarde, Rosiclair voltou a sentir o peso da consciência dos sonhos que tivera e como sugou cada gota deles para extravasar sua criatividade. Antes, tinha sentido algo diferente em suas entranhas ao repassar aquelas cenas tanta vezes. Depois de alguns dias, culpa por dar-se ao desfrute, mesmo que só ela soubesse. E ambos foram alternando até que ela chegasse ali, totalmente culpada. Certa de que botaria fogo nas páginas, bateu a mão no bolso e o coração parou. Não estava mais lá. Como todo santo não ajuda quando é mais importante, pelas horas que ficaram para trás e o caderno ainda estava no bolso, alguém já teria encontrado e estaria rindo às custas dela.

— Burra, lerda! — Revirou sua mesa, as gavetas e até a lixeira, sem muita esperança de encontrar. Bateu na mesa em frustração ao ter certeza, chamando a atenção de todos.

— Tá procurando alguma coisa? — Walderez aproximou-se, meio incerta, já que momentos assim eram perfeitos para que Rosiclair despejasse seu veneno em qualquer pessoa que passasse. Totalmente naja.

— Nada importante, Walderez, só um bloco de notas — ela disse rapidamente, passando o olho por todo o piso, refazendo todos os passos do dia, invadindo a sala de Celeste, o arquivo, o dormitório, até entre as plantas do terraço.

— O que deu nela? — Todas estranharam a esquiva da mulher, criando uma expressão de confusão generalizada.

— Eu acho que sei o que é. Belinha, me cobre aqui. — Deu espaço para a jovem sentar no seu lugar, conferiu se o caderno ainda estava no bolso e rumou atrás dela.

Rosiclair estava inconsolável, recostada num caixote do terraço e à espera do mais novo espírito de porco que a qualquer momento faria chacota dela.

— Rosiclair. — Segurava o caderno em uma mão e um copo de água na outra. Se a reação dela fosse tão ruim quanto o pequeno surto de antes, provavelmente forçaria ela a tomar tudo de uma vez para não gritar e todos acharem que era uma regional de histéricas fúteis. — É isso que você tá procurando?

Tão rapidamente a mulher levantou, Marineide também assustou-se ao ver ela perder totalmente a cor, mesmo ela tendo um tom de pele mais escuro.

Sendo frescura ou não, não teve outra alternativa a não ser deixar o copo espatifar no chão e deixar o caderno cair para conseguir segurar o corpo dela. Evitou que ela batesse a cabeça na mureta.

— Ô Rosiclair, cê não vai ter um siricutico agora, né? — Protestou com o peso dela, mas não teve resposta e a preocupação aumentou ao sentir como ela estava gelada.

"Tu não vai morrer por causa da porra de um caderno, né? Me ajuda aí"

— Adelaide! Belinha! Walderez, alguém me ajuda aqui, porra — gritou — cuidado, tem caco de vidro aí — alertou quando chegaram.

— O que você fez, Marineide? — Tudo que Celeste não precisava era ter mais problema com aquelas duas.

— Eu não fiz nada... — considerou comentar sobre o caderno, mas nada disse. Se o que tinha ali já rendeu aquele show, Rosiclair morreria se mais alguém soubesse — pega pra mim aquele bloco — Belinha esticou o braço e ela tratou de enfiar no bolso outra vez.

— Alguém ajuda ela a levar a Rosiclair lá pra dentro — Celeste ordenou e rapidamente Marineide e Adelaide a carregavam pelos ombros, jogando-a na cama de baixo do beliche — e de volta ao trabalho vocês, incluindo você, Marineide.

— Mas, Celeste...

— Nada de mais, a Adelaide vai cuidar da Rosiclair enquanto eu chamo o médico — cortou, temendo a gravidade da situação que fez que ela caísse daquela forma — e não me arrume mais problemas, sim? Ela vai ficar bem, Rosiclair é tão teimosa quanto você — complementou, tentando confortar Marineide um pouco.

— Eu sou um ímã de merda, né, doutora Celeste? — sorriu triste e saiu, levando uma turba curiosa junto.

— Você não acha estranho a Rosiclair ter um siricutico justo quando está sozinha com a Marineide, Celeste — comentou, sentada no chão, ao lado de Rosiclair.

— Eu não acho nada, Adelaide. — Andou até a mulher inconsciente, perturbada com a falta de cor dela. — Só que certas pessoas não sabem lidar com sentimentos. Rosiclair nunca... se apaixonou por alguém — sem dar-se conta, desabafava como se ela fosse sua própria filha — é verdade que eu acho essa reação um pouco exagerada, mas eu entendo o excesso. Ainda mais quando é alguém que você convive todos os dias, às vezes por noites seguidas, arrisca a vida com essa pessoa do lado, cuida da retaguarda dela, compartilha seus pesadelos, risadas. Tudo isso afeta ela.

Adelaide ouvia tudo muito atentamente, segurando a mão ainda um pouco fria de Rosiclair. Naquela demonstração de total desconhecimento e fragilidade, começou a compreender um pouco o lado dela.

— ...e na cabeça dela, elas nunca poderão ser mais do que amigas. É viver e morrer por paixões, coisa que eu nunca soube — deu uma risada seca — só pelos livros. Bom, vou buscar um médico pra nossa Álvares de Azevedo.

Sozinha, com a semidefunta, esperou por longos minutos até que um resmungo saísse de sua boca, junto com o franzido da sobrancelha. Lentamente ela abriu os olhos, tentando focar e descobrir onde estava. Sem dizer nada, a memória retornou e apertou mais a mão de Adelaide.

— Minha mão não é de ferro, vai com calma — obrigou que ela se deitasse outra vez e não ficasse com tonturas.

— Meu bloco, Adelaide. Onde ele tá? — sua voz mais enrouquecida do que o normal.

— Aquele que a Marineide colocou no bolso? Ela deve ter guardado pra você.

O aperto aumentou mais.

— Ela... — engoliu em seco — leu ele?

Adelaide apertou os olhos, desconfiando.

— Não... — mentiu, já que não tinha a menor ideia — agora sossega e espera a Celeste chegar com o médico.

— Mas eu tô bem, Celeste — já se preparava para levantar outra vez e foi impedida — foi só uma queda de pressão.

— O mau de urubu é achar que boi tá morto. Agora sossega o facho e espera. Ninguém aqui tem força pra te carregar escada a baixo, você é pequenininha, mas ainda é pesada.

Contrariada, ficou deitada. Respirou aliviada ao ouvir o clique da porta, mas logo trancou os pulmões outra vez, a cabeleira cacheada de Marineide aparecendo atrás do beliche.

— Minha branca, cê pode deixar a gente sozinha por uns minutinhos? Eu preciso muito falar com ela. A Celeste autorizou, antes que você bote as asinhas pra fora.

— Vê lá o que cê vai fazer com a bela adormecida, hein. Vai pegar mal pra nós ter um defunto aqui.

— Pode deixar que vou cuidar bem dela — sorriu, travessa. Rosiclair estava longe, não ouvindo nada — fecha a porta quando você sair, por favor.

Outra vez sozinhas, ela sentou-se no mesmo lugar que Adelaide estava, os cotovelos apoiados nos joelhos.

— Olha, Rosiclair, eu não sei o que aconteceu aqui, nem o motivo disso tudo, mas tá aqui seu caderninho — tirou o objeto do bolso e colocou ao lado da mulher. Ela não se mexeu.

— Você... você leu? — Estava tão perto que sentia o hálito quente bater em suas bochechas.

— Se foi isso que te fez passar mal, pode ficar tranquila. Eu não li, não sou enxerida como você.

— Nem com sua colega a beira da morte, cê perde a chance de me dar patada, poxa — ela falava tão lentamente e sem emoção que Marineide não gostou do aperto no peito que crescia a cada palavra.

— Sem drama, Rosiclair, cê não é disso.

— E eu sou de quê?

— De dizer coisas do tipo "se filho da puta voasse, o céu tava tampado".

A risada de Rosiclair foi como ambrósia para Marineide.

— E cê diria que eu seria um desses filhos da puta.

— Também não é pra tanto, vai. Você flutuaria alguns centímetros só.

Quando Rosiclair pensou em responder, Celeste entrou com o homem de jaleco.

— Você pode nos dar licença, Marineide?

— Claro — levantou, limpando a calça e as mãos — Doutor, cuida bem dela. Ela é importante pra todo mundo aqui... principalmente pra mim.


— Urubu quando tá mole, o debaixo caga o de cima, Rosiclair. Abre teu olho — foi tudo que Adelaide disse quando ela estava indo embora acompanhada de Marineide e Belinha, que fariam companhia para ela ao menos naquela noite. Ela não entendeu, mas acenou em concordância.


Cinco de julho de 1990

Quase inteiramente despida e com frio, tinha certeza que estava com a dignidade no inferno e o medo tomando seu lugar. Rosiclair quase morrera por ter caído no encanto de um tarado maníaco, numa tentativa de esquecer todos os pensamentos dos últimos meses.
Desde o episódio do desmaio que não mais tocara no assunto e providencialmente. Marineide também fingira cegueira, mas estavam mais próximas do que nunca, sempre saindo juntas em ocorrências, compartilhando plantões e dias de folga. Mesmo Zé Paulo tomou chá de sumiço, depois de chamar Marineide de Dinorá.

— Não me obriga a te dar uns pontapés, Zé Paulo. Me esquece!

— Qual é, Marineide? Vai se fazer de rogada agora? Você que ouviu errado!

Um tumulto começou na sala de Celeste assim que Marineide puxou Zé Paulo pelo braço e o trancou num mata-leão de modo assustadoramente rápida, os dois caindo no chão enroscados. Logo ele estava com o rosto avermelhado.

— Eu não vou ter problema nenhum em gastar meu réu primário com você. Para de me perseguir e me deixa em paz, agora eu tô falando sério.

— Tá bom! Tá bom! — Ofegou, sem tentar desfazer do abraço violento.

— Marineide, pensa melhor — Rosiclair colocou suas mãos nos braços dela, tentando convencer ela a afrouxar — ele não vale um réu primário, que inferno!

O apertou aumentou.

— Para, Marineide, vai matar ele! — desesperou ao ver que os lábios do homem estavam arroxeando. — Faz isso por mim então, por nós!

Sentiu por um instante os músculos dela resetarem e então soltaram o presunto no chão. Não recusou a ajuda de Rosiclair para levantar, que a segurava para que não tivesse uma recaída e o matasse como prometeu.

— Doutora Celeste pode muito bem cuidar dele e você precisa esfriar essa cabeça dura, vem comigo — levou-a para a cantina, com um sentimento tão bom por Marineide ter confiado nela ao menos uma vez. Rosiclair tomou uma nota mental de nunca provocar ela até o limite, que era muito curto.

Até os canalhas tinham amor ao próprio pescoço.

— Rosiclair, cê tá bem? Me responde, caramba! — sacudiu ela, um pouco mais bruta do que deveria.

— Eu... tô... para de me sacudir, não sou vitamina — sussurrou, olhando fixamente seu algoz e não sentindo nada, nem mesmo asco, enquanto era removido pelos reforços mandados pela regional.

— Suas roupas. — Marineide buscou as peças que estavam jogadas pelo quarto e estendeu para a amiga. Vendo que ela não se mexia, convenceu a ficar em pé e vestiu a saia como se ela fosse uma boneca. Envolveu o corpo pequeno em seu braços tanto para fechar o zíper traseiro quanto para confortar a amiga. Ela não recusou, devolvendo o gesto enquanto as lágrimas escondidas vieram com toda força.

Permaneceram naquela posição sabe-se lá quanto tempo, até que Belinha chamasse as duas para ir embora.

— Cê precisa ser forte, Rosiclair. Cê sabe o que acontece agora, não é? — Recebeu um aceno de cabeça, o coração apertado ao limpar o rosto dele, tal qual fizeram meses atrás. — Vou estar do seu lado o tempo todo, tá bom? — Recolocou o cinto dela, mas deixou suas mãos na cintura de Rosiclair, que arrepiou com o contato.

— Vamo, gente! — Belinha chamou outra vez e elas se afastaram. Tinham um criminoso para condenar.


Marineide a viu girar o caderno nas mãos, algo que ela só fazia quando não tinha mais ninguém por perto. Sua curiosidade em saber o que tinha ali era forte, mas respeitar a vontade de Rosiclair era maior. Estava condescendente com o sofrimento dela, que chorou todo o caminho de volta, o rosto escondido no colo de Marineide para que ninguém soubesse.

Ela fazia carinho em seu cabelo, desarrumando a franja recém cortada da amiga.

— Eu não quero ir pra casa. Tô com medo de ficar sozinha, Marineide — soluçava alto.

— A gente vai te levar pra delegacia, aí você não fica sozinha.

Tirou os fios do rosto dela, vendo súplica e agradecimento nela em meio a maquiagem borrada e assim ficaram até que ela cochilasse quando estavam passando por São Cristóvão. Tinham feito um longo caminho desde a Ilha do Governador e a Praça da Bandeira era longe, deixou ela descansar um pouco.

— Cê quer saber o que tem nesse caderno, não é? — Marineide assustou com a pergunta.

— Claro que não, tá doida?

— Marineide, cê mente mal, tão mal quanto cozinha.

Sem esperar uma resposta, abriu na última página escrita e leu lentamente o poema. Era longo e em cada verso Marineide via todos os momentos que passaram, a sós e entre as colegas, felizes ou desesperadores. Também surpreendeu-se com detalhes tão minúsculos que Rosiclair vira nela, em momentos que ela nunca se sentiu observada, como seus cachos caiam no rosto quando ela dava gargalhadas.

— Entendeu por que eu não queria que ninguém pegasse? Eu viraria chacota por sentir algo tão errado.

— Por que errado, Rosiclair? Uma coisa linda dessas, nem o Zé Paulo fez isso pra mim.

— E você realmente acha que algum homem faria isso? Viadagem pura — debochou — e não tinha só a questão do Zé Paulo.

Marineide calou-se. O que mais poderia impedir?

— Tinha a Rute Baiana também.

O sangue subiu direto pra cabeça, mas Marineide engoliu o ultraje.

— Rosiclair, o que tu acha que eu sentia pela Rute? Tá viajando já, ô mente podre.

— Pensa que eu não via isso na maneira como cê sorria pra ela, Marineide? Vai me dizer que nunca fizeram nada. Não sou surda, tá bom?

Não tinha como mentir, mas também não também tinha direito de brigar com ela por ter ouvidos tão bons.

— Foi só uma vez, ela tava tão triste por causa daquele traste do marido dela — o fio de voz que saia da boca dela era uma mistura de raiva por ter sido fraca e medo da amiga tivesse algum problema por causa do deslize dela. Rute não merecia ouvir um sermão longo e desnecessário de Celeste e sofrer com o preconceito das colegas de trabalho, que achava ser direcionado somente para ela.

— Sua sorte é que a Sueli e a Walderez tinham saído pra comprar comida, mas cê pode imaginar como eu fiquei ouvindo aquilo.

— Imagino... — O episódio da tal Dinorá provavelmente rendeu a mesma coisa para ela.

Rosiclair sorriu cansada.

— E cê lembra o que aconteceu depois? Cortou a mão tentando limpar os cacos de um copo, de tão nervosa que ficou.

— Não faz assim. — Impediu-a de cutucar as feridas com os dedos sujos. Estremeceu ao tocar nas mãos dela. Estavam fervendo, em contraste com o vento frio invadindo o lugar. Preparou-se para colocar os óculos de novo, mas foi impedida com um gesto brusco da moça morena, que puxou os braços, rompendo o contato.

— Não precisa. Eu sei me virar muito bem. — vacilou, incomodada com a gentileza incomum ao segurar sua palma. Nunca a viu demonstrar tanta prontidão para com ela.

— Deixar de ser durona um minuto não dói, Marineide. Mas futucar isso de qualquer jeito só vai fazer ficar infeccionado. — E puxou de novo, virando a mão pra cima de modo rude e se sentindo levemente satisfeita com o grunhido fugido dos lábios finos de Marineide. — Sorriu irônica enquanto examinava atentamente. — Fica aí que eu vou pegar a maletinha — apontou o indicador antes de apanhar o kit de primeiros socorros. Tirou os fragmentos que ficaram na mão e jogou o antisséptico por cima. Marineide resmungou quando ela apertou o curativo.

— Grossa demais.

— Nunca contei pra ninguém e é agora que cê fica chocada em saber que não sou aquela carniceira que vocês sempre acharam que eu sou.

— Mas é grossa pra caralho.

— Quase me cortei também quando fui limpar sua cagada.

Pigarreou, lembrando da cena.

— Cê vai sair com o Adilson? — Desconversou, sem graça por ser tão protegida por ela.

Justo Rosiclair, que tinha a metade do tamanho dela.

— Eu aceitei só por educação, mas arrependi logo em seguida e desmarquei.

— Por quê? — não tinha muita certeza se queria saber.

— Sabe aquela vez que eu tomei aquele xarope que a Adelaide deu pra gente? Cheguei em casa e apaguei a folga inteira. Aí tive um sonho...

— E qual sonho foi esse? — Ajeitou na cama para ouvir melhor.


Um sorriso involuntário tomou os lábios de Rosiclair, que arranhava-os superficial e carinhosamente, em um esforço imaginativo de que aquilo acontecera realmente. A vontade de sentir o calor do corpo dela tornava a dor quase palpável, porém, era apenas sua costela reclamando do movimento brusco feito quando se jogou na cama. E isso tirou-lhe do devaneio.

— Bruta... — Escapou-lhe, em voz alta, já se preparando para levantar e buscar um analgésico.

Acabou por dar um forte encontrão com o corpo de pé, jogando ela de volta no colchão e batendo a cabeça na divisória do beliche. Xingou todos os palavrões que conhecia e mais alguns.

— E ainda tem a cara de pau de me chamar de bruta. — Ainda vendo estrelas, por causa da pancada, estancou na mesma posição, meio em pé, meio sentada, ouvindo a risada de Marineide, sentada no chão. — Ô Rosiclair, tu viu passarinho verde, é?

— Não me enche, Marineide! — Chutou de leve os pés dela de leve e ao tentar levantar de novo, tudo ficou escuro.

— Opa! — Exclamou, ao agarrar o corpo antes que ele esbarrasse novamente contra a beliche.

A razão de Rosiclair fora parar lá no chão, juntamente com seus óculos. Sua cabeça, costelas e racionalidade gritavam em uníssono para que ela saísse logo dali, porém, o toque gélido afundava em sua pele, corria por seus nervos e embaralhava até mesmo a fala. Desfez o contato, respirando pesado, cuspindo palavras desconexas misturadas a sons incompreensíveis e contraditoriamente agradecendo pelas porradas levadas, que poderiam ser usadas como desculpas para seu comportamento estranho.

Foi até a escrivaninha, ao lado dos armários, caçando, desajeitada, a cartela de comprimidos.

— Tu não respondeu a minha pergunta... — o hálito quente roçou seu ouvido, de cima para baixo.

— E... E nem te devo satisfação do que eu penso — gaguejou de início, então engoliu a cápsula seca, para não ter expor mais nada. Tossiu de leve com o gosto amargo rasgando a garganta.

— Ah, me conta, vai! Adoro quanto tu conta tuas histórias, mesmo que pareçam mentira — o risinho fez com que Rosiclair respirasse profundamente uma, duas vezes. O ato, sem querer, fez com que o contato entre as duas aumentassem. Diferente de seus dedos, o resto emanava um calor tentador.

— Ô, Marineide — Fez questão de deixar seu timbre ainda mais rouco que o normal. — Tu não tem um meliante por aí pra encher de cacete não?

— Porra, bem que eu queria. — desfez o contato, apanhou a armação do chão e se sentou na ponta da cama, colocando-a ao seu lado e curvando o pescoço para não bater na madeira baixa. Cruzou as mãos em frente a boca, apoiando os braços nos joelhos. — Mas isso aqui tá uma merda, pô. Acontece porra nenhuma nessa roça quando cai o mundo. Não tem um rato pra sair da toca nessas horas. — Batia palmas abafadas para descarregar a ansiedade.

— E vem descontar em mim, porra?

— Rosiclair — olhou-a como se fosse a pessoa mais tapada do mundo — só tem nós duas aqui. Eu já te disse isso, caramba! O que tá acontecendo contigo hoje, hein? — Perguntou, verdadeiramente interessada no que ela tinha para contar e, algo lhe dizia bem no fundo, que tudo isso tinha a própria Marineide como culpada.

— Tô estressada! Muito estressada! Essa chuva de merda que não diminui, essa merda de plantão que não acaba, essa merda que eu sinto...

— Qual merda, pra ser mais exata?

— Já te disse que não é dá tua conta! — O tom de Rosiclair estava perigosamente enrouquecido.

Temerosa com o próprio desejo, segurou forte em seu colete e foi até a porta, há muito fechada.

— Espera, Rosiclair. — Marineide levantou, novamente roçando seus seios na coluna da amiga. Gentilmente girou o corpo dela para que ficassem face a face. Tinha uma feição aterrorizada e sabia que a opção de escapar não existia mais. — Não precisa fazer essa cara, porra. Não vou te morder nem nada.

Inspirou. Expirou. Sentindo sua pulsação acelerada se misturar com a dela, que estava tranquila.

"Ou você fala agora, ou irá fazer papel de idiota, se derretendo nos braços dela de tanto chorar. Não seja fraca!"

— Não tenho medo de você, Marineide Alvarenga.

Mais um riso irônico

— Ah, não?

Inspirar. Expirar.

Não tinha mais jeito.

— Eu tenho medo é de mim mesma e o que eu posso fazer se perder meu controle.

— O que te dá tanto medo, Rosiclair? De ser quem é? — Acariciou a bochecha dela e podia ver a vermelhidão de seu rosto, estando tão perto.

— Isso não é certo!

— E o que é certo pra ti, hein!? — Balançou-a pelos ombros. — Ficar sofrendo pelos cantos!? Rosiclair! — Enfim apiedou-se do calvário da amiga. — Se era eu que tu queria, era só falar — completou.

Ela não podia acreditar.

Tanto sofrimento, tanto autojulgamento por nada!

— Se sou eu que tu quer agora, é só falar.

Ela não precisou manifestar em palavras.

Puxou-a pelos vãos do cinto da calça, colando-as ainda mais na porta. Ficou na ponta dos pés e beijou-a de forma quase obscena e desesperada. Enfim seus sonhos viraram realidade. E o que era físico não se podia imaginar tão fácil.

— Viver é melhor que sonhar... — Marineide disse, entre os lábios, recitando Belchior.

Arrependimento.

Rosiclair recobrou a memória e então a empurrou com o resto de força que ainda tinha. O batom estava borrado, o corretivo derretera entre as lágrimas. Estava lastimável.

— A gente não pode, Marineide.

— E por que não?

— Por que eu tenho muito mais amor ao meu trabalho do que sinto tesão por tu. Simples assim!

— E tu não tem curiosidade em saber o que eu fiz com a Rute Baiana aquele dia, é? — Reaproximou-se, querendo mais da amiga. Deu-se conta que ela beijava muito bem e como nem mesmo Zé Paulo o fez antes.

— Não!

— Mentirosa! — Tomou-a em seus braços, prensando as costas dela na porta outra vez.

— Rosiclair Meireles, essa noite será longa e eu pretendo fazer tu aproveitar cada segundo dessa noite fodida.


— Depois disso eu acordei.

Um silêncio confortável se manteve ali, enquanto elas ouviam a vida da delegacia além da porta.

— Puritana até em sonho, Rosiclair? Tá de sacanagem — Marineide ria abertamente.

— Graças ao xarope eu tive que pensar muito se era sonho ou não, já que acordei com dores bem reais — calou-se por uns instantes — eu tenho meus princípios, sabe. Tive tempo pra me julgar e não acho que seja errado por ter acontecido naturalmente. Acho errado por ser você.

— Ué, por quê?

Rosiclair tocou o queixo dela, puxando para um selinho tímido, prontamente aceito.

— Porque você só tem iniciativa pra fazer coisa que não presta.

— Então cê acha isso, é?

Pulou em cima de Rosiclair, fazendo-a deitar no colchão murcho e Marineide por cima dela.

— Veremos quem não tem iniciativa aqui.

— Alguém pode entrar aqui — sem convicção de serem pegas, excitada por não estar sonhando.

— Não tem problema nenhum, eu tranquei a porta. Cê ainda acha que é só tesão?

Rosiclair nem titubeou.

— Marineide Alvarenga, eu te amo.