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Kiss and Freckles

Chapter 2: No.1 Party Anthem

Notes:

oiii gente!! quem é vivo sempre aparece, né? Trago pra vocês o segundo capítulo de kiss and freckles. Eu fiquei muito feliz com todos os comentários e pedidos para a história continuar, até teve uma pessoa que comentou sobre no twitter! muito obrigado por toda felicidade que vocês me proporcionaram. prometo que a história não é slow burn, eu só gosto de dar muito ênfase na construção de relacionamento dos personagens!! eu recomendo fortemente que nesse capítulo vocês escutem no.1 party anthem do arctic monkeys, debil metal do mamonas assassinas, e muitas músicas dos anos 80!! obrigado por clicarem nessa história, e até o capítulo 3 (que já está em produção)!!

Chapter Text

O corpo esguio se tremia tanto que parecia vara verde, e apesar do ar condicionado do local, Pomba estava suando, suando muito.

Kemi olhou para o garoto e se assustou com o quanto suas pupilas estavam dilatadas, o quanto tremia, e principalmente; o quanto parecia alucinado olhando para o ruivo.

Ela não deixou de rir baixo com aquilo. Então tocou levemente no ombro direito de Pomba, tentando chamar sua atenção.

— Cara, se tu continuar olhando assim pra ele, até eu vou achar assustador. – Kemi falou no ouvido dele.

Pomba piscou os olhos, parecendo voltar para a realidade, e a realidade era terrível. Olhou para Kemi aterrorizado, sua boca partida, como se quisesse dizer algo, mas não conseguisse.

— E-Eu... Kemi. – Sua respiração era entrecortada. — Ele é lindo.

Kemi riu mais alto e balançou com a cabeça em negação. Aquilo estava cômico demais.

— Meu pombinha, pelo visto não é só você que achou ele bonito, ele também pareceu bem interessado em você. Sugiro que você-

A fala fora cortada pela mão do moreno na boca da loira, o olhar dele era quase suplicante.

— Você não sugere nada! – Ele tremia mais e mais, parecia ser de pânico. — Ele é míope! Isso, ele é míope! — Pomba disse claramente mentindo para si mesmo, não aguentando pensar na possibilidade de que Franco estaria lhe encarando e achando ele bonito.

Poucos segundos depois, Jasper e Remi chegaram ao mesmo tempo atrás dos dois, Jasper atrás de Pomba, e Remi atrás de Kemi. Todos do grupo pareciam ter um senso de segurança a mais com os dois, já que eram os que mais se metiam em furadas — por culpa de Kemi, obviamente —, então os homens sempre se mantinham por perto.

Pomba olhou para trás, fingindo naturalidade e acenando para os dois de modo desajeitado. Olhou para frente de novo, e lá estava ele.

Ainda o encarava, dessa vez com as sobrancelhas um pouco franzidas. Pomba percebeu que o bridge piercing dele brilhava ainda mais, chamando a atenção do moreno direto para os olhos de chamas verdes. Era viciante, alucinante, e definitivamente sufocante, sustentar aquele olhar.

Não conseguia respirar direito, seu corpo parecia estar com o mesmo nível de adrenalina caso estivesse correndo de um urso. Era um absurdo! Sua cabeça repetia diversas vezes o nome "Franco" e guardava cada mínima informação sobre sua aparência magnética.

Viu o ruivo sorrir e sussurrar algo no ouvido do homem que cantava, que olhou-o esquisito, e logo após, parou de cantar e sussurrou no ouvido da loira ao seu lado, como um verdadeiro telefone sem fio. Pomba se perguntou o que ele havia dito, e como a voz dele deveria soar no pé do ouvido.

Se arrepiou.

Sua atenção fora cortada com a quebra abrupta da música. Ouviu a voz da loira que cantava anteriormente.

— Boa noite novamente, pessoal! – A voz era meio rouca, porém ainda continuava fina — Nosso guitarrista sugeriu uma música muito boa, e ele disse que apesar de ser dos anos noventa, ela ainda fará vocês tremerem. Vamo' nessa!

A loira acenou com a cabeça para Franco, que começou a tocar tão habilmente, e alguns segundos depois, Eloy e o ser loiro no teclado, o acompanharam na batida. Os dois vocalistas começaram a cantar, e Pomba entendeu que era "Debil Metal" do 'Mamonas Assassinas', aquela música era definitivamente, a cara deles.

Todos pareciam em sincronia, interligados com uma espécie de corrente vermelha, quase como se fosse sangue endurecido.

Mas definitivamente, era Franco quem se destacava, a música era praticamente apenas dele. Seu solo de guitarra começou simples, como se fosse apenas algo normal.

Mas então seus dedos começaram a se mover tão rapidamente nas cordas da guitarra azul escura, que ele começou a andar levemente para frente do palco, entre os dois cantores, e simplesmente ficou de frente para Pomba, que conseguia sentir as vibrações que as cordas faziam dentro do seu peito. Todo seu corpo parecia em frenesi, algo que jamais havia sentido

Aquele homem tinha algo. Alguma coisa que não sabia explicar. Uma aura cheia de fogo, pronto para queimar qualquer um que se aproximasse demais. Pomba queria ser transformado em carvão.

Sua necessidade de conhecer aquele homem só aumentava a cada segundo. Cada momento em que ele estava em sua frente, tocando aquela guitarra de olhos fechados, sorrindo grande, fazendo todo seu ser brilhar em chamas, fazia-o entender que não poderia ficar ali por nem um segundo à mais.

Se virou e encontrou Jasper lhe encarando com uma sobrancelha arqueada, seu olhar era questionador.

— Você tá bem? – Ele perguntou com um ar de preocupação — Tá passando mal?

— Tô, eu só preciso de um ar. – Pomba respondeu não querendo falar muito, com medo de sua voz falhar e denunciar seu verdadeiro estado.

Começou a andar e a passar pelas pessoas malucas pela sinergia do local, era quase sufocante. Franco havia feito Pomba esquecer o quanto aquilo não era muito seu tipo de festas. Não que tivesse ido em muitas.

Finalmente chegou no lado de fora. Sentiu a brisa bater em seu rosto, e então começou a se acalmar. A adrenalina finalmente passou a diminuir, e a tremedeira era tão intensa que teve que se encostar em uma parede, lentamente deslizar suas costas até sentar-se no chão — muito provavelmente sujo — e começar a tossir muito, muito mesmo.

Sua tosse não tinha um motivo físico propriamente dito, como uma doença. Sempre tossia quando estava em situações que considerava estimulantes demais, emocionalmente instáveis.

Pomba tossia sem parar, seus pulmões clamavam por ar de forma desesperadora, sentia sua garganta e peito queimarem. Seus olhos começaram a lacrimejar pelo esforço, seu tronco envergou pra frente e sua mão livre se apoiou no chão, com medo de que caísse de cara.

Nada passava na sua cabeça além de "Por quê?!", e vários pensamentos juntos, misturados demais para que Pomba conseguisse organizar.

Seu rosto vermelho e lágrimas caindo como rio, não ajudavam a conter a tosse excruciante. Mas então, sentiu braços fortes lhe puxando com tudo para cima, literalmente, levantando-o.

Seus olhos se abriram rapidamente, e pôde ver os olhos assustados de Jasper sobre os óculos. Ele parecia falar alguma coisa, mas sua tosse ecoava tão alta para si, e seus ouvidos pareciam tão abafados, que apenas o encarava esperando que ele entendesse.

O desespero de Jasper pareceu triplicar, então ele simplesmente se abaixou, pegou Pomba no estilo noiva, e começou a correr muito rápido para fora dali. Corria tanto que sua touca preta de sempre, caiu no chão. Seus cabelos brancos brilhavam tanto quanto a Lua cheia, tanto quanto as lágrimas de Pomba.

Eles pareceram chegar em uma espécie de sala de estudos, cheios de puffs, mesas, livros e cadeiras. Jasper delicadamente sentou Pomba em um dos puffs e retirou seus próprios óculos, parecia que ele queria enxergar algo através de Pomba.

Ele olhou para os lados e Pomba viu as veias na garganta clara do albino se dilatarem rapidamente, como se fizesse esforço. Jasper gritava.

Sua visão ficava cada vez mais turva, tão confusa quanto seus pensamentos tomados por fumaça.

Onde há fumaça, há fogo, e onde há fogo, sempre haverá Franco.

De repente, viu duas figuras, pareciam mais velhos que eles. Um homem barbudo, com heterocromia nos olhos e vestindo roupas sociais. Outro, loiro, tatuagens e com expressão de poucos amigos.

O barbudo tirou Jasper de cima do moreno, que ainda tossia tão forte quanto antes, talvez agora até um pouco mais roucamente. O loiro se aproximou e agarrou a mão livre, fazendo uma série de movimentos com os próprios dedos, em pontos específicos.

A massagem era boa, relaxante, quase sonífera. Aos poucos, as tosses sumiram, as lágrimas sumiram e a surdez também. Agora Pomba ouvia tudo, principalmente seu coração ainda batendo como desesperado, e um som de choro.

Olhou para a esquerda, Jasper estava agarrado ao homem barbudo, abraçado e completamente detonado, lágrimas pretas pela maquiagem tomavam conta de seu rosto.

Pomba sentiu um gosto metálico na boca. Não sabia dizer se era sangue ou desgosto de si mesmo.

— Oi. Você consegue me ouvir? – Sua atenção fora dividida para o loiro a sua frente.

— Sim. Desculpa – Pomba disse imediatamente, sua voz doía pra sair, e estava bem rouco.

O homem olhou para trás e concordou com a cabeça, logo os dois que estavam mais distantes se aproximaram e Jasper caiu de joelhos ao lado do moreno, olhando-o, analisando sua condição.

— Você tá bem? – Foi a única coisa que perguntou, em uma voz sussurrada.

Pomba sorriu culpado, se aproximou do rosto dele e limpou suas lágrimas pretas com os dedos macios. Continuou com uma das mãos na bochecha gelada do mais alto.

— Sim. Muito obrigado, Jaspie.

Ele apenas o olhou nos olhos por breves momentos, antes de olhar para cima, vendo os dois homens encarando-os, o barbudo com uma expressão preocupada, ele estava com o cotovelo apoiado no loiro.

— Pomba, esses são Dante e Arthur. Eles são os conselheiros do campus. – Jasper disse se levantando rapidamente, levemente corado.

— Não sei o que te deixou assim, mas sugiro que não faça novamente. – Dante disse, sua voz era bem mais calma do que Pomba imaginou.

— Me desculpem pelo incômodo, e muito obrigado pelos... cuidados. – Pomba disse sem olhar diretamente nos olhos deles, mas sim para suas próprias mãos cheias de lágrimas e saliva.

Limpou sua própria boca com um papel qualquer que estava em seu bolso da calça, e se levantou. Quando iria se despedir deles, a porta do local praticamente se arrombou, e ninguém faria isso com o patrimônio da universidade, sem ser Kemi.

Ela correu até Pomba e quase pulou em cima do garoto. Suas mãos gélidas seguraram no rosto dele de modo protetor, e logo depois de olhar por breves segundos, abraçou-o com um carinho especial.

— Por favor, não suma nunca mais desse jeito de novo... – A voz dela era tão apavorada quanto o olhar de Jasper, suas mãos tremiam e sentia os lábios grossos beijarem o topo de sua cabeça diversas vezes.

— A gente ficou te procurando um tempão, a sorte é que viram o maluco do Jasper correndo que nem um desesperado por aí. – Jae falou com certa indiferença na voz, como de costume.

Pomba olhou ao redor, estavam todos ali, todo mundo havia saído de uma noite de curtição por sua causa. Era culpa sua.

Ele sorriu meio forçado.

— Desculpa ter estragado a noite de vocês gente...

— Nada disso! – Kemi falou alto — A nossa noite não importa, eu quero saber o que fez você ficar assim.

Pomba pensou no questionamento. Olhou para a roupa de todos, e lembrou. Lembrou de Franco, lembrou da sensação de estar de frente para ele, de como queria conhecê-lo, conversar, e saber se seus dedos eram habilidosos apenas na guitarra.

Sorriu de leve. Abaixou a cabeça. Depois a levantou ainda sorrindo.

— Esse show foi... muito legal, legal até demais. – Ele disse e riu, mas sua risada fora cortada por um grito que ouviu, um bem parecido com os que a Kemi soltava.

— ISSO AÍ, CARALHO! – Era a voz de Eloy comemorando, com direito à um pulo onde os peitorais dele e do vocalista da banda se encontraram.

Ah não. Meu. DEUS.

— O que... eles estão fazendo aqui? – Pomba perguntou baixo para Kemi, que ainda estava meio agarrada a si.

— Ah, eles quiseram vir depois que eu falei pro Eloy que você tinha sumido – Ela pareceu lembrar de algo e sorriu — Um certo ruivo pareceu preocupado com seu sumiço, hein?

Pomba voltou a tossir.

Não tão forte, e nem por causa de descontrole, mas sim porque havia se engasgado com a própria saliva. Mas ninguém pareceu ter percebido isso, e todos voaram para cima de si querendo ajudar. Menos Jae que olhava de longe, Jasper que começou a chorar de novo, e Remi que tentava acalmar o albino.

— Gente, ele engasgou... – Dante tentou falar, mas Arthur apenas colocou a mão no ombro dele e negou com a cabeça.

Sentaram ele no puff de novo. Na sua frente estava Kemi dizendo para ele se acalmar, do seu lado direito estava Henri massageando seu braço inteiro, em uma clara tentativa falha de fazer o mesmo que Dante fazia, e do seu lado direito...

Não queria nem olhar, mas olhou. Ruivo, ainda parcialmente suado, olhos verdes de jade, piercings, tatuagens.

Se não morresse por causa do engasgo, morreria por causa daquele delícia.

Delícia? Quis dizer salsicha.

Pomba ainda estava se negando de que achava aquele garoto lindo demais para sua própria sanidade.

Se forçou a parar de engasgar, e finalmente puxou o ar com toda sua força, e quando soltou, deixou sua cabeça cair pra trás. Alívio era o que sentia.

Começou a rir.

— Vocês definitivamente precisam aprender algumas coisas com o Dante. – Pomba dizia rindo e limpando suas lágrimas, todos começaram a rir e a abraçá-lo, menos Franco, que voltou para seu grupo e ficou observando de longe.

Depois do montinho de pessoas abraçadas, Pomba se levantou novamente, dessa vez bem melhor, e sorriu.

— Muito obrigado de novo pela ajuda, Dante e Arthur. Prometo que voltarei em breve com um agradecimento apropriado.

— Não precisa disso tudo, garoto. – Arthur disse sorrindo. Desejou uma boa melhora para ele e se afastou com Dante, que lhe desejou o mesmo.

Virou de costas e seus olhos se conectaram quase instantaneamente com Franco, que conversava com o ser de cabelos longos e olhos gélidos, ele o olhava de canto de olho. Aquilo por algum motivo era extremamente atraente, assim como ele por inteiro.

Iria se enforcar com um mapa.

Fingiu não ter percebido nada e andou até seus amigos, Eloy estava entre eles, abraçado na cintura de Kemi.

— After na minha casa, o que acham? – Ele disse, olhando para todos. — Só a gente mesmo, acho que vai ajudar na situação do moleque. Estar entre amigos e esses caralhos.

Desbocado, porém sempre muito preocupado com o bem estar de seus amigos. Pomba não sabia exatamente se ele era seu amigo mesmo, mas decidiu não pensar muito naquilo por agora.

Finalmente chegou na rodinha, e ficou ao lado de Dalmo, que lhe abraçou torto e sorriu. Pomba sabia que ele era pai, e tinha a sensação de que era um ótimo apenas ao sentir o carinho que a mão grande depositava nos ombros dele.

Jasper o olhou igual um cachorro abandonado, decidiu ir para perto dele e segurar seu braço, sussurrando um "obrigado" seguido de um sorriso grande. Esse sorriso, fora estranhamente retribuido por um rubor nas bochechas quase roxo. Até o pescoço do albino se coloria da cor vibrante.

— Relaxa, eu só fiz o que você faria por mim. – Ele disse definitivamente mais calmo do que antes.

— Eu com certeza não iria conseguir te carregar – Os dois riram com a fala de Pomba e se abraçaram rapidamente, tendo Jasper também dando um beijo na cabeça do moreno.

O resto da banda se aproximou e a roda abriu ainda mais, abrigando os novos membros.

E novamente, Pomba se recusava a olhar pro lado.

— Você tá melhor, né? – Ouviu uma voz baixa rouca soar. Quente, nem tão grossa, mas o suficiente para fazer todos os pelos do seu corpo arrepiarem.

Olhou para o lado. Franco não olhava diretamente para si, mas sim para frente, onde Eloy falava alguma coisa com muitos palavrões e engraçada o suficiente para todos na roda prestarem atenção. Ninguém mais percebia a interação dos dois.

— A-Ah... sim, estou. Obrigado por perguntar. – Pomba respondeu, sua voz tremeu um pouco. Não conseguia olhar muito tempo para o perfil do ruivo, pois estava justamente do lado das tatuagens de nuvens e da pele enrugada dele. Era lindo demais.

Praguejou em sua cabeça o quão patético parecia. Suas mãos foram inconscientemente aos cabelos cacheados, tentando ajeitar fios que não conseguia enxergar. Franco olhou e riu baixo, finalmente encarando seus olhos de âmbar.

— Relaxa, gatinho. Eu fiquei preocupado assim como todo mundo. Eles parecem ter muito carinho por você. – Franco ainda falava baixo, a voz rouca soando perto do ouvido de Pomba fazia seu baixo ventre contrair. — Sabia que a Kemi quase partiu pra cima da Cindy quando ela disse que você deveria ter fugido da festa?

Ele apontou com o queixo para a citada, no caso, a loira vocalista da banda, que estava agarrada no vocalista. Eles definitivamente tinham um lance.

— É bem a cara dela, na verdade. – Pomba riu baixo, tendo o olhar do ruivo queimando sobre si, ato esse que fez as bochechas morenas corarem forte. — Qual é o seu nome mesmo? – Pomba fingiu não saber.

— É Franco. – Ele respondeu calmo.

Ouvir aquela voz rouca pronunciar o próprio nome era quase uma vulgaridade. Tão pecaminoso quanto o ato de olhar diretamente nos olhos dele. Iria desmaiar se continuasse.

— Vamos? Temos doze pessoas, uma picape e um carro de cinco lugares. Quem vai na caçamba da picape? – Henri disse alto, chamando a atenção de todos.

— Eu e pomba vamos. – Franco respondeu antes que qualquer um se pronunciasse. Assim que a frase foi dita, Pomba se apontou com o dedo indicador, como se disse "Eu sou o Pomba?!"

— Ah, tudo bem. – Hanri disse indiferente, como todo o resto pareceu estar ao andarem na direção da saída, menos Kemi, que olhou para Pomba com os olhos mais arregalados que pareciam querer sair para fora. Uma mensagem implícita;

"VOCÊS VÃO FICAR SOZINHOS. NÃO PULA DO CARRO EM MOVIMENTO. VAI FICAR TUDO BEM!"

Pomba conseguia até ouvir a voz da amiga em sua cabeça. Bizarro o quanto se entendiam.

A caminhada até os carros estava coberta de conversas e risadas altas, mas para Pomba, estava silenciosa e constrangedora, já que se recusava a abrir a boca e Franco não parecia estar a fim de falar também, apenas olhava o céu estrelado.

Pomba decidiu fazer o mesmo, seguindo o olhar do ruivo, e vendo que ele olhava para uma constelação bem conhecida por si.

— Aquário... – Pomba disse em voz alta sem perceber, olhando para o céu encantado. Os olhos castanhos claros brilhavam com as estrelas.

— Você sabe qual é a constelação só de olhar? – Franco perguntou, olhando para o garoto surpreso.

— Sim, e embaixo dela está saturno – Ele riu um pouco e apontou para uma bola brilhante no céu. — Essa época do ano ela fica mais baixa no céu, mas pelo visto já passou de meia noite, então ela está bem visível.

Pomba dizia com felicidade, sem olhar para o ruivo. Amava o universo, amava mapear as estrelas, assim como amava falar sobre.

— Fiz bem em te colocar na parte de trás comigo então. – A fala chamou a atenção do moreno, que olhou para ele. Franco sorria. — Vou adorar saber sobre quais constelações constroem o céu em cima das nossas cabeças hoje.

Pomba quase explodiu com a fala, mas não deu tempo de seu pavio acabar, já que chegaram no carro, e logo subiu na caçamba da picape de Dalmo.

O carro deu a partida, e rapidamente sentiu o corpo de Franco se aproximar do seu, eles estavam de costas pro parabrisa do carro, então se alguém do carro olhasse para trás, so veriam as costas dos dois.

O calor do corpo do tatuado conseguia suprimir o frio do vento. Os cabelos de pomba bagunçavam em uma dança bela, na qual Franco não deixou de reparar ao olhá-lo. Eles estavam quase na mesma posição, sentados com os joelhos na altura do peitoral e recostados neles. A diferença era que Franco colocou a cabeça deitada nos joelhos.

A música 'No.1 Party Anthem' da banda 'Arctic Monkeys' começou a tocar dentro do carro, e pelas janelas estarem abertas, os dois fora do carro conseguiam ouvir a melodia sem problemas. Era a melhor para o momento que se encontravam.

— Posso pedir novamente a minha aula sobre astronomia? – Ele falou um pouco mais alto por conta da altura dos motores e música, mas Pomba conseguia ouvir a voz rouca perfeitamente.

Engoliu em seco. Tinha que fingir naturalidade.

Olhou para o céu tentando pensar em qual constelação ou conjunto estelar iria citar primeiro. Eram tantas possibilidades. Seus olhos amendoados vagavam pelo céu vasto, sentindo o prazer da liberdade bater no rosto como um carinho gentil. Sorriu.

Sempre se perguntou quando sua autonomia chegaria, quando deixaria de ser apenas um pássaro preso em uma gaiola. Sabia que sua tão sonhada resposta estava ali, naquele céu vasto, no garoto ruivo de olhos verdes e na sensação de liberdade que ele exalava. Era isso que fazia Pomba se fixar, quase alucinar, quando se tratava de Franco.

Ele é a liberdade.

Seu sorriso poderia ser visto por qualquer um, e o tatuado se perguntava no que aquele moreno pensava, e se ele sorria por sua causa.

— Aquela lá em cima, é a constelação da águia. – Pomba disse de repente, apontando para o centro do céu estrelado.

Mal sabia ele, que Franco iria literalmente se aproximar o suficiente dele até que seus ombros tocassem. Sua espinha gelou.

— Não tô enxergando direito... – Franco disse rouco e sussurrado, tão próximo do ouvido de Pomba, que ele sentiu todo seu ser queimar em chamas, seu interior quente como brasa.

— A-Ali... – Apontou de novo, como se pudesse atrair as estrelas mais para perto. Queria que isso acontecesse, assim aquela situação acabaria e não faria nenhuma besteira contra sua integridade.

Franco fez um estalo com a boca, desapontado. Então se aproximou mais, colocando sua mão direita atrás do corpo de Pomba, e aproximou mais seu tronco do braço do moreno.

Iria morrer, era isso. Ia pedir para subir, cantar pra descer, pegar seu banquinho e sair de fininho, picar a mula ou qualquer outra gíria. Mas o fato era; estava tão corado que as bochechas estavam quentes, suas mãos tremiam tanto que mal conseguia apontar no local certo, respirava tão debilmente que teve que respirar muito fundo.

Novamente, o olhar de Franco seguia cada movimento seu, parecendo querer engolir cada um deles. Ele parecia se divertir com seu nervosismo, o sorriso de lado, totalmente diabólico não deixava mentir.

Para completar a desgraça, a mão que estava atrás do corpo lentamente se encaixaram no quadril do Pomba, que arrepiou da cabeça aos pés. Sua mente não funcionava mais como deveria.

— Você tem que tomar cuidado por estar tão na ponta da caçamba, se a gente passar por um buraco grande, você pode cair.

Era quente demais, sedutor demais. Não tinha cabimento para um ser humano daqueles existir, e estar segurando seu quadril com tanta firmeza. A voz era música para seus ouvidos, as cordas vocais pareciam combinar com as cordas da guitarra, roucas, hipnotizantes, eletrizantes.

Era um curto circuito completo.

Tal curto circuito que chegara a Pomba como uma explosão. Olhou nos olhos de Jade, que lhe encaravam tão... parecidos? Quer dizer, pareciam com o jeito que ele olhava para Franco.

Não era possível. Ou era?

"Você sempre foi alguém do impossível, Pomba."

A voz daquele senhor de idade tomou conta da sua cabeça quase como um mantra, calando a boca de todos os seus pensamentos intrusivos com uma só frase.

Pomba engoliu em seco, piscou mais vezes do que deveria — se martirizou por isso mentalmente —, mas sustentou o olhar.

O sorriso de Franco cresceu consideravelmente, aproximou-se mais do rosto do moreno. Mais. Mais perto.

Quando Pomba achou que iria acontecer o impossível, apenas sentiu a lufada da risada de Franco, e a voz sussurrando diretamente no seu ouvido, causando calafrios por todo seu corpo de forma instantânea;

— Pelo menos agora você consegue me olhar nos olhos direitos. Que bom que essa viagem valeu a pena, gatinho. Vamos ver se esse after também vai? – Ele perguntou, calmo. — Só basta você querer.

E então, o carro parou, na frente de uma casa. Sem mais nem menos, Franco desceu da caçamba como se nada tivesse acontecido e saiu andando para dentro do local.

Kemi saiu do carro e encontrou Pomba atônito. Vermelho até os ossos, tremendo, e sorrindo igual um idiota. Ele a olhou com os olhos levemente arregalados, falando de modo engraçado;

— Kemi, eu acho que o Franco quer me comer.