Work Text:
I.
Will nasceu no inverno e Merlin nasceu na primavera. Quanto mais velho Will crescia, mais isso fazia sentido para ele. Ele era frio e duro, amargo e seco - incapaz de se abrir sem uma rachadura se formando em algum lugar. Merlin era gentil e calmo, ele era o ar quente na sua pele depois de um calafrio, uma mão gentil na sua nuca. Merlin pode fazer você se sentir a pessoa mais maravilhosa do mundo, mesmo quando você não pensa que é alguém que vale a pena ser qualquer coisa. Ele energizava a todos com quem falava. Ele era - bem, simplesmente, Will pensava que Merlin era tudo.
Suas mães eram boas amigas - ambas muito jovens e passavam a maior parte do tempo sozinhas, fazendo seus trabalhos, então elas se apoiavam uma na outra. Hunith nunca teve ninguém, nenhum marido, nada, e o próprio pai do Will estava fora servindo o Reino na maior parte do tempo.
Hunith gostava de contar a história de quando ela estava dando à luz a Merlin, e como ela estava sozinha - a pressuposto era que o pai de Merlin, quem quer que fosse, já tinha partido - e era a mãe de Will, cujo próprio bebê que tinha apenas alguns meses, que veio e ajudou no parto. Desde aquele momento, os quatro eram uma equipe. Duas mulheres com seus filhos pequenos assumindo maternidade juntas.
Will se lembra de invernos brutais crescendo onde os quatro dormiam todos juntos em uma cama para se aquecer, ele se lembra de suas mães cozinhando juntas e compartilhando comida. Ele se lembra de suas mães trabalhando juntas enquanto Will e Merlin brincavam. As roupas de Will foram passadas para Merlin quando ele cabia no que vestia. Eles compartilharam tudo naqueles anos juvenis. Eles eram uma equipe; uma máquina bem oleada, eles confiavam uns nos outros.
Ele não se lembra de uma época em que não conhecesse Merlin. Desde que ele conseguia se lembrar, e antes disso, havia ele e Merlin. Eles passaram quase todos os momentos acordados juntos por anos. Will pensou que eles governavam Ealdor como reis. Todo mundo os amavam - ou, talvez, eles amavam Merlin.
Merlin estava sempre lá, em cada esquina, em cada momento da vida de Will, Merlin estava lá. Sempre ali onde Will precisava dele.
(Claro, Will nunca admitiu isso para Merlin - ele não precisava. Era apenas uma verdade reconhecível que Will precisava de Merlin e, ele esperava, Merlin precisava dele também.)
Ele não vê Merlin há meses. Foi o período mais longo que eles passaram separados, e Will sentiu a dor de viver sem Merlin em quase todos os aspectos de sua vida. Ele ficou quieto, fez seu trabalho e foi para a cama. Ele não se sentia mais a criança que era antes, brincando com Merlin nos campos de Ealdor.
No entanto, quando ele vê Merlin novamente, ele não consegue parar de contar uma piada, zombando de Merlin como ele sempre fazia. Merlin traz o melhor - e, alguns diriam, o pior - dele.
—Pensei ter dito a você que não queria sua gentalha por aqui.
E Merlin sorri, aquele sorriso que Will nunca admitiria que sentiu falta. Isso o fazia querer puxar Merlin para perto, de volta para a clareira da floresta, onde eles sempre iam e apenas conversavam por horas e horas.
—Eu também senti sua falta, Will.
Will tinha seis anos quando descobriu que Merlin era cheio de magia.
Ealdor, sendo uma pequena aldeia nos arredores do reino, não era muito alfabetizado. Exceto - misteriosamente - Hunith. Ela sabia ler e escrever, e muitas vezes era responsável pela transmissão de mensagens escritas de uma pessoa para outra.
Olhando para trás, Will percebeu que Merlin deve ter sido ensinado por Hunith - definitivamente não havia mais ninguém na vila que pudesse, mas Will não sabia disso. Ele pensava que ler era algo que as pessoas sabiam ou não, e ele percebeu que era uma pessoa que não sabia disso.
Um dia, quando suas mães estavam trabalhando no campo, Merlin e Will foram deixados sozinhos correndo pela aldeia, causando o caos, como deveriam fazer. Depois de terem levado esporros do Velho Simmons por fazerem barulho, eles voltaram para a casa de Merlin, inseguros - e com um pouco de medo - do que fazer com eles.
— Poderíamos ler uma história! — Merlin gritou, correndo até uma cesta no canto da casa de Hunith, tirando uma pilha de papéis e abrindo-o.
Will se aproximou e olhou por cima do ombro de Merlin. Os rabiscos e rabiscos na página faziam muito pouco sentido para ele, mas depois de alguns minutos, Merlin colocou o papel no chão ao lado dele e estava espiando a próxima página em suas mãos.
— Você sabe o que isso diz? — Will perguntou.
— Sim — Merlin sorriu — Você não sabe ler?
Will balançou a cabeça, sentindo-se um pouco envergonhado.
— Minha mãe escreveu algumas das minhas histórias favoritas que ela me conta à noite — disse Merlin — para que eu possa ler elas quando ela estiver trabalhando, se quiser.
— Como você aprendeu a ler? — Will perguntou.
— Mamãe me ensinou! — Merlin engasgou — Eu poderia te ensinar!
Will sorriu pois parecia a coisa mais incrível. Foi isso que os dois fizeram naquele dia, Merlin tentou ensinar algumas palavras a Will - ele até o ensinou a escrever seu próprio nome, W-I-L-L-I-A-M e M-E-R-L-I-N.
— Você pode praticar escrevendo cartas pra mim! — Merlin explicou: — E eu posso escrever cartas pra que você possa ler elas.
Funcionou por um tempo, mas Will lutou com todas as palavras diferentes e as formas que as palavras faziam, como cada forma tinha um som correspondente, e depois de um tempo, ele estava tão frustrado que disse a Merlin que não queria fazer mais isso. Não era mais divertido para ele.
Enquanto crescia, Will ficava constantemente pasmo com Merlin: a facilidade com que as coisas vinham para ele, o quão feliz ele era - o tamanho de suas orelhas. Ele achava que Merlin devia ser mágico porque ler palavras e colocá-las no papel era tão natural para ele que só podia ser obra de magia.
Era fácil para ele pensar em Merlin como mágico quando eles eram pequenos porque, de todas as maneiras possíveis, Merlin era. Merlin não chorou e lamentou enquanto crescia porque seu pai não estava por perto, Merlin sabia ler, ele sabia como soletrar seu nome e sempre teve as melhores idéias de como eles passariam o tempo.
— Eu poderia ler uma história pra você, Will.
— Por que não pegamos sapos perto do riacho?
— Podemos fazer dragões de brinquedo com cascas de milho!
Todas as melhores memórias de infância de Will envolvem Merlin de alguma forma. Sua infância foi tranquila e mágica porque Merlin estava lá com ele. Ele sempre se lembraria da tarde em que aprendeu a soletrar M-E-R-L-I-N, e nunca se esqueceria do garotinho de orelhas grandes que sempre estava ao seu lado.
II.
Sua mãe morreu quando ele tinha 12 anos. Foi uma doença repugnante que percorreu toda a aldeia, tanto Will quanto sua mãe ficaram doentes, mas Will de alguma forma conseguiu superar isso. Sua mãe, não. Ela, junto com outras dez pessoas da aldeia, morreu naquele inverno. Eles tiveram que esperar o degelo do solo antes de enterrá-los.
Seu pai ficou arrasado e, quando chegou em casa, a única coisa que fez foi beber. Ele ficou até que sua mãe estivesse enterrada, e então disse a Will que ele tinha que voltar para lutar pelo Reino.
— É meu dever, William — disse ele — e um dia será seu.
Will não gostou muito do som disso, mas não sabia como dizer. Ele se despediu do pai e olhou ao redor da casa que sua mãe trabalhou tanto para construir por conta própria, e se perguntou o que aconteceria com tudo isso. Ele não conseguia imaginar a ideia de que deveria ficar lá sozinho.
Ele percebeu que não era órfão, mas seu pai não estava por perto. Ele não podia simplesmente parar de servir a um rei. O pagamento era suficiente para ele pagar a vida de sua família em Ealdor. A cada três ou quatro semanas, seu pai voltava para casa, ou um mensageiro do Reino chegava e entregava alguns fundos para a mãe de Will. Agora, ele supôs, aquelas moedas teriam que vir para ele.
Ele teria que cozinhar sozinho? Limpar por si mesmo? Quem iria cantar para ele uma música à noite, quem iria colocá-lo na cama e desejar um bom dia quando ele acordasse? Ele e sua mãe não tinham muito em sua pequena cabana de um cômodo, mas era sua casa. Agora parecia muito grande, muito vazio.
Ele pensou no enterro. Merlin e Hunith ficaram ao lado dele e de seu pai. Hunith o abraçou com força, Merlin parado em silêncio atrás dela. A aldeia inteira estava de luto há semanas.
Depois que foi feito e as pessoas começaram a sair, Hunith se afastou com o pai de Will. Ele e Merlin foram deixados na frente do buraco no chão e da cruz de madeira sob a qual a mãe de Will estava deitada.
— Sinto muito — sussurrou Merlin.
—Você não matou ela.
Merlin se mexeu ao lado dele
— Mas...eu não sei mais o que dizer?
Will deu de ombros — Não se preocupe com isso, Merlin.
— Eu sinto falta dela…
— Merlin-
— Ela era como uma mãe para mim, sabe?
A raiva cresceu em Will, afiada como uma faca, até explodir para fora dele: — Bem, você ainda tem uma dessas, certo?
Merlin recuou — Eu não quis dizer ...
Will estava muito zangado para terminar a conversa, então ele se virou e saiu correndo, passando totalmente por seu pai e Hunith conversando e indo para a floresta onde ele sabia que poderia encontrar algumas árvores caídas para se esconder. Ele ficou lá até ouvir seu pai gritando por ele para voltar para casa. Seu pai serviu-lhe um pouco de sopa (que, pelo gosto, era comida de Hunith) e então ele fez as malas e saiu.
Will queria ir encontrar Merlin, mas ele ainda queria ficar bravo com o que Merlin havia dito. Uma pequena parte dele sabia que Merlin não queria nada mal - ele provavelmente estava apenas tentando fazer Will se sentir melhor. Merlin estava sempre tentando fazer Will se sentir melhor, e Will provavelmente o fez se sentir ainda pior agora. Mas Will podia se lembrar de que pelo menos Merlin estava em casa com sua mãe, e qualquer sentimento de reconciliação com que ele havia brincado foi embora imediatamente.
Ele durou três dias ignorando Merlin após o enterro de sua mãe. Aqueles três dias foram muito difíceis para ele porque Hunith trazia quase todas as refeições, e Merlin se escondia atrás dela (como sempre fazia) e Will seria forçado a não fazer contato visual com Merlin.
Depois do terceiro dia, Will murmurou um agradecimento a Hunith, que estava arrumando os pratos para levar para o riacho. Ela o beijou na testa (como sempre fazia) e quando ela estava caminhando em direção à porta, Will tomou a estúpida decisão de olhar Merlin nos olhos.
— Tchau, Will — disse Merlin, acenando para ele.
E Will, cansado e solitário, com doze anos e meio órfão, deu-lhe um pequeno aceno de volta. E Merlin, que sempre o conheceu melhor que todos, se iluminou porque sabia que essa era a maneira de Will dizer que sua discussão fora esquecida.
No dia seguinte, quando Merlin apareceu com o café da manhã sem Hunith junto, eles continuaram como sempre faziam. Os dois raramente brigavam, eles odiavam não se falar. Então, seu argumento foi esquecido. Mas eles nunca mais falaram sobre a mãe de Will.
No momento em que Will viu Arthur Pendragon, ele soube que o odiava.
Era realmente simples. Um homem que ele nunca conheceu invade sua aldeia com seu melhor amigo a reboque - um amigo que ele não via há meses e tudo porque sua mãe o mandou embora para "encontrar a si mesmo" ou algo do tipo. Sem mencionar que seu melhor amigo agora está servindo este príncipe estúpido, e esperava que Will siga tudo o que ele diz?
O que torna Arthur Pendragon mais capaz de lidar com os homens de Kanen do que Will e o resto de Ealdor? O que o torna tão especial que Merlin obedece a todos os seus comandos? Ele se lembra de quando Merlin teria torcido o nariz para alguém como Arthur Pendragon, e agora ele está vendo Merlin se afastar dele, segundos depois de Will tê-lo tido de volta, e ficar atrás dele, as mãos cruzadas suavemente à sua frente, olhando para ele com olhos ansiosos.
Na verdade, o que tornava Arthur Pendragon tão especial aos olhos de Merlin?
III.
Will tinha quatorze anos quando entrou em um dos celeiros para pegar comida para as vacas e viu um dos lavradores e uma garota da aldeia se beijando contra uma pilha de feno. Ele arquejou, eles felizmente não o notaram, e ele se moveu para se esconder atrás de um fardo de feno e os observou por um momento.
Ele ficou fascinado com a forma como as mãos do menino envolveram a cintura da menina, puxando-a. Elas foram empurradas juntas, e os braços da menina estavam em volta do pescoço do menino e suas bocas foram seladas.
Will estava boquiaberto, a boca quase no chão porque nunca havia ocorrido a ele que isso era algo que as pessoas faziam. Sua mãe costumava beijá-lo na bochecha, na testa, Hunith beijava-o na bochecha, mas a ideia de alguém pressionando a boca na de outra pessoa assim - uau. A ideia o deixou envergonhado.
Uma vez ele pensou em fazer isso com alguém ele não conseguia parar, e ele sentiu seu rosto ficar quente e vermelho. Assistiu as mãos do garoto de fazenda percorrerem os quadris da garota e se estenderem em direção a... a bunda - que diabos?
Rapidamente ocorreu-lhe que este era um momento que ele não deveria estar assistindo como se fosse algo muito privado, e ele imediatamente saiu correndo do celeiro o mais rápido que pôde.
Eu tenho que achar Merlin, foi seu primeiro pensamento, correndo o mais rápido que seus pés podiam levá-lo até a casa de Merlin e Hunith. Já era tarde, o sol estava começando a se pôr, mas Will conseguiu convencer Merlin a ir com ele, para preocupação de Hunith
— William, é melhor você não mantê-lo fora muito tarde, ouviu ?!
Eles foram para uma clareira na floresta, e Will contou a Merlin o show, o queixo de Merlin caiu. Se beijando! Ele sabia que as pessoas deviam fazer isso, mas raramente tinha pensado nisso ou sido apresentado a ele diretamente.
— Você - você já beijou alguém? — Will perguntou.
Merlin bufou: — Quem eu beijaria aqui? — A pergunta era justa - não havia muitas outras crianças da mesma idade em Ealdor. Muitas famílias se mudaram para vilas maiores ao redor do Reino. Não havia garotas da idade deles. Ou… ou mesmo meninos. Se isso era permitido?
Beijar um menino era permitido? Será que Will poderia… Will beijaria alguém como Merlin?
Envergonhado, Will voltou seu olhar para o rio que passava na frente deles. A noite estava tranquila, a clareira ao redor deles escurecendo e a lua começando a aparecer brilhante no céu.
— Como você acha que seria? Beijar alguém, quero dizer — Merlin perguntou.
Will se virou e olhou para ele. Merlin também estava olhando para a água, a luz refletindo e brilhando em seu rosto. Will franziu o nariz e tentou se lembrar se alguma vez viu seu pai beijar sua mãe. Talvez um beijinho rápido quando seu pai estivesse indo embora, mas isso é tudo. O beijo que ele viu foi diferente - era longo, eles nem pareciam estar respirando.
— Não sei — respondeu Will.
Merlin se espreguiçou e se deitou na grama, os braços cruzados e descansando atrás da cabeça. Ele estava olhando para o céu. Merlin fazia um monte de coisas assim - desviar o olhar ao horizonte, como se estivesse longe. Will gostava de vê-lo assim, ele sempre se perguntou o que Merlin estava pensando quando ele desviava o olhar.
— Acho que pode ser bom — sussurrou Will — Tem que ser bom se as pessoas fazem isso, né?
— Minha mãe não faz isso — disse Merlin.
— Bem… talvez ela tenha feito uma vez. Talvez com seu pai.
Merlin ficou desconfortável e Will imediatamente se sentiu mal. Ele sabia que não devia mencionar o pai de Merlin.
— Não sei quem é meu pai — Merlin sussurrou — Eu também não quero realmente pensar em mamãe beijando.
Will riu pois esse era um ponto justo.
Ele mesmo se moveu e se acomodou na grama, a cabeça virada e observando Merlin quando ele disse: — Acho que beijar deve ser entre você e alguém que você gosta.
Merlin parecia estar pensando nisso por um segundo. Will observou como a luz brilhou em seu rosto e sua respiração ficou presa no fundo da garganta por um momento antes que ele tivesse que desviar o olhar.
— Eu me importo com você — sussurrou Merlin.
A aperto cresceu no peito de Will. Ele ouviu Merlin se mover ao lado dele e, quando olhou, Merlin estava sentado de novo, olhando para a água.
— Como você pode saber se é bom nisso?
Will sentou-se, engolindo o nó que se formou em sua garganta, — Prática?
— Nós devíamos estar praticando? — A pergunta de Merlin era tão inocente que Will quase teve vontade de rir.
— Com quem?
Merlin suspirou, suas mãos se moviam e brincavam com os fios de grama ao redor deles.
O silêncio os envolveu. Will pensou que a conversa provavelmente terminaria - Hunith iria querer Merlin em casa logo, ela nunca gostou dele à noite. Mas Will pensou em praticar, sua mente vagando novamente em como seria beijar alguém. Pareceu-lhe natural pensar em Merlin novamente, eles eram os únicos da mesma idade na aldeia. Você provavelmente deveria beijar alguém da sua idade, certo?
— Nós poderíamos praticar— Will murmurou.
Will pôde sentir o movimento do ar quando Merlin virou a cabeça em sua direção — O que você quer dizer?
— Bem, se você está tão preocupado em ser bom nisso e não há ninguém aqui com quem praticar, poderíamos - quero dizer - se você quiser.
Will realmente esperava que ele soasse mais confiante do que se sentia. Ele tinha certeza de que Merlin não concordaria. Ele provavelmente iria rir e empurrar o ombro de Will e dizer que ele estava sendo um idiota e eles iriam para a cama.
— Ok — disse Merlin.
Will sentiu que ia vomitar. Mas isso provavelmente não era uma boa coisa a fazer antes de beijar alguém. Então ele acenou com a cabeça — Ok — ele sussurrou.
Eles se moveram desajeitadamente, então ficaram sentados um em frente ao outro, Merlin com as pernas cruzadas e Will se movendo para sentar em suas canelas, os pés aninhados embaixo dele. Por um momento ele ficou feliz por eles estarem fazendo isso na escuridão, porque seu rosto parecia que estava pegando fogo, e sabendo da tendência de Merlin de se transformar em um tomate, ele provavelmente não estava muito melhor.
Merlin riu assim que eles se acomodaram, e isso aqueceu uma parte de Will por um breve momento. Então, ele se inclinou para frente e colocou sua boca na de Merlin.
Seu primeiro pensamento foi, lábios são estranhos. A boca de Merlin estava seca e um pouco rachada contra a sua, mas era ... bom. Algo quente se formou no estômago de Will, como o nervosismo que ele tinha antes estava derretendo em algo agradável e familiar.
O beijo realmente durou apenas um breve momento, e então Will sentiu Merlin se afastar, ele levou um momento para abrir os olhos. Quando o fez, viu Merlin apenas ... olhando para ele.
— O...o que você achou?
Merlin não disse nada, e Will pensou que estava tudo acabado, mas antes que pudesse se afastar completamente, Merlin estava se inclinando para frente novamente e pressionando outro beijo na boca de Will.
O último beijo foi bom, foi agradável, talvez Will entendeu o que era beijar agora e provavelmente teria sido o suficiente para satisfazer sua curiosidade. Mas a maneira como Merlin o beijava agora era diferente, era mais profundo, fazia a sensação de calor no estômago de Will ferver e revirar.
Ele levou uma mão hesitante à nuca de Merlin e puxou-o para perto. Ambos pararam para respirar, e então continuou. Will podia ouvir o som de seus lábios se encontrando e se separando, e Will finalmente pensou, é, eu entendo o que é beijar agora.
Finalmente, eles se afastaram, ambos respirando pesadamente. Will podia sentir seus lábios formigando e os de Merlin pareciam mais cheios, mais vermelhos e corados. O pensamento de que Will fez isso com ele fez mais coisas esquisitas com seu estômago.
— Ok — disse Merlin.
Will acenou com a cabeça — É.
— Beijar é ... ok. —É.
— Eu tenho que… — Merlin desviou o olhar, parecendo em pânico — mamãe vai me querer de volta em casa, então eu deveria-
— Sim — disse Will.
Merlin saiu com pressa. E Will - nenhum pai por perto, nenhuma mãe viva - sentou-se à beira do rio e observou a lua por um longo tempo.
Os beijos continuaram. Eles passariam o dia juntos, como de costume, e depois iriam para a clareira da floresta à noite, e geralmente acabavam se beijando por horas.
— É apenas que… é bom com você — Merlin diria —Não é?
E Will acenava com a cabeça, quase sem palavras, porque sim, era bom.
— Não está machucando ninguém — Will diria — É apenas entre nós. Algo - algo especial entre nós.
E eles se beijariam tanto quanto seus lábios pudessem suportar até que estivessem ardendo e vermelhos e doloridos para continuar; ou até que pudessem ouvir Hunith chamando por Merlin na aldeia.
— Eu tenho que ir — Merlin ria.
— Não — Will murmurou, sua boca se arrastando ao longo da mandíbula de Merlin. Ele estava meio deitado em cima de Merlin, seus peitos pressionados um contra o outro, e ele podia sentir o batimento cardíaco de Merlin através de suas camisas.
— Mamãe está me chamando — Merlin arfou, enquanto Will pressionava sua língua sob a mandíbula de Merlin, — Você - você não quer que ela nos encontre-
— Assim? — Will perguntou, enrolando sua língua atrás da orelha de Merlin.
— Sim! — Merlin arfou de novo, então empurrou Will
— Eu tenho que ir — ele lamentou.
Will rolou de costas — Ok.
Merlin se sentou, Will observou enquanto ele limpava o pescoço e a boca, sabendo que estava tentando ser o mais discreto possível quando voltou para Hunith. Ele olhou para Will e sorriu, inclinou-se e deu um beijo final e rápido nos lábios de Will.
— Tchau — ele disse, e se levantou para sair.
Seria algo assim.
Will ouviu Merlin chamá-lo, mas ele não parou. Ele não podia ficar ali e ver toda a sua vila desejar se tornar um mártir e morrer, e ele precisava se afastar de Merlin, estando tão obedientemente ao lado de seu Príncipe. Ele tinha uma casa para limpar, que mais uma vez fora saqueada em busca de comida ou ouro.
Merlin o seguiu. Porque, claro, Merlin iria segui-lo quando Will não quiria realmente falar com ele.
— Ele sabe o que está fazendo e você tem que confiar nele — disse Merlin, parado miseravelmente em sua porta. Will mal conseguiu conter o rolar dos olhos — Olha, quando conheci Arthur, eu era exatamente como você, eu odiava ele, pensei que ele era pomposo e arrogante.
— Bem, nada mudou aí então — Will rebateu, sem nem mesmo se virar para olhar para Merlin. Ele não conseguia olhar para Merlin agora. Ele se voltou para a armadura de seu pai que exibia desde que lhe foi devolvida. Ela havia sido derrubada.
— Mas com o tempo — Merlin continuou — passei a respeitá-lo pelo que ele representa, pelo que ele faz.
— Eu sei o que ele representa. Príncipes, reis, todos os homens como ele.
—Will, não traga o que aconteceu com seu pai para isso.
— Eu não estou — Will se virou — Por que você o está defendendo tanto? Você é apenas seu servo.
— Ele também é meu amigo.
— Amigos não mandam uns nos outros.
— Ele não é assim.
— Mesmo? — Will achou isso ridículo — Bem, vamos ver até que a luta comece e ver quem ele envia para morrer primeiro. Eu garanto que não será ele.
— Eu confio em Arthur com minha vida.
Will queria gritar - Você mal o conhece! Merlin conheceu o cara meses atrás, quando ele saiu. Ele é servo dele e provavelmente faz sua cama, limpa suas roupas, traz comida para ele, e Merlin morreria por ele em um momento?
— É assim mesmo? — Will soltou um suspiro: — Então ele sabe o seu segredo?
O olhar de Merlin não se moveu de Will. Mas a resposta foi clara.
— Encare isso, Merlin, você está vivendo uma mentira, assim como estava aqui. Você é o servo de Arthur, nada mais. Do contrário, você diria a verdade a ele.
Eles nem sempre se beijavam. Na verdade, durante o dia, o relacionamento deles não mudou em nada. Eles trabalharam juntos, eles ainda jantavam juntos na maioria dos dias - com Hunith também. A conexão recém-descoberta continuou sendo uma atividade noturna.
Isso não impediu Will de olhar para Merlin. O dia todo, todos os dias, observando cada movimento seu e a maneira como ele ria. A maneira como suas orelhas ficavam rosadas quando ficavam expostos ao sol o dia todo, ou observando o comprimento do antebraço, as mãos, até a ponta dos dedos, quando ele arregaçava as mangas para trabalhar.
Will pensaria em beijar Merlin à luz do dia, em puxá-lo de lado quando eles estivessem fazendo o trabalho na plantação e em colocar a mão em sua bochecha e beijá-lo na frente de todos. Ele quer sentir o calor do sol na nuca quando seus lábios são pressionados contra os de Merlin.
Ele não vai, no entanto. Por muitos motivos. O mais importante é que ele não tem certeza de como Merlin reagiria. Eles começaram essa coisa toda de beijar para praticar, certo? É uma sensação agradável, Merlin diria, e Will apenas concordaria como um idiota.
A hora favorita de Will era quando eles terminariam o trabalho e eles poderiam apenas deitar na clareira da floresta como sempre faziam. Eles se beijavam às vezes, sim, mas o momento favorito de Will era quando eles se deitavam um ao lado do outro na grama e olhavam para o céu.
— Você sente algo aqui? — Merlin perguntou-lhe uma vez: — Tipo… como se houvesse algo no ar?
Will engoliu em seco, ele não conseguia parar de olhar, Merlin era tão lindo — Sim.
IV.
A notícia da morte de seu pai chegou por um mensageiro depois que Will completou quinze anos. Will recebeu uma carta, que mal conseguia ler além dos nomes que reconhecia. A carta chegou com um pequeno pacote contendo a cota de malha e o brasão de seu pai. Ele os segurou em suas mãos, o peso disso tudo muito pesado, por muitos momentos antes de ser capaz de se mover de sua casa.
Hunith o estaria esperando. Era seu dia normal de trabalho no campo com Merlin, e ele já estava atrasado. Houve uma batida em sua porta, que se abriu com um rangido, Merlin aparecendo atrás dela.
— Você está atrasado — disse ele — mamãe está procurando por você.
Will não respondeu.
—Vai?
Merlin cruzou a sala até onde Will estava sentado. Ele ouviu Merlin dizer seu nome mais uma vez, mas não conseguiu responder. Em vez disso, ele colocou a carta nas mãos de Merlin e observou o rosto de Merlin enquanto a lia.
—Will- — Merlin disse — O que eu deveria-
— Você pode ler para mim? — Will perguntou: — Eu sei o que diz, mas eu também - eu quero saber exatamente o que diz.
Merlin engoliu em seco, acenou com a cabeça e sentou-se ao lado de Will. Quando ele leu a carta, sua voz vacilou ligeiramente. Era demais, e a mão de Will se moveu por conta própria e agarrou a de Merlin. Will fechou os olhos e ouviu as palavras que Merlin estava dizendo, e simplesmente se segurou.
Seu pai era um homem complicado, e seu relacionamento ainda mais. Após a morte de sua mãe, seu pai ia embora com mais frequência. Foi uma mistura entre mais guerra surgindo entre os reinos e o próprio pai de Will sem saber o que fazer com ele. Aparentemente, ficar longe era a melhor resposta para seu pai.
Quando ele voltava para casa, muitas vezes eram longas palestras para Will sobre como lutar era sua chamada para o dever, que assim que William tivesse idade suficiente ele se juntaria a seu pai na batalha e se tornaria um homem bom e honesto. (Will não tinha certeza de como estar ausente da vida de seu filho significava se tornar um bom homem.)
A notícia da morte de seu pai foi um choque. Foi a confirmação de que Will era oficialmente órfão depois de se sentir como um por anos. Mas os sentimentos que vieram com isso eram confusos. Havia tristeza, mas principalmente raiva. Will estava com tanta raiva que seu pai foi tirado dele lutando por um rei que ele nunca teria conhecido, lutando por algum propósito que ele afirmava ser tão gratificante que o afastou de sua esposa e filho, e só acabou matando-o no fim.
Will foi dispensado de seu trabalho naquele dia. Ele queria recusar - ele queria uma distração e trabalhar no campo era a melhor maneira de fazer isso. Mas ele não queria lidar com as reações dos moradores ao seu redor.
Pela segunda vez em sua vida, as pessoas estavam na pisando em ovos ao seu redor, seus olhos lançando dó em sua direção. O mesmo aconteceu quando sua mãe morreu e ele odiou, os olhares deploráveis, o sinto muito por sua perda, que vieram com a perda de alguém. Todos tinham pena dele. O estúpido Órfão Will sem pais, vivendo sozinho sem ninguém além dele.
Ele acabou na clareira da floresta. Ninguém estava lá e ele sentiu que poderia relaxar. Ele se deitou na grama fria e fechou os olhos, desejando poder dormir por dias. Ele ficou deitado lá por horas sozinho, o sol estava começando a se pôr quando ele ouviu alguém vindo em sua direção.
—Will! — Merlin gritou —Você está aí?
Will soltou um suspiro e sentou-se enquanto observava Merlin passar por entre as árvores. Seus olhos pousaram em Will por um momento antes de se afastarem como se ele tivesse medo de fazer contato visual.
— Não faça isso — disparou Will.
— Fazer o que?
— Ter pena de mim, não preciso da sua pena hoje, Merlin. Não hoje, nem em qualquer outro dia.
Merlin olhou furioso — Não estou com pena de você.
— Sim, claro, ok então.
— Deus, por que você tem que ser tão burro às vezes? Só estou tentando ajudar você.
— Evitar meu olhar e agir como um animal ferido ao meu redor realmente não está me ajudando muito — cuspiu Will.
— Olha, eu só vim para ver como você está, não brigar com você.
Will revirou os olhos, — Bem, estou bem. Você pode voltar para a mamãe agora.
Merlin deu um passo para trás, obviamente ferido, mas não se mexeu. Suas mãos estavam mexendo na frente de si mesmo, e Will não conseguia mais assistir. Ele caiu de volta na grama, pressionando as palmas das mãos nos olhos para impedi-los de queimar.
— Eu só- — a voz de Merlin falhou, e ele levou um momento para continuar — Eu quero ajudar.
Will suspirou, com as mãos caindo ao lado do corpo, — Eu só quero fingir um pouco que tudo está normal — disse ele — Na verdade, eu quero fingir que as coisas estão ainda melhores do que o normal, eu quero uma distração.
Merlin não disse nada, mas acenou com a cabeça, movendo-se para se sentar ao lado de Will. Suas mãos imediatamente foram para a frente dele e começaram a mexer e puxar a grama abaixo deles. Ele parecia muito absorto em seus pensamentos.
— Apenas- — Will parou, esfregando a mão sobre os olhos novamente — Apenas esteja aqui.
O rosto de Merlin suavizou, — Sim — ele sussurrou — Claro.
Will se sentiu relaxado, no final do dia, a pessoa que ele gostaria que estivesse ali com ele era Merlin. Ele não deveria afastá-lo, ele se lembra daqueles dias após o funeral de sua mãe, quando ele estava sem Merlin. Ele não deveria fazer isso a si mesmo novamente.
— Por que você não inicia uma fogueira ou algo assim? — Will sugeriu. Estava escurecendo e eles precisariam de algum tipo de luz em breve, de qualquer maneira.
Há muitos momentos em sua vida que Will nunca esquecerá. Ele nunca esqueceria o dia em que sua mãe morreu, a mão dela na dele enquanto ele se sentava ao lado da cama dela, e ele nunca esqueceria a última vez que viu seu pai cavalgando em seu cavalo para uma batalha que acabaria matando ele, e o que veio a seguir é algo que ele nunca, nunca, enquanto viveu, esqueceu.
Merlin acenou com a cabeça e rapidamente acendeu uma pequena fogueira, mas em vez de enfiar a mão no bolso para tirar a pederneira que Will sabia que ele mantinha no bolso, Merlin colocou a mão na frente da lenha, como se estivesse aquecendo-a em um fogo invisível. Ele estava olhando fixamente, e Will estava prestes a perguntar o que Merlin pensava que ele estava fazendo quando os olhos de Merlin brilharam, quentes como o próprio fogo, e as toras explodiram em chamas sob sua palma.
Merlin era mágico, Will pensou.
— Isso é uma distração boa o suficiente? — Merlin perguntou a ele.
Will sentou-se imediatamente e foi para o espaço de Merlin, segurando seu rosto com as mãos e puxando-o para um beijo profundo. As mãos de Merlin foram para os pulsos de Will e seguraram com força.
Quando Will se afastou, Merlin imediatamente começou a falar.
— Eu nasci assim, Will, sempre quis que você soubesse, mas mamãe sempre disse que era muito perigoso, então eu só estava - estava esperando a hora certa. Nunca havia um momento certo, eu realmente sinto muito. Mas - foi uma distração boa o suficiente? Eu só - eu queria te fazer feliz — ele fez uma pausa — Você me odeia?
Will calou sua boca com outro beijo.
— Eu nunca poderia odiar você.
Ealdor era muito mais vivo com Merlin de volta. Will não o viu pelo resto da noite - ele deve estar ocupado com seus novos amigos Camelot e o Príncipe pelo qual ele deseja tão desesperadamente morrer.
Na próxima vez que Will viu Merlin, ele está cruzando um campo em um pequeno trecho de árvores com um machado na mão. É como uma compulsão, Will o segue.
— Merlin — ele grita — Onde você está indo com essa coisa?
Merlin se vira para ele — Parece que eu estou fazendo o que? Precisamos de madeira.
Will zomba: — Nós dois sabemos que você não precisa de um machado para derrubar uma árvore. — E eu me lembro do problema em que isso me meteu, eu quase achatei o Velho Simmons — Merlin responde, gesticulando na direção da vila.
— Sim, bem, ele mereceu, velho estúpido
— Ele nunca gostou de mim de qualquer maneira — diz Merlin.
— Ainda menos depois disso — Will brinca de volta, e isso lhe vale um sorriso de Merlin, que (que Deus o ajude) aquece aquela parte de Will que apenas Merlin foi capaz de tocar. Eles compartilham um olhar. Merlin está observando com atenção, e Will o observa de volta. Ele deseja que as árvores ao redor deles sejam mais densas, ele quer beijar Merlin, ele quer gritar com ele por ser tão leal a um homem que acabará matando-o no final.
— Por que você está agindo assim? — Merlin pergunta.
— Você sabe por quê — É a única resposta de Will.
— Podemos sair daqui um dia, você sabe.
Eles estavam deitados na grama ao lado do fogo, Merlin estava enrolado ao lado de Will, sua mão brincando com a frente da camisa de Will, Will tinha o braço em volta dos ombros de Merlin.
— Sair do Ealdor?
— Sim — disse Will — Há apenas ... tanta coisa ruim aqui. Às vezes, você não quer apenas ir a algum lugar novo apenas para ficar longe de tudo? Onde ninguém conhece você, começar tudo de novo.
— Eu não acho que eu poderia deixar minha mãe assim — Merlin murmurou.
Will sorriu gentilmente para si mesmo, Merlin sempre foi o filhinho de mamãe bobo. Will virou a cabeça para dar um beijo na testa de Merlin, — Talvez ela pudesse vir conosco, então. Merlin riu, seu braço envolvendo a cintura de Will, as pontas dos dedos arrastando contra a lateral do corpo de Will, fazendo-o estremecer, — Mamãe nunca deixaria Ealdor, mesmo se eu a arrastasse pelos calcanhares.
Eles deitaram confortavelmente na grama juntos por alguns momentos, ouvindo os grilos, o fogo queimando quente ao lado deles. Normalmente, eles teriam que reconstruí-lo a essa altura, mas Merlin o manteve forte e aceso para eles a noite toda.
— Um dia, no entanto — Merlin sussurrou — poderíamos ir para algum lugar novo.
V.
Eles tinham dezesseis anos e era o meio do verão. Era um calor escaldante, o tipo de calor que parecia interminável e fazia o suor brotar na nuca no segundo em que você acordava. Eles foram encarregados de derrubar algumas árvores que ameaçavam cair durante as tempestades de verão.
— Você vai me ajudar ou não? — Merlin riu, dando outro golpe na árvore em que vinha trabalhando há algum tempo.
— Você e eu sabemos que você realmente não precisa da minha ajuda — disse Will de onde estava encostado em outra árvore, esticando os braços atrás da cabeça e sorrindo para Merlin.
— Eu já te disse, — Merlin disse, sua voz caindo para um sussurro — Eu não uso minha magia para fazer tarefas como esta, é muito perigoso.
— Ninguém se importaria — Will disse a ele, novamente. Ele vinha dizendo isso a Merlin há quase um ano.
— Não, as pessoas usariam isso a seu favor e desprezariam seu trabalho, deixando tudo para mim.
Will soltou uma gargalhada: — Agora, quem faria isso?
— Vem me ajudar! — Merlin choramingou.
Will revirou os olhos, sentou-se e caminhou até onde Merlin estava parado na frente do grande toco, o machado ainda na mão.
— Você sabe que pode fazer isso — Will sussurrou para ele — E então poderíamos nos esgueirar um pouco e — Ele balançou as sobrancelhas — Você sabe.
Merlin deu um tapa no peito de Will — Eu não vou usar a minha magia para que possamos escapar para o riacho.
— Você poderia.
Merlin franziu os lábios em pensamento (o que o distraiu um pouco, sim) e Will observou as manivelas girarem na mente de Merlin - era uma de suas coisas favoritas a fazer.
— Só desta vez — disse Merlin — E só porque está muito quente.
— Uh-huh — Will assentiu — Vamos lá, então?
Will estava juntando as coisas o mais rápido que podia e enfiando em sua bolsa. Ele ouviu o padrão familiar dos pés de Merlin: — Não se preocupe, Merlin, não estou interessado.
— Você deveria estar — diz Merlin — porque amanhã Kanen ataca e, quer você goste ou não, você tem que lutar.
— Não se eu não estiver lá — dispara Will de volta. Ninguém jamais foi capaz de lhe dizer com sucesso o que fazer, desde os doze anos de idade, e ele não vai deixar Merlin fazer isso agora. Não com algo como sua vida.
— Isso é com você, mas o resto de nós vai ficar. — Merlin faz uma pausa e Will não levanta os olhos, não conseguia erguer os olhos — Junte-se a nós, Will. Não se trata de Arthur, trata-se de seus amigos. Você realmente vai abandoná-los?
Amargo e com raiva, algo saiu de dentro dele: — O que, como você fez?
A árvore caiu a poucos centímetros do Velho Simmons, teria esmagado-o completamente. Will teria achado engraçado se a expressão pálida no rosto de Merlin não o tivesse feito se sentir absolutamente horrível. Toda a aldeia foi trazida à cena, Hunith permanecendo de lado assistindo a tudo acontecer. Quando todos finalmente saíram, Simmons terminou de dar a Will e Merlin um sermão sobre como prestar atenção e respeitar os mais velhos, Hunith gritou.
— Merlin — disse ela — Venha aqui. Merlin engoliu em seco e ficou cabisbaixo.
— William — disse ela — você termina de derrubar esta árvore agora que ela está no chão.
Will imaginou que não haveria riacho com Merlin naquele dia.
Na verdade, Will não viu Merlin pelos próximos dois dias. Para uma aldeia tão pequena como Ealdor, isso era especialmente estranho. Ele não estava trabalhando nos campos, não estava nos celeiros com os animais. Will percebeu que ele estava em casa, mas tinha a sensação de que Hunith estava realmente chateada com ele e não correu o risco de chegar perto de sua casa.
Will estava deitado em sua cama, bem depois do anoitecer, tentando dormir um pouco, quando ouviu alguém entrar sorrateiramente pela porta.
— O que-
— Desculpe, — Merlin sussurrou — Tive que esperar até que mamãe dormisse.
— Você saiu de fininho? — Will sibilou. Merlin nunca desobedeceu Hunith, ele era um bom menino demais para fazer algo desse tipo.
— Era a única maneira de eu explicar o que estava acontecendo — disse Merlin, ele veio e se sentou na ponta da cama de Will, os braços puxando os joelhos contra o peito.
— Mamãe não sabia que você sabia — explicou ele — sobre minha magia.
Isso foi uma espécie de choque para Will, principalmente porque significava que Merlin estava escondendo um segredo de Hunith por bem mais de um ano, o que era outra coisa que Will não achava que fosse possível que Merlin fizesse.
— Então?
— Bem, eu meio que não deveria contar a ninguém, e ela está chateada por eu ter contado pra você — Merlin disse — Eu quase disse a ela que você sabe há um ano, mas eu prefiro muito mais ter a minha pele no meu corpo, obrigado.
Will riu, Hunith poderia ser implacável se quisesse. Uma mulher tinha que ser para criar um filho sem marido.
— Ok, o quê, então ela está chateada com você? Isso vai passar em alguns dias — Will riu — Por que isso importa?
— Ela acha que mais gente saber é perigoso, ela só quer que eu esteja seguro. Eu… eu nem sempre posso controlar isso, Will. Eu não sei o que estou fazendo na maioria das vezes, simplesmente - simplesmente acontece — Merlin baixou o olhar — Ela quer me mandar embora.
— Mandar você embora ?! — Will gritou. Hunith?
Merlin o silenciou: — Ela… ela tem um tio que mora em Camelot -
— Camelot?! — Will não conseguiu conter o volume: — Como no reino onde a magia é proibida? Merlin, me desculpe, você sabe que amo sua mãe, mas ela tá bêbada ou algo assim?
Merlin fez esse movimento meio encolhendo os ombros e meio agitar com os braços que gritaram, eu não sei!
— Ela conhece alguém que pode me ajudar! — ele gritou: — Eu não posso - eu não posso ficar aqui e esconder quem eu sou nesta vila pelo resto da minha vida - com essa coisa que eu não posso controlar.
— Você vai aprender controlar isso — disse Will.
— Não sozinho — Merlin respondeu, Will podia ver as lágrimas em seus olhos — Eu sou perigoso - quase matei o Velho Simmons!
Will se mexeu na cama e pegou a mão de Merlin na sua — Não, você não fez isso. Merlin, você não é um assassino. Foi minha culpa, eu disse pra você usar sua magia. Nada disso estaria acontecendo se eu apenas ajudasse você a derrubar a maldita árvore.
Merlin balançou a cabeça — Eu simplesmente não sei o que fazer — ele sussurrou — Passei toda a minha vida com essa coisa dentro de mim que eu não consigo controlar direito.
Will o observou por um momento. Ele não queria ver Merlin chorar, ele não queria ver Merlin lutar, mas ele podia ver o quão mal ele estava com essa decisão. E, talvez pela primeira vez, Will viu Merlin como ele realmente era. Will estava com frio e estilhaçado, o órfão residente de Ealdor. Mas Merlin, que era o calor do gelo de Will, estava tão perdido, tão sozinho quanto, de várias maneiras. Will não conseguia imaginar o peso de um segredo tão grande quanto o de Merlin.
— Merlin … — Will sussurrou — Acho que você sabe o que precisa fazer.
Merlin desviou a cabeça de Will e disse: — Você poderia me dizer para não ir. Você sabe que eu não iria.
Will sabia disso. E foi exatamente por isso que ele não pôde dizer a Merlin para ficar.
Eles se beijaram por muito tempo naquela noite. Foi a primeira vez que eles se beijaram em algum lugar diferente de sua clareira especial na floresta perto do riacho. Will estava desesperado, em pânico e desejou não deixar transparecer. Quando Merlin o tocou, foi como se ele estivesse queimando, ele foi o calor da frieza que Will sentiu apossar de seu coração. Ele era tudo e de alguma forma, embora Will não quisesse admitir para si mesmo, ele sabia que parte disso era uma finalidade. Ele e Merlin nunca mais seriam os mesmos.
Merlin deixou Ealdor em uma quarta-feira. Ele não disse adeus.
VI.
O plano final de Will era deixar Ealdor assim que o sol nascesse sobre os campos. Merlin o encontrou fora da aldeia perto do riacho. Estava escuro, exceto pela lua, e Will estava apreciando o que ele acreditava ser um momento final neste local para si mesmo.
— Estava procurando por você — diz Merlin — Achei que você já tivesse ido embora.
— O príncipe acabou com seu grito de guerra? Seus soldadinhos se acomodaram para passar a noite?
Ele ouviu Merlin suspirar atrás dele — Você não vai mudar de ideia? Venha e lute conosco.
Will balança a cabeça, ajustando a alça de sua bolsa em volta dos ombros — Eu não vou sentar e esperar para morrer.
— Você não vai — Merlin insiste. Will sentiu seus olhos revirarem e se virou para olhar para Merlin. Ele não poderia continuar tendo a mesma discussão com ele indefinidamente. Arthur Pendragon faria com que toda a aldeia fosse morta, ele sabia disso. E Merlin poderia impedir.
— Eu posso — Will murmura, baixando o olhar para o riacho novamente. Ele se lembrou de um momento entre os dois aqui, quase dois anos atrás. Para Will, provavelmente era a única vontade de lutar que ele realmente tinha. Ele se levantou e se virou para Merlin.
— Você poderia vir comigo — Diz ele.
— O que?
— Derrote Kanen você mesmo, e depois venha comigo — Will insiste, ele estende a mão em direção a Merlin — O que importa se o seu príncipe estúpido descobrir? Podemos fugir como sempre dissemos que faríamos. Começar de novo em algum lugar juntos.
— Eu- — Merlin gagueja — Will - eu não posso, você sabe que não posso.
— Por que não? — Preciso de muitas coisas em Camelot.
— O que? Por que você é tão desesperadamente necessário? Lavando as cuecas do príncipe? — Will ri, um pouco amargamente — Merlin, você mal consegue se arrumar, como diabos você está fazendo isso por outra pessoa?
— Não - não é isso — Merlin balança a cabeça — É mais importante do que isso.
— O que então? — Will pergunta, desesperadamente: — O que você não está me dizendo?
Merlin olhou de volta para Will, olhos grandes e úmidos, tentando comunicar algo que não conseguia dizer em voz alta, embora Will não soubesse por quê. Então, ele percebeu de repente. A pessoa de quem Will não parou de falar sobre desde que voltou para casa, a pessoa sobre a qual tem ouvido falar de Hunith há meses nas pequenas cartas que Merlin escreveu para ela. Nunca para Will, porém, Merlin não escreveu nada para Will.
— Ele? — Will esperava que sua voz não estivesse falhando.
Merlin pareceu perceber o que Will estava insinuando, o que Will realmente queria dizer, e deu um passo, tentando estender a mão, — Will, não é assim -
— Eu acho que é — Will diz, dando seu próprio passo para trás e colocando a mão como uma barreira entre eles. Ele mal sentia que estava respirando agora, não seria capaz de pensar direito se Merlin o tocasse agora.
— Arthur precisa de mim.
Eu preciso de você, Will pensou, egoisticamente, eu sempre precisei de você e você deveria estar sempre lá. Merlin sempre costumava estar exatamente onde Will precisava dele.
Ele engoliu o aperto na garganta, reprimindo as lágrimas que sabia que viriam — Eu não vou sentar e lutar por um homem que não dá a mínima se eu acabar vivo ou morto —, ele cospe — E nem você deveria. Você é seu servo, nada mais, nada mais. Nunca.
O rosto de Merlin se contorce de emoção antes que ele diga: — Veremos.
Will acenou com a cabeça, seu olhar caindo, — Acho que é isso, então. Adeus, Merlin.
— Will, não-
— Você fez sua escolha — Will cuspiu — Claramente não sou eu.
Merlin não disse nada. E se isso não fosse o prego no caixão, Will não sabia o que era.
No final das contas, Will apenas era fraco. Ele não voltou para lutar por Ealdor ou para honrar seu pai, ou qualquer tipo de motivo ulterior. Ele veio, simplesmente, por Merlin. Embora Merlin tivesse deixado bem claro para onde ele deveria ir depois que a luta terminasse, deixado bem claro com quem seria sua escolha de uma nova vida, Will precisava estar lá. Se Merlin queria morrer ou fazer qualquer coisa para impedir a batalha, Will precisava estar lá para ajudá-lo. Ele não podia deixar Merlin sozinho.
Ele fez a escolha no segundo em que ouviu os gritos de batalha começarem.
— Merlin - Merlin, estou com medo.
— Vai ficar tudo bem.
A dor era insuportável, todo o seu corpo parecia estar queimando o tempo todo, enquanto um calafrio o percorria. A única coisa em que Will conseguia se concentrar era na dor e no rosto de Merlin, e a mão de Merlin em seu cabelo, dedos acariciando indo e voltando.
Pelo menos Merlin estava lá, sempre bem onde-
— Merlin-
