Chapter Text
Em uma noite, onde eu estava meditando no meu dojo, em silêncio, quando eu menos esperava, meu filho, Leonardo, após voltar de uma missão, se aproximou de mim, e disse:
— Desculpe-me por incomodá-lo, Mestre Splinter, eu queria te fazer umas perguntas... sobre a Karai.
Mas eu, que já estava exausto, disse:
— Já é tarde, Leonardo. Essas perguntas terão que esperar por outro dia.
— Ela disse... que o senhor a afastou da mãe dela, e eu sei que isso não é verdade. Não é mesmo?
— Não, não é verdade. Mas a verdade é... tão difícil quanto isso...
E Leonardo, desesperado para saber a verdade, me disse:
— Por favor, sensei! Me diga, confie em mim!
Então, sabendo que eu não teria outra escolha naquele momento, a não ser a de dizer a verdade para o meu filho, respirei fundo, ajeitei minha postura, e disse:
— Karai... é minha filha.
Após proferir essas palavras, o dojo ficou em um silêncio completo. Estava tão quieto que eu podia até mesmo ouvir o som dos batimentos cardíacos de Leonardo, acompanhado de um som de uma ofegância baixa, que sincronizavam-se um com o outro. A situação piorou quando foquei a minha visão diretamente para o rosto de Leonardo: seu olhar estava arregalado, como o de alguém que estava assustado e surpreso com a notícia, ao mesmo tempo em que escorria suor de seu rosto, como se ele estivesse preocupado por algo. Olhei para baixo e notei que seu corpo estava levemente trêmulo, trazendo a impressão de um sentimento de ansiedade, combinado à sua incapacidade de processar a informação naquele momento.
Quando retornei meus olhos ao seu rosto, o meu sentimento de que havia algo de errado com o Leonardo apenas se confirmou: seus olhos estavam úmidos, e ele tentava fechá-los sempre que percebia que uma lágrima estava prestes a escorrer deles, na tentativa de não chorar.
Tentando acalmá-lo, coloquei minhas mãos em seu ombro e perguntei, quase sussurrando:
— Você está bem, meu filho?
E Leo, desviando o olhar, me respondeu, com a voz rouca:
— Sim... eu... eu estou bem sim, sensei. Eu... só preciso passar um tempo sozinho agora. - e se tornou ao seu quarto, sem olhar para trás.
Eu sabia que ele não estava falando a verdade quando disse estar bem. No entanto, eu não poderia interferir nos sentimentos dele. Ele tinha todo o direito de estar se sentindo confuso ou triste, e eu respeitava os sentimentos dele quanto a isso, pois passei pelo mesmo luto quando descobri que Oroku Karai era na verdade Hamato Miwa, minha filha. Entretanto, a impressão de que Leonardo estava se culpando por algo me consumia por dentro, pois era a última coisa que eu queria que acontecesse com ele no dia em que eu resolvesse contar a verdade para ele.
Não conseguindo conter a minha curiosidade paternal, eu fui em direção ao quarto dele, que estava com a porta trancada, me escorei atrás da porta, e tentei ouvir algo. O que ouvi foi o suficiente para me fazer sentir um enorme peso no meu peito e na minha consciência. Era possível ouvir um som de respiração acelerada e uma voz embargada vinda de Leonardo, que estava a dizer coisas como:
— E... eu sou um monstro. Como eu pude fazer isso com o meu próprio pai? Me apaixonei por uma garota que na verdade era... a filha dele. Eu o decepcionei... eu nem sequer mereço ser o filho dele. E como explicar pra ele sobre todas as vezes que disse que estava apaixonado por ela? O sensei nunca mais vai me ver da mesma forma agora... como se já não bastasse ter me apaixonado pela minha inimiga, ainda descobri que essa inimiga é a minha... irmã? Eu sou mesmo uma decepção como filho; um pervertido sujo que nem merece ser chamado de filho. Que pai ainda amaria e aceitaria o seu filho como tal, depois de uma situação como essas? E se ele for me bater, me castigar, ou até me expulsar de casa amanhã, de todas as surras que eu já levei dele, essa com certeza seria merecida... até eu quero dar um soco em mim mesmo agora!
Mas o verdadeiro soco foi o que eu senti no meu estômago ao ouvir estas palavras. O que eu mais temia que acontecesse, aconteceu: Leonardo se sentiu culpado por causa de Karai. Se sentiu sujo por causa de sua paixão inocente por ela, como se ele fosse alguém moralmente depravado por conta disso. Eu o criei por quinze anos, e sabia que isto não era verdade: ele era um dos jovens mais puros e inocentes que já conheci pessoalmente, e ouvi-lo chorando de culpa e medo por ter se apaixonado por Karai, se considerando um pervertido por conta disso, foi de partir meu coração em vários estilhaços.
Por outro lado, eu entendi o porquê do medo e da culpa que ele estava sentindo, afinal, se no calor da emoção eu já bati nele antes, quando ele confessou estar apaixonado por ela, na época em que todos nós pensávamos que Karai era a filha ou aliada do nosso maior inimigo, talvez ele pensasse que, agora, que ambos encontraram que Karai era na verdade Miwa, minha filha que eu pensei ter perdido no incêndio, eu teria um motivo bem mais justificável para fazer isso; bater nele por algo que o mundo chamaria de incesto.
Eu não julgaria qualquer outro pai em uma situação delicada como essa se caso o mesmo acontecesse com eles. Eu entenderia se surgisse neles uma revolta, uma vontade de bater, ou apenas dificuldade de saber o que fazer em um cenário complexo e confuso como este.
No entanto, a essa altura, eu já havia superado boa parte de meus pensamentos confusos sobre isso, e não conseguia condenar Leonardo por sua paixão. Leonardo se apaixonou por ela sem nem sequer imaginar qualquer laço direto ou indireto comigo que ela pudesse ter; nem mesmo eu imaginava que ela fosse minha filha, então eu não poderia julgá-lo por não saber disso também: nenhum de nós imaginava que isso sequer fosse possível.
Por outro lado, saber que Karai era a minha filha não me fez sentir no direito de condenar Leonardo por sua paixão. Eu sei; apenas o fato de pensar na possibilidade de eu me tornar o sogro dos meus próprios filhos foi algo bem difícil para eu processar ou aceitar, mas quando parei para pensar mais nos sentimentos de Leonardo e menos em eu mesmo, eu me dei conta que a situação era apenas complicada, não errada.
Mas eu me preocupava com a possibilidade de Leonardo continuar gostando dela após saber da verdade; não porque eu fosse considerar essa situação hipotética como sendo "incesto", mas porque eu sabia que o resto do mundo interpretaria a situação dessa maneira, e Leonardo, que já se culpava por tão pouco, se sentiria ainda mais problemático, sujo e "impuro" por conta das mais interpretações externas, e, infelizmente, isso já havia acontecido, após eu revelar a verdade para ele.
Naquele momento, eu estava sentindo quatro coisas ao mesmo tempo: tristeza, culpa, e... um pouco de sono, mas acima de tudo isso, uma vontade enorme de enxugar as lágrimas do meu filho e confortá-lo com um abraço. Eu sabia o quão difícil a situação estava sendo para ele, pois para mim também não foi fácil lidar com ela, mas por outro lado, eu não poderia fazer o que eu tinha vontade de fazer naquele momento. Eu estava cansado demais para poder conversar com ele, e também não queria que ele soubesse que eu estava atrás da porta, o ouvindo, quando ele me pediu para que eu o deixasse sozinho após eu ter lhe revelado a verdade. Respirei fundo, e sussurrei para eu mesmo o que eu já queria dizer para Leonardo em voz alta:
— Boa noite, filho. Eu sei que hoje foi um dia um tanto... difícil para você, mas o amanhã será melhor do que hoje para nós dois, eu prometo. Durma bem, e amanhã iremos conversar. - e fui em direção ao meu quarto para poder finalmente descansar, depois de um dia emocionalmente carregado como aquele. Admito, foi difícil que eu conseguisse pegar no sono, já que a imagem de Leonardo chorando e com medo de que eu o rejeitasse não saia da minha cabeça, mas, eventualmente, o sono me venceu, e eu pude descansar.
No dia seguinte, após eu e os meus filhos almoçarem um delicioso prato de Yakissoba, que eu não sei dizer ao certo quem o preparou, talvez fosse o próprio Leonardo, porque ele já preparou macarrão para os irmãos uma vez, mas com certeza não foi o Michelangelo, pois eu conheço o tipo de comida que ele faz de longe, eu esperei até o momento em que Leonardo fosse retornar para a cozinha para comer alguma coisa da nossa geladeira. Assim que eu o vi chegar, eu disse as seguintes palavras, sem perceber o quão sério o meu tom de voz soou:
— Filho, eu quero ter uma conversa com você depois.
E Leonardo, cabisbaixo, disse:
— Eu sei, sensei... eu... eu mereço levar uma bronca depois do que eu fiz.
Ao perceber que ele estava com medo de mim e de uma possível punição, assim como ele estava na noite passada, eu suavizei o meu tom de voz e a minha expressão facial para tentar acalmá-lo:
— Está tudo bem, Leonardo. Eu não irei brigar com você, eu quero apenas conversar. Não precisa ter medo de mim, meu filho. Você não confia no seu próprio pai?
E Leonardo deu um suspiro de alívio e um leve e curto sorriso de canto:
— Tudo bem, sensei. Depois a gente conversa. Só espera eu comer a minha maçã, tá bom?
— Sem problemas, filho. Eu não estou com pressa, só preciso conversar com você.
Após comer toda a maçã, deixando apenas o miolo e o jogando no lixo logo em seguida, Leonardo se virou e foi se aproximando de mim aos poucos, com uma expressão ligeiramente confusa, talvez porque ele estava curioso para saber sobre o que iríamos falar.
Então, eu me levantei da mesa e disse:
— Certo, Leonardo. Por favor, venha comigo até o meu quarto para que nós dois possamos conversar.
E meu filho, mesmo estando confuso, me acompanhou desde a cozinha até o meu quarto, sem questionar e sem dizer uma única palavra. A minha decisão de levá-lo até o meu quarto foi porque eu sabia que era uma situação difícil para ele, e que no momento ele não gostaria que os seus irmãos soubessem disso também.
Assim que chegamos no meu quarto, Leonardo finalmente disse algo:
— Por que me trouxe até aqui, sensei? Sobre o que nós vamos conversar?
Respirei fundo, ajustei o meu tom de voz para poder soar o mais calmo possível, e disse:
— Leonardo, eu sinto muito pelo o que você passou ontem a noite. Eu te ouvi chorar. Eu te ouvi se culpando por causa do que lhe aconteceu...
Leonardo engoliu em seco após eu proferir estas palavras.
— Eu sei, meu filho... Eu entendo que essa é uma situação muito complicada para todos nós conseguirmos lidar; eu também passei por um período de luto em relação à isso. Mas você não precisa se culpar por causa disso, você não tem culpa de nada do que lhe aconteceu. Você foi apenas um jovem ingênuo e apaixonado, como eu também já fui um dia, e estava apenas seguindo o seu coração.
E Leo, com os olhos já em lágrimas, disse, com a voz embargada e trêmula:
— Me desculpe, sensei, eu não sabia que ela era a sua filha, eu não queria te decepcionar!
E eu, enquanto enxugava as suas lágrimas com uma de minhas mãos e acariciava a sua testa com a outra, na tentativa de confortá-lo, lhe dizia:
— Shhhhhhh... não se culpe por causa disso, meu filho, está tudo bem. Você não me decepcionou; eu também não sabia que ela era a minha filha. Mas agora está tudo bem, você não fez nada de errado, a não ser o fato de que você foi imprudente por ter sido feito de bobo por causa de uma garota do clã inimigo.
E Leonardo, ainda chorando, respondeu:
— O-obrigado por não ficar bravo comigo, sensei, mas... eu ainda estou muito confuso com tudo isso, sensei! Primeiro eu me apaixono pela minha inimiga, e depois eu descubro que no fim essa inimiga é... a minha... irmã?! Ai meu Deus, eu só faço besteira atrás de besteira! - e enterrou o seu rosto no meu kimono vermelho para tentar conter as próprias lágrimas.
Eu não pude ver o meu filho naquele estado, chorando como uma criança que precisa de um abraço dos seus pais, sem ceder ao impulso de estender os meus braços para abraçá-lo e sussurrar bem baixinho para ele:
— Shhhh...Leonardo, por favor, se acalme. Está tudo bem, meu filho. Ela não é a sua irmã.
E Leonardo, ainda mais confuso do que antes, se afastou dos meus braços, ergueu a sobrancelha e perguntou:
— Mas... como assim, sensei? O senhor não acabou de dizer que ela é a sua filha? Eu não estou conseguindo entender... é tudo muito difícil e confuso pra mim...
— Eu entendo a sua confusão, filho, mas não é algo tão difícil de entender quando analisamos a situação com mais calma. Sim, ela é a minha filha, Leonardo, mas ela não tem o mesmo sangue que você e os seus irmãos, o sangue dela pertence apenas a mim e a Tang Shen. Além disso, vocês não foram criados ao lado dela como irmãos, igual eu os criei como sendo meus filhos; todos nós pensávamos que ela estivesse morta... Até descobrirmos que ela estava viva, e que era a mesma garota por quem você se apaixonou há algumas semanas atrás. Daqui para frente, ela será sua irmã apenas se você desejar enxergá-la como tal, e ela fizer o mesmo com você. No entanto, no momento, se ela dificilmente irá acreditar que eu sou o verdadeiro pai dela... ela começar a te considerar como irmão é uma possibilidade ainda mais improvável...
E Leonardo, com a expressão mais relaxada e aliviada, perguntou:
— Então... quer dizer que eu não fiz nada de errado? Quer dizer que o senhor vai continuar me amando, mesmo depois de tudo o que eu fiz?
— Claro, meu filho. Você de fato cometeu muitos erros nesse período, mas eles não te definem como alguém mau. Você não é um monstro, meu filho. Vocẽ é apenas um jovem de quinze anos que se apaixonou pela primeira vez. Você não teve intenções erradas ou malícia por trás disso, você apenas seguiu o seu coração, e seguir o coração é uma das coisas mais puras e sinceras que alguém pode fazer. Mas, independente do que você fez ou vai fazer com os seus sentimentos, você ainda é meu filho, e nenhum erro que você tenha cometido, cometa ou vá cometer, vai mudar isso.
Quando olhei para ele, eu percebi um genuíno sorriso largo, daqueles que deixam as bochechas bem erguidas, vindo do rosto dele, acompanhado de pequenas gotas de lágrimas escorrendo dos seus olhos. Eu já havia entendido o que aconteceu; eu finalmente consegui acalmá-lo, e ele se aninhou outra vez em volta dos meus braços, como estava antes, e me disse, com uma voz emocionada, quase presa na sua garganta:
— Eu... eu te amo... papai.
E eu, devolvendo o abraço para ele e aproximando o meu rosto do rosto dele, disse:
— Eu também te amo, meu filho. Bem mais do que você pensa.
Após alguns minutos, quando Leonardo já estava mais calmo, eu me aproximei dele, que estava deitado na minha cama, e perguntei:
— Há algo que eu possa fazer para você se sentir melhor, meu filho?
E ele me respondeu, com um olhar de um cachorrinho carente:
— Só... fica perto de mim, sensei. Eu realmente preciso do senhor ao meu lado agora...
E eu, em resposta, coloquei minha mão em seu ombro, com uma expressão de "está tudo bem, eu sempre vou estar ao seu lado, meu filho"
Leonardo, poucos segundos depois, perguntou, com uma expressão preocupada:
— O senhor vai contar sobre isso para os outros caras também, sensei?
E eu disse:
— A minha prioridade agora é a de preservar a sua dignidade, Leonardo. Eu não irei contar nada aos seus irmãos enquanto você ainda não se sentir confortável o suficiente para que eu faça isso. Você deseja que eu conte isso para eles agora?
E Leonardo sorriu em resposta;
— Obrigado, sensei. É melhor que o senhor não conte... Eu preciso de alguns dias para processar o que aconteceu.
E eu, contente com o fato de que meu filho estava se sentindo melhor, lhe perguntei:
— Você quer assistir algo comigo mais tarde, para te ajudar a se espairecer?
— Sim, sensei.
E eu, tentando "quebrar o gelo" disse, rindo:
Certo, mas por favor, que não seja "Heróis do Espaço" outra vez, porque eu já não suporto mais ouvir a voz do Capitão Ryan, hahaha.
— Hahahaha! Está bem, sensei.
