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você roubou meu coração (eu estava dormindo)

Chapter 4: Capítulo 4

Chapter Text

Assim como nos dias anteriores, Mike já tinha levantado quando Will acorda.

A luz pálida matinal entra pelas cortinas. O espaço ao seu lado na cama ainda está quente, e ele deixa sua mão permanecer lá por um instante, seus dedos pressionados no lençol onde o corpo de Mike estava.

Dessa vez, seus membros não doem. Ele se sente descansado.

E ele está — aquecido.

Julgando a ausência de dígitos no despertador, a luz ainda não voltou. Will continua deitado embaixo das cobertas por um tempo, sabendo que é o mais aquecido que ele estará hoje.

É o cobertor do Mike, ele se lembra — eles trocaram. Algo se revira em seu baixo ventre. Ele fecha os olhos, relembrando da conversa da noite passada — a urgência na voz de Mike enquanto se abria com ele. Will sabe como deve ter sido difícil, porque Mike pode ser muitas coisas, mas bom em expressar emoções não é uma delas.

Will resiste ao ímpeto, dizendo para si mesmo que ele realmente não deveria fazer isso — mas ele cobre o seu rosto com o cobertor.

Ele fica imóvel, de olhos fechados, sentindo a lã contra o seu rosto. Então ele respira — longa e profundamente.

O cheiro de Mike mudou durante os anos — tipo aquela vez em que ele começou a usar um xampu diferente, ou quando a sra. Wheeler ficou interessada em um amaciante novo. Há uma insinuação de algo mais maduro e masculino agora — talvez o seu pai tenha mandado ele usar loção pós-barba, mesmo ele mal precisando dela.

Abaixo daquilo, há o mesmo cheiro que sempre foi de Mike — o que ele conhece desde que eles tinham cinco anos — o cheiro de mil versões diferentes dele, de festas do pijama, de pensamentos reprimidos, e borboletas. Ele respirou esse cheiro a noite toda, seu rosto a centímetros do tecido.

Agora ele o pressiona contra o seu rosto, seu sangue fervendo, o som dos seus batimentos cardíacos em seus ouvidos, de repente se sentindo zonzo e voraz. Ele fingir que não fez isso mais tarde, mas por agora, ele se permite. Só uma vez — em homenagem àquela versão menor e mais boba dele mesmo que achava que só querer algo era suficiente para que se tornasse realidade.

Eventualmente, ele se força a levantar da cama. O frio no quarto é um contraste chocante com o calor debaixo das cobertas. Ele se move cuidadosamente, carregando seu cobertor e seu travesseiro de volta para o porão, se certificando de que o assoalho não estale sem querer.

Ele vê o desenho da noite passada em cima da mesa, lá para qualquer um ver, e parece íntimo demais agora, com a luz do dia, muito cru e revelador.

Quando ele chega na cozinha, apenas Mike, seu pai e Holly estão, seus rostos pálidos e enrugados, cansados do frio.

O rádio na mesa toca uma música com um chiado estático, alta o suficiente para prevenir qualquer conversa.

“Bom dia,” Will balbucia, sentando na cadeira ao lado de Mike. Quando ele olha para cima, Mike já está olhando para ele, com seu cabelo bagunçado e Will está esperando que ele desvie o olhar, mas ele não desvia. Os olhos de Will analisam Mike, lembrando do jeito que ele ficou parado para ele ontem, apesar do tremor em seus ombros.

“Bom dia,” Mike diz com um sorriso sutil.

Mas há outro par de olhos que Will sente sobre si. Ele olha para o outro lado da mesa e encontra o olhar do sr. Wheeler — sem seu jornal, com um cotovelo na mesa, olhos afiados, boca franzida, contra uma caneca de café.

É estranho vê-lo assim. Ver ele apenas estar ali.

Isso dá arrepios em Will.

Do outro lado da mesa, Holly coloca uma fatia de pão no prato de Will e passa a marmelada para ele, os dedos dela deixando uma digital grudenta contra o vidro.

Will deixa ela decidir o que ele comerá de café da manhã — ele não saberia decidir mesmo. Quando ele abre o pote, ela sorri para ele.

 

Agora que já se passaram três dias inteiros sem eletricidade — e sem TV — Ted Wheeler está lentamente enlouquecendo.

Na primeira noite do apagão, ele ficou sentado silenciosamente em sua poltrona reclinável, olhando para a TV apagada, os jornais da semana passada espalhados pelo sofá e pelo seu colo, o rádio ligado no volume máximo. Ele começou a compulsivamente preencher todas as palavras cruzadas das edições anteriores, como se elas pudessem consertar o apagão de alguma forma, balbuciando palavras incompreensíveis.

No dia seguinte, ele dominou o walkie, passando o dia inteiro tentando contatar as autoridades, falando sozinho entre as explosões de estático.

Ontem, ele começou a prestar atenção.

E hoje, ele está assistindo Holly desenhar.

Não está claro se ele está assistindo de fato ou só olhando na direção dela, com os olhos distantes e sem piscar. Mas só essa visão já é suficiente para desconcertar Will. O sr. Wheeler não é do tipo que senta e assiste seus filhos. Ele existe ao lado deles, não com eles.

Mike e Nancy sempre tiveram muita liberdade — ou desinteresse — da parte do pai, sendo por isso que eles puderam usar a casa deles como base de operações nos últimos anos. Com o sr. Wheeler não mais distraído pela TV ou pelo jornal, ele de repente tem mais um par de olhos acompanhando cada movimento seu.

E então, ele começa a fazer perguntas.

“Nancy,” ele diz depois do almoço (outra sopa aguada) enquanto Will ferve água no fogareiro. Nancy já está quase saindo pela porta, seu casaco com o zíper pela metade. “O que você anda fazendo o dia inteiro?”

Nancy olha rapidamente para Mike, como se ela estivesse preocupada com o estado mental do pai deles. O fato dela estar namorando com Jonathan há anos é mantido em segredo, não apenas porque o sr. Wheeler odeia os Byers, mas também porque ele pode facilmente expulsá-los de casa se ele soubesse. Por isso, normalmente, a Nancy e o Jonathan preferem ficar em qualquer outro lugar, mas não em casa.

“Só… saio. Com umas amigas.”

“Eu conheço essas meninas?”

“Ãhn, sim. Lembra da Amy?” Will reconhece o nome como uma das amigas de infância de Nancy, com quem ela não fala há anos. A voz dela está aguda demais, e um pai mais atento teria identificado a mentira na hora.

Ela começa a inventar alguma desculpa sobre se preparar para a faculdade, soltando algumas palavras-chave que sabe que seu pai gosta de escutar (“aplicação”, “preparação”, “extracurriculares”), e ele a deixa ir.

No jantar, é hora de Mike ser interrogado.

“Então, Michael. Como vai a escola?”

Mike olha para seu pai como se ele tivesse enlouquecido. “Desde quando você se importa?” ele murmura e Will e Holly trocam olhares, tentando não rir. Will sempre foi fascinado por como Mike retrucava seu pai com tanta facilidade, porque, para Will, o sr. Wheeler sempre foi um pouco assustador — mesmo quando não fazia ou falava nada.

“Eu me importo sim, filho.” O sr. Wheeler limpa sua boca com um guardanapo, seu tom de voz monótono como sempre.

Mike balbucia algo que parece próximo de nem fodendo.

“Alguma garota legal na sua sala?”

Pai, meu Deus.” Mike resmunga de forma tão dramática que até sua mãe esconde um sorriso.

“É normal garotos da sua idade terem interesse em garotas. Eu certamente quebrei alguns corações quando eu tinha dezesseis anos.”

É irônico, realmente. Como quando ele questiona Nancy, a pior coisa que ela poderia admitir é que namora algum menino — enquanto com Mike, é esperado que ele namore, que seja um homem e parta corações.

“Com certeza quebrou,” a sra. Wheeler diz com um sorriso, quebrando a tensão. “Estou fervendo água para o chá. Alguém quer?”

 

A família passa o dia perto da lareira, a parte mais aquecida da casa. Holly desenha sentada no carpete, com a língua para fora, concentrada, ocasionalmente pedindo conselhos para Will sobre o sombreado ou sobre detalhes.

Will tenta ler, sentado de perna cruzada no chão, quando Mike se junta a ele silenciosamente, com um gibi em mãos. Seu joelho encosta no de Will e ele não ergue o olhar, como se nem tivesse notado.

Parece algo casual — só eles existindo um ao lado do outro, lendo juntos como antigamente. E talvez algo tenha mudado. Talvez as coisas possam voltar a ser como eram.

Will segura um sorriso, se escondendo atrás de seu livro.

Mas o chiado do rádio, mais alto que os estalos da lareira, o lembram da presença do sr. Wheeler, sentado a menos de dois metros de distância deles com uma notória falta de distração, com os olhos se movendo pela sala como se esperasse algo acontecer.

Enquanto olha a sala, seus dedos polegar e indicador viram o seletor do rádio, passando pelos canais.

Novamente, o joelho de Mike esbarra no de Will, enquanto ele procura uma posição mais confortável no carpete.

Holly cantarola baixinho perto deles.

“...nenhuma informação nova sobre o apagão. Recomenda-se que os residentes permaneçam dentro de suas casas e se mantenham aquecidos. Para aqueles passando dificuldades com o frio, existem espaços comunitários gratuitos —”

Estático, depois música. Will tenta ignorar o ruído, focando nas palavras na página, mas ele está muito distraído pela proximidade do joelho de Mike.

“...e voltamos com o Top 40 deste mês —”

Um clique, mais música.

Will olha brevemente para Mike, que está curvado sobre seu gibi, com sua franja caindo no rosto. Ele se lembra de desenhá–lo na noite passada, rabiscando a curva do seu nariz, e agora com a luz do dia, ele vê tantos detalhes que não estavam lá ontem à noite. Seus dedos coçam de vontade de desenhá-lo mais uma vez, desenhá-lo até que ele tenha memorizado cada detalhe, até a última sarda.

Ele se mexe um pouco, só para fazer seus joelhos se esbarrarem de novo, um toque tão leve que poderia ser acidental.

“...essa não é a melhor música que você ouviu o ano todo? —”

Mais um clique.

Talvez eles possam ser amigos de novo. Voltar a ser o que eram, antes de tudo mudar. Talvez agora eles trabalhem como um time, assim como Mike prometeu.

E talvez, seja lá o que está vindo não seja tão assustador, não quando Mike está lá ao seu lado.

“...ativistas homossexuais em São Francisco —”

Há outro clique, então o sr. Wheeler parece mudar de ideia, virando o seletor de volta na mesma frequência. Will ainda está assistindo Mike, mas então Mike ergue o olhar, confuso, e seus olhos se encontram e algo está errado, porque há um lampejo de preocupação nos olhos de Mike, enquanto ele encara o rosto de Will.

É aí que Will começa a prestar atenção nas palavras do rádio.

“...eles dizem que não é uma ‘doença gay’, mas você não vê homens de bem pegando isso, vê?” O homem no rádio diz e Will se sente congelar. “Deus nos envia sinais, e esse é o mais claro de todos.”

De repente, a sala parece apertada e Will está ciente demais de seu próprio corpo, sentado num carpete com uma família que não é a dele, do lado do menino por quem ele está secretamente apaixonado.

E subitamente, parece que todos sabem. Será que o sr. Wheeler voltou nesse canal especificamente por causa dele? Para que saiba que ele sabe? Esse é o jeito dele de mandá-lo se afastar do seu filho? Para parar de olhar para ele?

“Talvez esteja na hora de falarmos de responsabilidade pessoal,” o homem no rádio diz, “Ao invés desses panfletos do governo com métodos de prevenção. As crianças não precisam saber dessas coisas — pelo menos, não as crianças normais.”

As palavras são altas e cortantes e Will pisca; seu olhar fixo na sobrancelha franzida de Mike. Ele ouve o sangue correr nos seus ouvidos.

Mas então Mike desvia o olhar, olhando para baixo novamente, para a página. Will se mexe no carpete, afastando seu joelho alguns centímetros do de Mike, como se o toque devesse ser algo a se evitar de repente. Sua respiração está falha, e ele queria poder sair da sala, mas aquilo daria muito na cara.

Ao invés disso, Will olha para a página borrada, os espaços entre as letras, e tenta se tornar invisível.

Só quando o programa acaba e uma música cristã começa a tocar, ele consegue respirar novamente. O sr. Wheeler muda de canal, como se ele não estivesse mais interessado.

 

O dia inteiro, Will não consegue parar de achar que está sendo observado.

É estranho, porque nos últimos dias ele tinha temido a noite, mas agora a noite parece a hora mais segura do dia, e o quarto de Mike, o lugar mais seguro da casa.

Por volta das 10 da noite, a maioria deles já tinha ido dormir, e Will pega seu travesseiro e seu cobertor do porão. Nas escadas, ele toma muito cuidado.

Ele sabe como isso pode parecer.

Houveram rumores depois que Will desapareceu. Teorias sobre como Will, com apenas doze anos de idade, estava se encontrando com “alguma outra bicha” na floresta, antes de ter sido assassinado e deixado no lago. Ninguém falou isso na cara de Will, mas os rumores na escola se espalharam o suficiente para chegarem nele.

Alguém disse que o sr. Wheeler era uma das pessoas espalhando esse boato para outros pais.

Até hoje, só essa ideia deixa Will enjoado.

Ele pensa sobre isso agora, enquanto fecha silenciosamente a porta do porão, prendendo a respiração no corredor, com os dedos agarrando o cobertor.

Quando Will foi encontrado naquele outono, o sr. Wheeler o proibiu de dormir no quarto de Mike. Will ficava no porão e Mike descia de noite, mascarado pelo som alto da TV.

Mas agora, não tem TV. Não tem ronco. O rádio está desligado. É só silêncio.

Quando o assoalho estala abaixo de seus pés, Will paralisa.

“Quem tá aí?”

Ele prende o fôlego. O travesseiro e cobertor em seus braços parecem pesados e duros.

“Ãhn,” ele consegue falar, “Sou eu.”

Há silêncio. Will encara as escadas para o quarto de Mike a sua frente. Ele deveria ter esperado mais. Ele deveria ter se certificado de que o sr. Wheeler já estava dormindo ou distraído pelo rádio antes de subir.

“Vem aqui um segundo.”

O estômago de Will revira. Prendendo a respiração, ele deixa sua roupa de cama no chão, antes de entrar na sala com passos silenciosos.

O sr. Wheeler está sentado em sua poltrona, com o rádio silencioso em mãos, mas não é muito claro o que ele está fazendo. Provavelmente dormindo e acordando.

Uma única vela queima na mesa, com sua luz tremulando pela sala, lançando sombras que distorcem os móveis em formatos assustadores.

“Por que você está aqui?” ele pergunta.

“Ãhn, eu só vim pegar uma água.” O rosto de Will queima. Tem um banheiro no porão, onde ele pode pegar água. “Quer dizer, eu precisava de um copo.”

Os olhos do sr. Wheeler analisam Will da cabeça aos pés. Não é nem o que ele diz — é que ele nem precisa dizer nada. A voz do rádio de antes ecoa na cabeça de Will.

E talvez o sr. Wheeler não queira assustá-lo. Mas tem algo nele, algo de paternal, que faz Will se sentir visto da pior maneira possível.

Mesmo quando ele era mais novo, ele sempre teve essa sensação com o sr. Wheeler, como se ele soubesse quem ele é. É como se ele conseguisse farejar aquilo nele, o jeito que sua mente é pervertida, como se seu cérebro tivesse um vírus contagioso — e ele tinha que se certificar que seu filho não pegasse esse vírus.

É o que o seu próprio pai dizia — que Will deve ter pegado isso de algum outro menino.

Os cabelos na nuca de Will se erguem, o ar nos seus pulmões fica rarefeito.

Finalmente, o sr. Wheeler resmunga e olha para outro lado. “Ok,” ele murmura, liberando o rapaz.

Will sai lentamente, com a garganta seca.

Na cozinha, ele enche um copo de água, pega o seu cobertor e o seu travesseiro do corredor e desce de novo.

Não importa o quão frio esteja. Ele entra debaixo das cobertas, fecha seus olhos com força, tentando desconectar sua mente e seu corpo, na esperança de conseguir ignorar o frio congelante à sua volta e seus pensamentos, ou a sensação devastadora de não apenas ser visto como uma aberração, mas ser uma aberração de fato.

Porque eles estão certos — o sr. Wheeler e o seu pai. Eles sempre estiveram certos.

É estranho, porque nas últimas noites Will não teve medo das coisas dentro da casa, mas do que espreitava lá fora. Certamente, o pai homofóbico do seu melhor amigo não é mais assustador do que o monstro interdimensional que está tentando te encontrar.

Mas a escuridão não olhava assim para ele.

Ele se sentiu seguro no andar de cima com seu joelho encostando em Mike, perto do calor da lareira. Mas talvez aquilo tenha sido uma ilusão, apenas possível por meio das mentiras que Will conta e todas as coisas que ele reprime.

E talvez o que ele está fazendo seja errado — se esgueirar para entrar no quarto de Mike. Talvez ele nunca devesse ter provocado tamanha pena, que fez o Mike sentir que precisava dividir a cama com ele — não. Não, Will se forçou a parar de pensar assim anos atrás. Ele não vai voltar com esse hábito agora. Ele não vai.

Ele se enrola, abraçando os braços no peito e cobrindo a cabeça com o cobertor, esperando que a sua respiração aqueça o ar lá dentro. Suas roupas estão rígidas com o frio e os seus pensamentos não estão ajudando.

O sr. Wheeler sabe quem ele é. Ele sabe há anos. Hoje, ele o lembrou que a casa é dele, o filho é dele, e que ele pode expulsar Will tão facilmente como o deixou ficar.

E talvez isso não seja verdade — talvez o sr. Wheeler não o expulsasse de verdade. Mas Lonnie costumava dizer isso o tempo todo, quando Will tinha apenas seis anos e eles ainda moravam juntos. Se continuar com essa palhaçada, vai ter que achar outro lugar pra dormir.

Will aperta seus olhos. O porão parece pequeno e vazio. Ele está de volta onde sempre termina — com frio, com medo e se escondendo.

Deve passar uma hora pelo menos, quando um barulho o desperta de seus pensamentos acelerados. A vela acabou, o quarto está um breu. Will está muito soterrado pelo cobertor e pelo frio para dizer qualquer coisa. Depois de alguns segundos, a porta se abre, e há passos silenciosos na escada, pisando pelo assoalho.

“Will?”

Ele não se move. Não responde. Não até uma pequena chama laranja cortar a escuridão e Will descobrir sua cabeça. Mike está de pé ao lado de sua cama, sua face coberta com a luz laranja, enquanto ele acende uma vela. Seus olhos se encontram.

“Você tá bem?” Mike sussurra, voz trêmula de frio.

Will quer contar para ele. Ele quer contar tudo para ele, tirar esse peso dos ombros que ele carrega há tantos anos. Mas ele não pode.

“Sim.”

“Onde você tava? Eu te esperei.”

Will engole em seco, esperando que não seja tão óbvio o quão miserável ele está. Ele se levanta com um cotovelo. “Seu pai — ãhn.” Sua voz parece pesada. “Eu tive que voltar.”

“Por quê?” Mike se ajoelha ao lado do colchão, colocando a vela em cima da mesa. Sua respiração cria uma névoa no ar. Ele se abraça, esfregando os braços. “O que ele disse?”

“Nada, ele só…” Will divaga.

“Você podia só ter subido.”

“Eu te falei ontem, ele não quer que eu durma no seu quarto, Mike.”

“Ele não deixaria você congelar aqui se soubesse como é frio.”

“Ele deixaria.” Will de repente se sente idiota, como se ele estivesse inventando tudo aquilo. Ele se sente frágil demais para discutir. “Ele era assim quando a gente era criança também, lembra? E ele literalmente disse isso três dias atrás, ele disse que garotos da nossa idade não deveriam dormir no mesmo —”

“Bom, ele não sabe porra nenhuma,” Mike interrompe, mais forte do que o normal. Seus dedos se encolhem em suas mangas e os seus ombros tremem de frio. “E, honestamente, eu não ligo pro que ele pensa.”

“Eu não posso enfrentar ele como você enfrenta, Mike.” A exaustão de ter que se explicar pesa em Will. “Ele pode me expulsar de casa. Não é — eu não posso só fazer o que eu quiser.”

Os olhos de Mike examinam o rosto de Will, se suavizando.

“Ok, então — que tal a gente subir juntos e, se ele nos ouvir, eu mandar ele tomar conta da vida dele?”

Will nega com a cabeça silenciosamente. Nada no mundo vai convencê-lo a voltar lá para cima. Não hoje.

“Vai ficar tudo bem, Will. Ele tava dormindo agora.”

“Não”, Will diz novamente. “Não vale a pena.”

Mike suspira. Ele olha pelo quarto. Então ele desaparece nas sombras e volta com o cobertor e o travesseiro do sofá que Jonathan mal usa. “Tá bom. Vai pro lado, então.”

“Quê? Mike, não, tá congelando aqui embaixo —”

“É exatamente por isso que eu vou ficar.” Mike já está agachado do seu lado, seus joelhos raspando as coxas de Will e Will rapidamente se encosta no aquecedor desligado. Ele assiste, enquanto Mike deita do seu lado, ajustando o travesseiro de Jonathan e se cobrindo com o cobertor. “Cara,” ele murmura, um tremor na voz. “Esse cobertor é que nem um tijolo de gelo.”

“Por isso, você não devia dormir aqui.”

“Digo o mesmo pra você.”

Quando Mike se aconchega no espaço apertado pequeno dele, Will não consegue evitar ficar tenso. Isso é diferente de lá em cima — o colchão é estreito, o espaço apertado. Mesmo pressionado contra o aquecedor, com cobertores e roupas entre eles, ele consegue sentir os ombros e o braço de Mike roçando contra ele. Isso o distrai o suficiente para ele esquecer o quão assustado estava antes.

“Ótimo,” Will cochicha, com a voz casual para não entregar que sua respiração estava falhando. “Agora nós dois podemos congelar até a morte.”

Mike solta um riso abafado, mas o barulho é perturbado pelo ranger de seus dentes. Do movimento no cobertor, Will consegue ver que ele está esfregando seus braços. Eles encaram o teto por um tempo, assistindo a luz das velas na viga, o ar enevoado pelas suas respirações.

“Sabe,” Mike diz depois de um tempo. “Eu preferia quando meu pai não se importava.”

Will ri. “Pois é.”

“Ele tá se metendo na nossa vida o dia inteiro. Tipo, quem ele pensa que é?” Tem um sorriso perceptível na voz de Mike, e Will vira a cabeça com cuidado porque não quer perder essa vista. Mike está perto, seus olhos fixos no teto. Um pequeno sorriso em seus lábios, um leve tremor.

“É uma bosta quando o seu pai se importa com você.”

“Exato.”

Eles costumavam se unir nesse ponto: ambos tinham pais ruins de formas diferentes. Enquanto o pai de Mike era mais nocivo por ser ausente, o de Will era agressivo, sempre o xingando.

Os pensamentos de Mike parecem ir pela mesma linha. “Eu sei que meu pai pode ser um babaca, mas ele não é como o seu. Ele é preguiçoso demais para causar dano de verdade. Ele só quer assustar as pessoas, mas normalmente tá só blefando. Hoje, ele provavelmente só tava entediado. Não precisa levar ele a sério.”

Will se lembra do programa de rádio e do jeito que o sr. Wheeler o olhou da cabeça aos pés mais cedo. Talvez seja verdade que nenhuma dessas coisas significou nada, mas ainda se sentiu incrivelmente indefeso.

“Ainda assim. É a casa dele, as regras deles.”

“É uma regra estúpida. Por que a gente não deveria dormir no mesmo quarto? Não faz sentido.”

Will observa o perfil de Mike, que está sombreado por luzes laranjas. Será que ele realmente não sabe? Será que os comentários claramente homofóbicos do seu pai durante todos esses anos realmente — passaram despercebidos para ele?

“Ele acha que eu sou… uma má influência,” Will diz vagamente.

Mike ri. “Você? Você é a pessoa mais inocente que eu conheço, você não bebe nem no Réveillon.”

“Não é isso, Mike.”

Mike vira a cabeça, com as sobrancelhas enrugadas, honestamente confuso. Eles estão deitados tão perto que Will consegue ver as sardas no rosto de Mike. “Então o que é?”

Ele hesita. “Você sabe o que ele pensa de mim.”

A testa de Mike se enruga mais. Seus olhos procuram pelo rosto de Will. Will devolve o olhar, encarando o meio da sua testa.

Assim como eles fizeram no carpete, quando ambos estavam escutando as palavras violentas no rádio.

Will observa, enquanto um nuance de compreensão domina o rosto de Mike, mas é cauteloso e hesitante. “Quer dizer — ele acha que você é — ãh.” Mike para, seus olhos esbugalhados. “Que você é —”

Will o interrompe, antes que Mike possa dizer algo que nenhum dos dois possa retirar depois. “Ele acha que eu sou fraco e quieto e não interessado nas coisas corretas.”

Seu rosto se aquece e tem uma parte dele que deseja não ter interrompido Mike. Uma parte dele queria ouvir ele dizer aquilo — a palavrinha proibida de três letras que os pais deles gostam de usar como insulto.

“Isso.” Mike solta um suspiro, como se ele estivesse aliviado de não ter que completar a frase. “Mas não importa o que ele pensa, Will. Ele não te conhece.”

Ele conhece o meu segredo.

“Ele não te conhece,” Mike repete com mais força.

Mas e se ele estiver certo?

“Mesmo se você fosse… ãhn, essas coisas.”

Um silêncio se espalha entre eles. O coração de Will acelera e seus olhos se arregalam. Os olhos de Mike encaram o rosto de Will, depois ele volta a olhar o teto.

“Quer dizer, mesmo se você fosse… quieto ou fraco — o que você não é,” ele diz, tropeçando nas suas palavras. “E mesmo se você fosse… interessado em coisas que meu pai não entende. Ele não sabe nada sobre você. Ele não sabe do que você gosta ou o que você passou. Ele mal fala com você. A opinião dele não significa nada. Nada.”

Will olha para o teto, piscando. Ele nunca esteve tão próximo de conversar com Mike sobre isso e ele não tem certeza se Mike entende o significado oculto das suas palavras. “É,” ele murmura. “Acho que não.”

“Amanhã, você vai subir pro meu quarto de novo, ok? Não importa o que o meu pai diga. Porque aqui é — um lugar de merda pra dormir.”

Will ri fraco.

Depois de um minuto de silêncio, Mike se vira, ficando de lado para encarar Will. Ele ajusta sua perna e, no espaço estreito, ela entra embaixo do cobertor de Will, o joelho roçando a coxa de Will. Ele não se afasta.

“Você ainda tá tremendo.”

“Você também.”

“É, isso não tá funcionando muito.” Mike suspira, os olhos passando pelos seus cobertores. “Você acha que a gente devia…” Ele hesita, fazendo um gesto vago com as mãos. “Dividir o cobertor? A gente pode empilhar eles. Sabe, para aquecer o corpo. É assim que eles faziam no exército. Ou ainda fazem, eu não sei.”

Will o encara. “O exército?”

“É, por causa do calor. É que — deixa pra lá.”

“Não, ãhn. Acho que é uma boa ideia. Mas o seu pai odiaria isso.”

Mike ri e Will não consegue evitar rir também — é libertador, de certa forma, fazer piada com isso, e Will sente o aperto no seu peito se afrouxar um pouco.

Há um ruído enquanto Mike levanta a borda do cobertor de Will e entra embaixo. A primeira entrada de ar gelado faz Will tremer. As roupas de Mike estão geladas e não ajudando em nada. Ele põe o seu próprio cobertor em cima, assim os dois estão esmagados pelo peso de dois cobertores.

“Tá bom assim?” Mike pergunta, com a voz mais perto.

“Tá.”

Quando eles eram crianças, eles fizeram isso centenas de vezes — dividir cobertores e sacos de dormir, rindo enquanto tentavam ficar acordados a noite toda, mas adormecendo após menos de vinte minutos.

Mike se mexe novamente, virando as costas para Will. Will faz o mesmo. Eles ficam costas a costas, suéteres se encostando. Mike se aproxima até suas colunas se encostarem.

“Provavelmente é bom ficar pertinho,” Mike murmura.

“Isso. Que nem os soldados.”

“Cala a boca.”

O quarto cai em silêncio. Will está muito ciente de tudo — da sua respiração, da respiração de Mike, do barulho dos movimentos de Mike, Mike pressionado de leve contra as suas costas.

Como alguém normal se sentiria neste momento? Alguém que não fosse apaixonado por Mike Wheeler?

Ele não sabe. É difícil imaginar, porque ele é apaixonado por ele há tanto tempo.

Então ele escuta uma voz suave, um “boa noite” baixinho.

E Will se lembra. É o Mike. Ele não pode ter mais a mesma aparência de dez anos atrás, mas ainda é ele. E fica mais fácil respirar.

“Boa noite.” Will se permite relaxar, fechando os olhos e se encostando gentilmente contra ele só para senti-lo ali — sólido e quente e completamente familiar, o ritmo da sua respiração soando em suas costas.

 

Quando ele acorda, a vela se apagou. O quarto está preto.

Mike se move ao seu lado, seus membros longos demais para serem sutis, seu cotovelo esbarrando nas costas de Will.

“O que você tá fazendo?” Will sussurra.

“Foi mal. Não tô achando uma posição confortável.” Ele soa acordado, inquieto, como se ainda não tivesse dormido. “Quer que eu acenda outra vela?”

Will considera por um momento, mas ele se sente seguro o suficiente agora. “Tá de boa.”

Mike se vira de novo, seu peito roçando contra as costas de Will. Então, a voz dele está na nuca de Will, hesitante: “Posso… colocar meu braço em volta de você? Eu não sei onde mais colocar ele.”

“Ãhn, ok.” Will permanece imóvel, enquanto sente o braço de Mike do seu lado. Ele toma cuidado para não tocar em Will com a mão. Quando Mike suspira, Will sente a respiração dele na sua nuca.

“Seu nariz tá gelado,” Will murmura.

“Foi mal,” Mike diz, mas não se afasta de onde seu rosto está contra a pele do pescoço de Will, onde seu cabelo começa. “Mas o seu pescoço tá quente. É bom.”

Will solta uma risada baixa. “Que bom que estou sendo útil.”

Mike ri suavemente atrás dele, sua respiração cutucando os pelos na nuca de Will. Suas respirações estão curtas, seus corpos um pouco tensos, ajustando-se à proximidade fora do comum.

“Tudo bem eu fazer isso?” Mike pergunta.

“Sim,” Will diz.

Ele fica parado e escuta, enquanto a respiração de Mike começa a desacelerar.

Agora é Will que está acordado, olhando para a escuridão, enquanto o ar quente da respiração de Mike o envolvia. Seus batimentos cardíacos estão descompassados. Mas lentamente, seu corpo se aquece. Ele fica acordado até o nariz de Mike estar quentinho e ele conseguir sentir o calor emanando do corpo do outro.

Ele esquece do sr. Wheeler, ou do Vecna, ou da sua voz interior, mandando ele ter vergonha e medo.

Quando suas pálpebras ficam pesadas, ele relaxa ao lado de Mike, e o que resta é a sensação de estar seguro — aqui, nessa cama, no escuro, com ninguém para testemunhar o jeito que Mike está abraçado com ele e o jeito que o seu coração está batendo um pouco alto demais dentro de seu peito.